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Fidel Castro faz 85 anos

O líder cubano Fidel Castro festeja neste sábado 85 anos, afastado do poder, depois de legar a seu irmão Raúl a gigantesca missão de reformar o esgotado modelo econômico socialista que vigorou na ilha durante meio século.

Durante o VI Congresso do Partido Comunista Cubano, Fidel Castro deixou o último cargo, a chefia do PCC, mas seu ideário é exaltado no discurso oficial, por diversos setores e líderes da América Latina.

Castro chega aos 85 anos no momento em que uma esquerda diversificada governa a região (Brasil, Venezuela, Equador, Peru, Bolívia, Argentina, Uruguai, Paraguai, El Salvador e Nicarágua). O que um dia sonhou conseguir pelas armas, chegou pelas urnas.

As celebrações do aniversário chegam ao auge na noite de sexta-feira com a “Serenata de la fidelidad”, organizada pela Fundação do amigo e pintor equatoriano Oswaldo Guayasamín (1919-99), no Teatro Karl Marx de Havana, mas ainda não foi confirmada sua presença.

Depois de 48 anos no poder, Fidel foi acometido de doença grave, passando o comando ao irmão Raúl em 31 de julho de 2006, marcando o fim de uma era na história da ilha, de 11 milhões de habitantes que, paulatinamente, foram se acostumando a sua ausência.

Raúl impulsiona 300 medidas avalizadas em abril pelo VI Congresso do Partido Comunista (PCC), que incluem a abertura ao setor privado e ao capital externo, além dos cortes de um milhão de empregos e dos subsídios concedidos, como forma de desmontar o Estado paternalista de Fidel.

“Raúl está no comando. Fidel deu a ele autoridade para tomar decisões, mas ainda impõe limites, principalmente nas reformas, que seguem lentas, com cautela”, disse à AFP Michael Schifter, presidente do Diálogo Interamericano, com sede em Washington.

Consagrando as reformas de seu irmão, Fidel causou impacto há um ano com a frase “o modelo cubano já não funciona nem sequer para nós mesmos”.

“Seu momento histórico passou. O Congresso marca a consolidação de Raúl, que é pragmático e racional, mas não democrata, e está tentando resolver os erros e fracassos deixados por seu irmão. A Cuba de hoje não é a mesma que a de 2006”, opinou o economista opositor Oscar Espinosa.

O aniversário o encontra ocupado com o tratamento contra o câncer, realizado em Cuba pelo presidente venezuelano Hugo Chávez, a quem investiu da responssabilidade de “herdeiro político”, demonstrando sua “agudeza conspirativa”, segundo o analista cubano Arturo López-Levy.

“Fidel é o grande conselheiro das decisões estratégicas no país. Na América Latina, é visto como um patriarca da esquerda que aconselha Chávez e reflete sobre os modelos socialistas e seus erros”, acrescentou.

Homem das tribunas e dos discursos quilométricos, Fidel dedicou-se a escrever artigos na imprensa sobre os problemas mundiais – já somam 361 – a partir de seu retiro, na casa da zona oeste de Havana, onde vive com a mulher Dalia Soto del Valle.

“Apesar do afastamento, mantém a liderança dentro e fora de Cuba. Agora está publicando menos porque voltado para acompanhar a saúde de Chávez, mas está aí”, disse Dayamí Arroyo, uma trabalhadora de 32 anos.

Na primeira etapa da enfermidade, o outrora barbudo guerrilheiro de uniforme verde oliva aparecia em vídeos e fotos; mas, há um ano, mostrou uma inesperada recuperação e saiu em público.

Filho de um imigrante galego latifundiário com uma camponesa cubana, nasceu em Birán (sudeste), sendo o único sobreviviente dos protagonistas de la Guerra Fria e uma das figuras mais polêmicas do século XX.

Governou sempre confrontado aos Estados Unidos, sendo considerado por seus seguidores um revolucionário humanista e, pelos opositores, um ditador.

Inimigos em Miami e Washington apostavam que a revolução em Cuba desapareceria quando morresse. Mas sua doença levou a uma sucessão em vida que criou um cenário não previsto por ninguém.

Para analistas, está em curso a transição ordenada numa Cuba diferente do modelo “Fidel no timão”, sem os distúrbios pronosticados. À pergunta: o que acontecerá na ilha quando ele morrer?, a população responde: um funeral.