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Mãe de Henry volta a acusar advogada informal de Jairinho por intimidação

Aliada do ex-vereador, criminalista rebateu - sem comprovar - que pai do político cassado foi extorquido em R$ 1 milhão pela equipe de Monique Medeiros

Por Marina Lang Atualizado em 15 jan 2022, 13h00 - Publicado em 15 jan 2022, 04h00

Uma situação inusitada ocorreu nesta sexta-feira, 14, no Instituto Penal Santo Expedito, em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, unidade prisional para a qual Monique Medeiros, mãe e ré pelo assassinato do menino Henry Borel, de 4 anos, foi transferida nesta semana. De acordo com a defesa dela, outra presidiária famosa estaria monitorando sua rotina. Trata-se da advogada Elker Cristina Jorge Oliveira, presa em outubro do ano passado sob acusação de ser informante do Comando Vermelho, uma das maiores organizações criminosas do Rio de Janeiro. Ela é ligada a Flávia Froés, criminalista contratada informalmente pela família do ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, e que, paralelamente, também representa a defesa da mesma facção, uma das principais que operam o tráfico de drogas no país. A defensora Flávia Froés, que não compõe a equipe oficial que representa Jairinho, teria ameaçado a mãe de Henry, conforme VEJA mostrou nesta quinta-feira, 13. Em outubro, a reportagem antecipou, com exclusividade, que Flávia ambicionava tomar a defesa formal de Jairinho no processo em que ele e Monique são acusados por homicídio triplamente qualificado e tortura da criança, ocorridos na madrugada de 8 de março do ano passado. Procurada pela reportagem na noite desta sexta-feira, 14, Flávia acusou a equipe de defesa de Monique de extorsão, no valor de R$ 1 milhão, contra o pai do parlamentar cassado, Coronel Jairo (Solidariedade) – sem apresentar, contudo, provas dessa denúncia.

Pai de Jairinho, deputado estadual Coronel Jairo posa ao lado da advogada Flávia Froés
Pai de Jairinho (que figura no porta-retrato ao fundo), deputado estadual Coronel Jairo posa ao lado da advogada Flávia Froés Redes sociais/Reprodução

Advogados de Monique alegam, novamente, uma suposta tentativa de coação parte de Flávia Froés. Em texto protocolado à diretoria da unidade prisional na tarde de ontem, afirmaram que Elker Cristina e seu defensor, identificado apenas pelo nome de Fábio, estariam  em posse dos documentos do processo que envolvem a advogada informal de Jairinho dentro do presídio, “com o nítido propósito de ela [Elker] tomar conhecimento dos fatos descritos na petição”. Hugo Morais, que representa Monique, prosseguiu: “Ao ser indagado, o advogado da senhora Elker confessou, na presença da subdiretora [do presídio em que ambas estão], que trouxe o documento para sua cliente tomar conhecimento, pois ambos possuem relação íntima com a advogada Flávia Froés”. Escrita à mão, a petição foi anexada ao processo no qual Monique e Jairinho são julgados pelo assassinato de Henry. Os advogados acrescentam, ainda, o temor de que ela sofra abusos físicos e psicológicos devido à ligação da advogada informal de Jairinho com Elker Cristina. Tanto ela quanto Flávia Froés trabalharam para nomes do Comando Vermelho. Condenada, Elker foi presa no final do ano passado por ser informante da facção. Tal como Flávia, ela fazia parte da defesa de Marcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, apontado como maior chefe da organização criminosa. Flávia também foi indiciada sob a mesma acusação de repasse de informações a integrantes do Comando Vermelho, em 2010, mas nada foi comprovado e o processo foi arquivado.

A petição encaminhada à unidade prisional foi protocolada nos autos do processo, segundo a defesa de Monique. Nos bastidores, pessoas ligadas ao processo se dizem “chocadas” com a atuação de Flávia Froés. A própria defesa formal de Jairinho, constituída pelo escritório do criminalista Braz Sant’anna, emitiu uma nota ontem rotulando a postura: ”além de antiética, caracteriza, em tese, deplorável prática delituosa”. A VEJA, Flávia rechaçou as acusações e prometeu processar tanto Monique quanto seus advogados de defesa que lhe acusaram.

Suposta extorsão de R$ 1 milhão

Procurada na noite de ontem, Flávia Froés confirmou que mantém amizade com Elker e com Fábio e disse que soube que ambos estiveram no mesmo local em que estavam Monique e seu advogado, mas negou qualquer tipo de intimidação. Em seguida, disparou acusações sobre a defesa de Monique Medeiros. Mais: teceu comentários graves contra os advogados legalmente constituídos pela mãe de Henry. Acusou o criminalista Hugo Novais de ser “bandido” e de responder por dois processos nos quais é acusado de coação. Declarou, ainda, que outro defensor de Monique, Thiago Minagé, fez tentativas de extorsão contra o deputado estadual Coronel Jairo (Solidariedade), no valor de R$ 1 milhão. Na versão dela, o valor deveria ser pago para que a mãe de Henry não incriminasse Jairinho. Flávia Froés, no entanto, não apresentou provas a VEJA em relação a essas alegações.

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“Pode dizer que eu mesma disse isso, são dois bandidos com carteira da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] na mão”, declarou. Em seguida, comentou a nova acusação de coação. “É um absurdo, elas [Monique e Elker] não estão na mesma ala. Esse bandido do Hugo Novais está querendo criar um fato jurídico para induzir a justiça ao erro e soltar a cliente dele”, declarou. Flávia admitiu que defendeou Elker sobre acusações que sua cliente respondeu em relação à associação ao tráfico do Comando Vermelho. Ao ser perguntada sobre o fato de que ambas constituíram a defesa do traficante do Comando Vermelho Márcio Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, irritou-se e tergiversou, apontando que seus adversários também advogam para clientes controversos.

Mesmo com a disputa ferrenha e sangrenta que se formou entre os advogados dos réus no caso Henry nesta semana, Flávia Froés confirmou que acredita na inocência de Monique. Alegou, ainda, que procurou a mãe de Henry na tentativa de explicar isso, e de contar que o pai de Jairinho estaria, supostamente, sendo extorquido pela defesa dela. Declarou que, na visita, Monique lhe disse acreditar que o ex-parlamentar não teria agredido a criança, supostamente lhe dizendo que “se ele tocasse na mão do meu filho, eu mesma matava ele”. “Pode dizer que foram essas as palavras dela”, acrescentou a advogada informal de Jairinho.

Em nota conjunta, a defesa de Monique rebateu as acusações. “Quem respondeu a processo por associação ao tráfico de drogas e repassar informações de bandidos foi ela [Flávia]. Nós, simplesmente, reportamos a conduta criminosa praticada por e reiterada por seus asseclas do poder judiciário. As acusações pessoais realizadas possuem o nítido propósito de desvirtuar a conduta lamentável praticada contra Monique, o que foi, inclusive, objeto de repúdio pelos verdadeiros advogados do corréu Jairinho”. Sobre a acusação de ter extorquido o pai do ex-vereador, o advogado Minagé disse que não rebaterá “algo tão estapafúrdio”. Questionada por VEJA, a Secretaria Estadual da Administração Penitenciária (Seap) não se manifestou até o fechamento da reportagem. A defesa de Elker também não foi localizada.

Já o pai de Henry, Leniel Borel, comentou a troca de acusações neste sábado, 15. Ele, que é assistente de acusação no processo sobre o assassinato da criança, peticionou um pedido de isolamento de Jairinho e Monique no sistema penitenciário, além de se posicionar contra o desmembramento do processo, conforme a defesa da mãe do menino havia solicitado. “Já que a Monique está dizendo que está com medo de morrer e recebendo ameaças, que a juíza determine o isolamento dela”, declarou. Borel defendeu, ainda, que ambos os réus sejam mandados para presídios federais.

Vereador Dr. Jairinho, que foi preso em 8 de abril pela morte do menino Henry Borel
Vereador Dr. Jairinho, que foi preso em 8 de abril pela morte do menino Henry Borel Câmara dos Vereadores/Divulgação
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