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Os caçadores de lugares esquecidos

O maior prazer dos exploradores urbanos é estar num lugar silencioso, pouco visitado e eventualmente ameaçado de desaparecer

Por Branca Nunes 27 Maio 2011, 23h32

Entre as descobertas que LTW fez no Recife está a única torre de atracação do Zeppelin que permanece em pé no mundo

Pripyat, norte da Ucrânia, início da madrugada de 26 de abril de 1986: uma explosão no reator 4 da usina de Chernobyl provoca o mais grave acidente nuclear da história, liberando uma quantidade de radiação 400 vezes maior do que a da bomba atômica lançada sobre Hiroshima. Milhares de moradores abandonam suas casas. Embora se calcule que Pripyat levará quase mil anos para voltar a ser um local seguro, a cidade se transformou na Meca de dezenas de pessoas que percorrem o mundo atrás de fábricas, vilarejos, parques de diversão, laboratórios, prédios e qualquer outra construção abandonada pelo homem. São os exploradores urbanos.

O precursor da exploração urbana moderna foi o Suicide Club, formado nos anos 70 em São Francisco, nos Estados Unidos. O grupo realizava excursões por túneis, hospitais, igrejas e pontes da cidade. A prática foi copiada em países europeus, especialmente na França, onde uma das especialidades é percorrer as centenas de galerias subterrâneas de Paris. No Brasil, os exploradores urbanos apareceram no fim de 2010.

Essa comunidade itinerante partilha um “código de ética” que inclui não arrombar portas, quebrar janelas ou destruir cercas – o que estimula fortemente a criatividade em busca da forma de acesso -, não retirar nada do lugar e não deixar qualquer vestígio da sua passagem. Quase todos são adeptos da chamada infiltração (entrada clandestina), fotografam ou filmam a experiência e publicam as imagens nos incontáveis sites “urbex” (como também é conhecida a exploração urbana) que existem na internet (veja galeria de imagens).

Em novembro de 2010, o Urbex Brasil foi criado por Clecio Antão. Diretor da empresa Tupi Tecnologia, Clecio teve o primeiro contato com a exploração urbana casualmente ao visitar em 2007 o vilarejo de Ararapira, no município de Guaraqueçaba, litoral norte do Paraná. Conhecida como Cidade-Fantasma, Ararapira começou a ser abandonada por seus moradores em meados do século XX, depois da construção de um canal que corrói as margens e engole as casas lentamente. Na época, Clecio só caminhou pelas ruas de terra e observou as construções abandonadas. Mas a paixão foi fulminante.

Como costuma ocorrer aos integrantes da tribo, Clecio foi assaltado por uma espécie de encantamento. O maior prazer é estar num lugar silencioso, pouco visitado e eventualmente ameaçado de desaparecer. Por isso, o resgate da memória dessas paragens esquecidas é outro atrativo. Normalmente as imagens são acompanhadas de textos que, além de contar a história dos locais, descrevem minuciosamente os detalhes da expedição.

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Clecio é um explorador um pouco diferente da maioria. Para adaptar o urbex à realidade brasileira, não pratica a “infiltração” e costuma pedir autorização antes de entrar. “Podemos dizer que é um urbex light”, diverte-se. “Em muitos países da Europa, por exemplo, invadir locais abandonados não é considerado crime. No Brasil, além de ser ilegal, temos sérios problemas de violência. Meu barato não é correr riscos”.

Para outros, a adrenalina provocada por estar à margem da lei é um atrativo à parte. O estudante de ciências contábeis que assina suas fotos com o pseudônimo LTW compara a exploração urbana a um esporte radical. Materiais tóxicos, assoalhos podres e escadas instáveis são obstáculos comuns. Pernambucano do Recife e adepto da infiltração, ele já passou alguns apuros em suas caminhadas solitárias: foi atacado por cachorros, picado pelo mosquito da dengue, cortou-se com cacos de vidro e um telhado quase desabou sobre sua cabeça.

“Costumo visitar algumas vezes o lugar antes de partir para a exploração”, diz LTW. “É quando pesquiso a melhor forma de entrar, vejo se está realmente abandonado, se existem vigias e se preciso de algum equipamento ou roupa especial. É uma maneira de correr riscos da forma mais segura possível”. Entre as descobertas que LTW fez no Recife está a única torre de atracação do Zeppelin que permanece em pé no mundo, as ruínas da antiga Telebrás de Pernambuco e o casarão de Othon Lynch Bezerra de Mello, fundador da rede de hotéis Othon.

Além de Ararapira, para onde voltou em 2010 para fotografar a cidade, Clecio já explorou Paranapiacaba e seu cemitério de trens, a estação Luiz Carlos, em Guararema, e os prédios abandonados da Vila Maria Zélia, uma das primeiras vilas operárias paulistas, localizada no bairro do Belenzinho. Foi lá que Clecio nasceu. Certamente por isso é também um dos lugares que mais gosta de explorar.

Embora pratiquem diferentes tipos de exploração urbana, Clecio e LTW trocariam todas as minas abandonadas, navios encalhados, hospícios, instalações militares, shoppings, sistemas de esgoto e complexos empresariais pala concretização do mesmo sonho: circular por Chernobyl. “É o lugar mais emocionante”, diz Dave Baker, fundador do site Talk Urbex. “Caminhar pelas mesmas ruas e ver tudo como era quando ocorreu o incidente. É difícil imaginar a emoção que se pode sentir”.

Clecio Antão, precursor da exploração urbana no Brasil, fotografa um dos prédios abandonados da Vila Maria Zélia, em São Paulo (Foto: Luzia Lacerda)

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