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Com desenho animado e programas chapa-branca, para que serve a TV Brasil?

Com média de mísero 1 ponto, a emissora fundada há doze anos pelo governo Lula tem programação que faz jus ao singelo apelido de "TV Traço"

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 19 jun 2020, 12h51 - Publicado em 19 jun 2020, 12h22

Até que ponto é realmente importante usar o dinheiro do contribuinte para manter uma TV pública que não cumpre essencialmente sua missão? Fundada há doze anos, durante o governo Lula, a TV Brasil, subsidiária da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), que já chegou a exibir os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, e a Copa do Mundo, em 2015, melancolicamente ainda faz jus ao jocoso apelido de “TV Traço” que ganhou por não passar de mísero 1 ponto de audiência. Você não leu errado: em maio de 2020, último dado mensal disponível, sua média de audiência não passou de 1 ponto no Ibope.

Assistimos na última semana toda à programação da TV Brasil e a conclusão é de que a emissora se transformou em um grande canal infantil. Após mudar recentemente a programação, o canal passou a exibir diariamente, das 7h45 às 19h, uma sequência de atrações para crianças, como as séries Gaby Estrella e Detetives do Prédio Azul e as animações Peixonauta, Show da Luna, Mighty Mike, entre outras. Essas atrações, que podem ser vistas em outros canais ou, até mesmo de graça no YouTube, consomem parte do orçamento milionário da EBC, que já gastou 5 bilhões de reais desde que foi criada.

Lançada originalmente com a ideia delirante petista de ser uma BBC nacional, a TV Brasil nunca chegou nem perto da qualidade ou reconhecimento que o canal britânico possui. Desde 2016, quando Michel Temer extinguiu o conselho curador, sua programação passou a ser subordinada totalmente aos humores do governo. Quer dizer, a TV que já não tinha fama de produzir conteúdos jornalísticos críticos ao governo, abandonou de vez essa missão. A partir daí, o que já estava ruim desandou.

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Na grade atual de programação, os desenhos animados só são interrompidos duas vezes durante o dia: pelo noticiário Brasil em Dia e pelo programa de entrevistas Sem Censura. Somente a partir das 19h, a TV se volta para os adultos, com programas jornalísticos, esportivos, documentários e algumas séries como a premiada Sherlock, com Benedict Cumberbatch e Martin Freeman – exibida, vejam bem, no ingrato horário das terças-feiras às 2h30 da madrugada (isso é o que se chama de utilidade pública!). Ainda neste horário, também são reprisadas as séries como O Vigilante Rodoviário, de 1962, criada pela TV TUPI, e filmes do Mazzaropi.

Seria injusto afirmar que a TV Brasil não produz nada próprio. Há programas jornalísticos como Repórter Brasil e esportivos como TV Brasil Esporte que, embora sejam lambe-botas do governo, trazem alguma informação. Mas, desde Lula, a programação do canal sempre foi inconstante. Na época de Dilma Rousseff, por exemplo, grupos de direita criticavam a programação por propagar as preferências ideológicas do petismo. Um exemplo foi a exibição da novela angolana Windeck, produzida pelo filho do ditador do país africano, José Eduardo dos Santos. A atração passou completamente despercebida pelos brasileiros, mas seus produtores receberam os royalties pela exibição no país.

Durante a gestão Bolsonaro, a TV também não ficou isenta de polêmicas. Em abril deste ano, a Associação Brasileira de Imprensa criticou a emissora por ter dedicado duas horas da programação no Domingo de Páscoa para fazer proselitismo das visões do presidente em relação ao coronavírus, com participações de pastores de igrejas evangélicas. A extinção não só da TV Brasil, como também de toda a EBC, foi mais uma das promessas de campanha de Bolsonaro que ainda não foram para a frente. Tocada pelo general Luiz Carlos Pereira Gomes, a empresa foi incluída em um decreto que estuda sua privatização – mas, até agora, nada de se fazer isso concretamente. Já está comprovado que as diferentes maneiras como a TV Brasil foi administrada desde sua criação, sempre com ingerência governamental, não funcionaram. Se for para continuar assim, é melhor fechá-la.

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