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‘Não é bom ser impedido de cantar’, diz Caetano Veloso

Cantor criticou decisão que vetou show dele em ocupação do MTST e declarou que esta é a primeira vez em que é proibido de cantar no período democrático

Depois de a Justiça de São Paulo barrar o show de Caetano Veloso na ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) em São Bernardo do Campo (SP), o cantor e compositor classificou a decisão como “manobra legal” e afirmou que esta foi a primeira vez em que foi impedido de cantar desde o fim da ditadura militar, em 1985. Mais cedo, a juíza Ida Inês Del Cid, da 2ª Vara da Fazenda Pública de São Bernardo, atendeu a pedido do Ministério Público, que alegou que a área é invadida, que a invasão é ilegal e que o local não tem estrutura para comportar um show desse porte, além de não ter as autorizações necessárias.

“No período democrático, creio que não, é a primeira vez [que é impedido de cantar]. Eu vivi o período oficialmente não democrático, não é bom pra mim ser impedido de cantar”, disse o cantor a jornalistas. Questionado por que havia usado o termo “oficialmente não democrático”, Caetano explicou que “durante a ditadura, era nitidamente uma ditadura, fechou-se o Congresso, não se dizia que era democracia, não era. Mas agora, formalmente, é uma democracia, então a gente tem que obedecer às leis do Estado de Direito”.

Para o cantor e compositor, “manobras legais foram feitas para que o show não pudesse acontecer” e a decisão “dá a impressão de que não é um ambiente propriamente democrático”. “Pode ser um modo de reprimir alguma ação que seria legítima, em princípio. Mas eles apresentam também justificativas por causa de segurança, porque como o lugar não foi vistoriado. Mas não é em um lugar interno, tem espaço, seria possível. Eu acho que há má vontade deles”, criticou Caetano.

Além de Caetano Veloso, a comitiva de artistas contou com as atrizes Sonia Braga, Leticia Sabatella e Alline Moraes, os cantores Emicida e Criolo e a produtora Paula Lavigne, mulher de Caetano. O vereador paulistano Eduardo Suplicy (PT) e o deputado estadual do Rio de Janeiro Marcelo Freixo (PSOL) também participaram do ato.

Caetano disse ter se inteirado da pauta de reivindicações da invasão do MTST a partir de uma conversa com o líder do movimento, Guilherme Boulos, no Rio de Janeiro. Ele argumentou que um terreno como o ocupado pelos sem-teto, que pertence a uma construtora e está vago há 40 anos, “não pode ficar sem função social”. “Não é um parque, não é uma construção para moradia, então, a invasão tem um sentido de exigir que a lei se cumpra, então achei que é legítimo apoiar publicamente e estar perto das pessoas, viver e cantar”, completou.

O cantor ainda declarou que, embora o show tenha sido barrado, as pessoas que participam da invasão puderam ver que têm apoio de parte da classe artística.

Ao fim da curta entrevista a jornalistas, Caetano foi questionado sobre qual música dedicaria aos membros da ocupação. Encorajado por Paula Lavigne, que pediu “uma cantadinha”, “porque isso aqui não é show, é entrevista”, o compositor citou a música Gente, escrita por ele em 1977, e cantarolou alguns versos. Veja abaixo o vídeo e a letra da canção:

Gente (Caetano Veloso)

Gente olha pro céu

Gente quer saber o um

Gente é o lugar

De se perguntar o um

Das estrelas se perguntarem se tantas são

Cada, estrela se espanta à própria explosão

Gente é muito bom

Gente deve ser o bom

Tem de se cuidar

De se respeitar o bom

Está certo dizer que estrelas

Estão no olhar

De alguém que o amor te elegeu

Pra amar

Marina, Bethânia, Dolores,

Renata, Leilinha,

Suzana, Dedé

Gente viva, brilhando estrelas

Na noite

Gente quer comer

Gente que ser feliz

Gente quer respirar ar pelo nariz

Não, meu nego, não traia nunca

Essa força não

Essa força que mora em seu

 

Coração

Gente lavando roupa

Amassando pão

Gente pobre arrancando a vida

Com a mão

No coração da mata gente quer

Prosseguir

Quer durar, quer crescer,

Gente quer luzir

Rodrigo, Roberto, Caetano,

Moreno, Francisco,

Gilberto, João

Gente é pra brilhar,

Não pra morrer de fome

Gente deste planeta do céu

De anil

Gente, não entendo gente nada

Nos viu

Gente espelho de estrelas,

Reflexo do esplendor

Se as estrelas são tantas,

Só mesmo o amor

Maurício, Lucila, Gildásio,

Ivonete, Agripino,

Gracinha, Zezé

Gente espelho da vida,

Doce mistério

Comentários

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  1. Fernando Mello

    A Prefeitura foi correta, inclusive com a pessoa dele.
    Poderia ter deixado ele se ferrar fazendo-o assinar um Termo de Responsabilidade pela segurança do evento.

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  2. Moises Batista Andrade Filho

    Esses safados aproveitadores da desgraça alheia bem que poderiam fazer uma doação de uns R$ 300 mil para 1 ou 2 famílias de invasores comprarem seu imóvel. Serviria de exemplo e aliviaria o drama de alguns. Agora, cantar, mostrar a caquética Sonia Brega e o pessoal todo bater palma e continuar no mesmo barraco sujo e úmido, é fazer pouco caso do sofrimento alheio, é querer aliviar a consciência. Ainda bem que a Justiça não caiu na deles.

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  3. Luiz Osório

    Uma produtora que nada produz e cantores e atores decadentes, acostumados a mamar nas tetas de governos corruptos, passam a apoiar movimentos sociais ilegais, que se aproveitam de pessoas pobres e iludidas com falsas promessas. Por que esses “ricos artistas” não dividem as suas propriedades com os chamados sem teto?

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