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Delegado da PF que denunciou ministro responde a processos disciplinares

Nova crise de Alexandre Saraiva com direção da Polícia Federal ocorreu porque ele concedeu entrevistas a veículos de comunicação

Por Cássio Bruno 27 out 2021, 09h41

Sete meses depois de denunciar o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles ao Supremo Tribunal Federal (STF), o delegado da Polícia Federal, Alexandre Saraiva, volta a ficar em meio a uma nova polêmica. Ele terá de responder a procedimentos disciplinares abertos pela direção-geral da PF no Rio de Janeiro por conceder entrevistas a veículos de comunicação. Atualmente, Saraiva dá expediente, sem equipe, na delegacia de Volta Redonda, município do interior do estado, desde quando deixou o cargo de superintendente da corporação no Amazonas.

“Hoje (quarta-feira, 27) vou passar o dia escrevendo minhas defesas em procedimentos disciplinares em razão das entrevistas que concedi  em defesa da Amazônia e da Polícia Federal. Ações injustas e ilegais não me calarão. Muito pior é ficar mudo porque o silêncio será lembrado”, escreveu Saraiva em seu perfil no Twitter. Uma das entrevistas foi para VEJA, publicada em 23 de julho. “Voltei a ser soldado raso, na base da pirâmide. Não tenho mais função de chefia”, lamentou ele na reportagem. “Só posso afirmar que há uma estranha coincidência de causa e efeito entre a apresentação da notícia-crime (contra Salles) e a minha destituição”, completou o delegado.

Os processos disciplinares estão assinados por Fábio Ricardo Hegenbrat Bueno, chefe substituto da Divisão de Comunicação da PF, aos quais VEJA teve acesso. Nos documentos, Bueno cita um artigo do código de conduta da corporação na qual proíbe a concessão de entrevistas “por qualquer servidor, sem a interveniência da unidade de comunicação social respectiva”.

O superintendente no Rio é Tácio Muzzi. A nomeação dele para o cargo ocorreu em maio do ano passado pelo diretor-geral Rolando de Souza em meio a uma crise provocada pelo então ministro da Justiça, Sérgio Moro. O ex-juiz federal acusou o presidente Jair Bolsonaro de interferência política na PF. Souza foi escolhido por Bolsonaro, para comandar a PF após a suspensão da nomeação de Alexandre Ramagem para o cargo por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF.

Acostumado a comandar centenas de policiais em grandes operações, Alexandre Saraiva trabalha hoje com outros quatro delegados e trinta agentes — nenhum subordinado a ele — em uma área de atuação que abrange nove cidades do Sul Fluminense. Em setembro, Saraiva gravou uma música em dueto com a cantora Simone Guimarães pela defesa da Amazônia e lançou um clipe da canção.

Em 14 de abril, Saraiva, então superintendente da PF no Amazonas, apresentou notícia-crime contra o ex-ministro Ricardo Salles e contra o senador Telmário Mota (Pros-RR). Segundo o delegado, Salles e Telmário tiveram uma parceria com o setor madeireiro “no intento de causar obstáculos à investigação de crimes ambientais e de buscar patrocínio de interesses privados e ilegítimos perante a Administração Pública.”

No fim do ano passado, mais de 200 mil metros cúbicos, no valor de 130 milhões de reais de madeira foram apreendidos na Operação Handroanthus. Na época, Salles e Telmário fizeram declarações contrárias à operação da Polícia Federal que levou à apreensão. Eles ainda defenderam a aparente legalidade do material e dos madeireiros investigados.

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