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Garimpo irregular no Pará ameaça transmissão de energia de Belo Monte

Atividade de mineração ilegal está desestabilizando o solo sob as torres da linha Xingu-Estreito, que leva eletricidade da usina para o Sudeste do país

Por Mariana Zylberkan - 6 nov 2019, 13h16

Estima-se que existam mais de 400 garimpos ilegais na Amazônia. A expansão do negócio já ameaça há algum tempo terras indígenas e áreas ambientalmente protegidas, mas agora passou a pôr em risco até o fornecimento de eletricidade a boa parte do país. Uma inspeção na linha de transmissão Xingu-Estreito, inaugurada no fim de 2017 para escoar a energia produzida na usina de Belo Monte para a Região Sudeste, detectou a presença de garimpeiros clandestinos na altura da cidade de Pacajá, no sudoeste do Pará, a cerca de 150 quilômetros da hidrelétrica. Pessoas ligadas à empresa dizem ser comum a retirada de atividades irregulares próximo à linha de transmissão, como pesqueiros, plantações de cana-de-açúcar e até condomínios imobiliários, mas o alerta vermelho foi ativado no caso da atividade mineradora devido ao alto potencial de degradação do terreno, o que pode levar à desestabilização do solo e à queda ou afundamento das torres.

O perigo foi formalizado em documento enviado em agosto ao Ministério Público do Pará com o assunto “Risco de desabastecimento no Sistema Elétrico Interligado Nacional”, em referência à rede que abastece quase a totalidade do país. “Diante do cenário constatado na vistoria, reforçamos a nossa preocupação com a desestabilização do solo em decorrência da atividade minerária na região e solicitamos novamente ações (…) para coibir com a máxima urgência o desenvolvimento dessas atividades.”

Apesar de pouco provável, graças a mecanismos que criam alternativas de distribuição quando há um problema no sistema, a interrupção do fornecimento de energia em decorrência da queda de torres não é descartada. Até porque isso aconteceu na mesma linha em janeiro em consequência de um vendaval na divisa entre Goiás e Minas Gerais. Nessas ocasiões, a saída é recorrer às termelétricas para garantir o abastecimento, o que encarece o valor da energia. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), um problema desse tipo na linha afetaria a distribuição de 40% da energia destinada ao Sudeste. Para evitar tal situação, seria bom que as autoridades agissem logo — e não depois, quando estivermos no escuro.

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