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História do Rio é um mar de equívocos

O arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti analisa o desabamento de três prédios no Centro do Rio à luz de outras tragédias que chocaram a cidade ao longo dos séculos

Por Nireu Cavalcanti - 5 fev 2012, 12h31

O centro atual da cidade foi construído numa zona alagadiça, com várias lagoas perenes, imenso manguezal e cortada por vários rios, riachos e córregos que se formavam com chuvas torrenciais. A ocupação dessa área deveria ser entre malha de canais a céu aberto, como Amsterdã. No entanto, a opção de nossos antepassados governantes e de sua população foi desbastar ou demolir os morros e aterrar as áreas molhadas. Criaram o território ideal para os alagamentos e desabamentos de encostas a cada chuva.

O arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti, professor da Universidade Federal Fluminense, é profundo conhecedor do Rio de Janeiro e de sua história. Esta semana, ele voltou ao local da tragédia da Avenida Treze de Maio. Ao ver o Theatro Municipal tão próximo dos prédios que ruíram, lembrou-se do feito de São Sebastião, padroeiro da cidade, em defesa de Estácio de Sá e de seus guerreiros, que caíram numa cilada dos inimigos Tamoios. Seguindo esse caminho retrospectivo, passou em revista outras tragédias cariocas. Analisando suas causas, verificou que pouca coisa mudou em quase 450 anos. E escreveu o seguinte artigo:

Era um final de tarde de um dia de julho de 1566 e, estando em quatro canoas, os fundadores do Rio partiram em perseguição a outras tantas inimigas. De repente, surgiram por detrás do Morro da Viúva inúmeras canoas repletas de guerreiros Tamoios ― os cronistas da época afirmam que eram 180. Nesse momento, surgiu à frente da pequena tropa de Estácio de Sá um jovem guerreiro iluminado e fez explodir a pólvora que uma das canoas inimigas carregava, levando-os a fugir, apavorados.

Desabamento de 3 prédios no Rio de Janeiro, na noite do dia 25 de janeiro
Desabamento de 3 prédios no Rio de Janeiro, na noite do dia 25 de janeiro VEJA

Por muitos anos, foi comemorado esse feito milagroso chamado “Guerra das Canoas” no dia 20 de janeiro. Na Baía de Guanabara havia desfile de embarcações e espetáculo de guerra teatral entre algumas escolhidas.

A visão do Municipal naquele cenário de destruição me fez pensar: “Foi São Sebastião que ficou entre esses prédios e salvou-o.

Deixando essas “lendas históricas” com os nossos antepassados, podemos buscar na história carioca as tragédias que abalaram a cidade e as causas possíveis que as provocaram, ou contribuíram para que ocorressem. Para isso, buscarei as crônicas de Vieira Fazenda, escritas em jornais da época (1896-1914), inestimável legado para a história da cidade e da sociedade, em sua obra Antiqualhas e memórias do Rio de Janeiro, editada, em cinco volumes, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

ERROS HISTÓRICOS – Vejamos dois exemplos de como o Poder público e os usuários da cidade, agindo contra o interesse coletivo e com equivocadas opções urbanísticas, geram problemas como esse do desmoronamento de três prédios, no centro da cidade do Rio de Janeiro.

A origem de muitos dos problemas atuais de nossa cidade decorre da incorreta ocupação do seu território pelos primeiros povoadores, com anuência dos governantes, e continuada ao longo dos anos seguintes. O centro atual da cidade foi construído numa zona alagadiça, com várias lagoas perenes, imenso manguezal e cortada por vários rios, riachos e córregos que se formavam com chuvas torrenciais. Essa área plana, quase ao nível do mar da Baía de Guanabara, situa-se entre os morros isolados do Castelo (demolido em 1922) que abrigava o núcleo histórico da cidade, de São Bento (desbastado), de Santo Antônio (desbastado quase em sua totalidade), de Nossa Senhora da Conceição (desbastado) e do Senado (demolido) e os morros contínuos da Serra da Carioca (Santa Teresa, Catumbi, Estácio e Rio Comprido), Santo Cristo, Saúde e Gamboa.

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A ocupação dessa área deveria ser entre malha de canais a céu aberto, como Amsterdã. No entanto, a opção de nossos antepassados governantes e de sua população foi desbastar ou demolir os morros e aterrar as áreas molhadas. Criaram o território ideal para os alagamentos e desabamentos de encostas a cada chuva. Vieira Fazenda cita as chuvas ocorridas em 14 de abril de 1756, que alagaram as ruas, transformando-as em rios navegáveis por canoas, sendo a mais violenta delas a ocorrida entre os dias 10 e 17 de fevereiro de 1811. Além do alagamento de toda a cidade, parte do Morro do Castelo desabou sobre as casas do Beco do Cotovelo, que ficava em seu sopé, destruindo a maioria delas. Desabou também parte da barreira do Morro de Santo Antônio, na proximidade da atual Rua Treze de Maio. Entre os mortos nessa tragédia estava o famoso bêbado da cidade Bitú, motivo de chacota da garotada moradora nas redondezas do Morro do Castelo.

O autor ainda registra o “dilúvio” que caiu sobre a cidade, como a anunciar o fim do mundo, às 15h30 do dia 10 de outubro de 1864. Caíam pedras de gelo do “tamanho de avelãs” em tanta quantidade que as ruas ficaram cobertas. O granizo destruiu várias edificações e destelhou todo o prédio onde funcionava a Fábrica de Gás, existente na atual Avenida Presidente Vargas. Os problemas decorrentes das chuvas se agravaram com o adensamento de construções e a falta de educação da população, que joga nos logradouros e cursos de água lixo e outros dejetos.

Muitas edificações também eram destruídas pelo fogo, em função do sistema perigoso de iluminação com velas, pelo uso de combustível à base de óleo de baleia, principalmente, o gás (a partir de 1854) e o uso de muita madeira nas construções. A Câmara de Vereadores chegou a estabelecer a proibição do uso do pinho-de-riga, em estrutura, piso e telhados por considerar essa madeira muito vulnerável ao fogo.

Nas construções recentes, a origem de muitos incêndios está na sobrecarga das instalações elétricas, na impropriedade dessas instalações com o uso de materiais inadequados e misturas de redes que deveriam ser separadas, como eletricidade e gás. Contribui para aumento e propagação desses desastres a quantidade de objetos, revestimentos decorativos, móveis etc. de material inflamável como plásticos, papel, madeira e outros.

Pintura de Taunay com o Morro do Castelo ao fundo e sem construções nas encostas
Pintura de Taunay com o Morro do Castelo ao fundo e sem construções nas encostas VEJA

INCENTIVO À ESPECULAÇÃO – A legislação urbanística e de obras públicas da cidade do Rio de Janeiro, em sua essência, serve à especulação imobiliária e pune a classe média trabalhadora, que tem endereço, que paga IPTU e todas as demais taxas municipais ― incêndio, iluminação dos logradouros etc. O rigor da lei só vale para ela, enquanto o poder público se omite em relação aos pobres (que vivem em áreas de risco por falta de opção) e os ricos.

Vejam os acréscimos nos edifícios da orla da Zona Sul. Quantos andares foram construídos, acima do último pavimento! Depois regularizam esses acréscimos através da taxa municipal batizada de “mais-valia”. É o caso do edifício Liberdade (o mais alto), que era escalonado nos últimos andares e a Prefeitura aprovou acrescê-los até a fachada voltada para a Rua Treze de Maio. A Legislação municipal (desde o Código de 1937) incentiva a verticalização das edificações, construídas coladas umas às outras, prejudicando a circulação do ar, a insolação dos cômodos e permite o tapamento dos acidentes geográficos (caso do Morro da Viúva) que formam a bela paisagem carioca. Sem falar que, no período de construção desses espigões, os prédios vizinhos são danificados, gerando eternos conflitos de indenizações que se arrastam anos a fio.

Essas barreiras arquitetônicas são focos de propagação de sinistros, como ocorreu no caso dos três prédios. O Theatro Municipal escapou da destruição porque há uma rua separando-o dos demais, e porque os prédios ruíram sem inclinar em sua direção.

Será que para evitar futuras tragédias decorrentes desse conluio histórico e pernicioso entre poder público e espoliadores da cidade teremos que imitar Estácio de Sá e apelar para a proteção de São Sebastião?

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