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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

O escrete de Felipão e a anglofilia brasileira

Felipão: equipe “reunida às pressas”? (Sergio Moraes/Reuters) E Felipão convocou o escrete para a Copa das Confederações! Não sei até que ponto a palavra escrete, forma aportuguesada do inglês scratch e sinônimo de seleção, soa natural aos ouvidos das novas gerações. Em minha infância era um termo comum, propagado por radialistas e adotado em conversas […]

Por Sérgio Rodrigues Atualizado em 31 jul 2020, 06h13 - Publicado em 18 Maio 2013, 10h00

Felipão: equipe “reunida às pressas”? (Sergio Moraes/Reuters)

E Felipão convocou o escrete para a Copa das Confederações! Não sei até que ponto a palavra escrete, forma aportuguesada do inglês scratch e sinônimo de seleção, soa natural aos ouvidos das novas gerações. Em minha infância era um termo comum, propagado por radialistas e adotado em conversas de torcedores pelo país afora. O Google me informa que ainda é bastante empregado por aí, embora seu sabor de época seja inegável.

Trata-se de um dos muitos anglicismos que moldaram o vocabulário do futebol brasileiro. Alguns foram inteiramente abandonados, como quíper (goleiro). Outros caminham para a obsolescência, como beque (zagueiro) e córner (escanteio). Mas há também os que ainda gozam de ótima saúde, como craque. Todos, como escrete, são formas aportuguesadas de palavras inglesas.

O caso de escrete apresenta uma curiosidade ocasional. Scratch, como se sabe, quer dizer sobretudo “arranhão, risco”. Dicionários de inglês registram, além dessa, muitas outras acepções para o substantivo, inclusive em contexto esportivo, mas à primeira vista nada trazem que se encaixe bem ao nosso sentido de seleção. “Linha de largada numa corrida” não parece ser o caso.

No entanto, é exatamente a essa acepção que o Houaiss recorre para explicar nosso vocábulo, dizendo: “‘linha ou marca desenhada para servir de ponto de partida; linha de partida’, no sentido de que todos os competidores partem da mesma linha, do mesmo ponto, sem handicap”.

A explicação é claramente insatisfatória. Linha riscada no chão para servir de ponto de partida não tem nada a ver com futebol. Handicap, ainda menos. Volto aos dicionários de inglês e, revirando o Webster’s, encontro uma acepção meio obscura que enfim mata a charada: scratch team (com scratch no papel de adjetivo, não de substantivo) quer dizer equipe “reunida às pressas, sem muito critério”.

Sim, deu-se a transformação de um adjetivo em substantivo, mas isso é comum em nossa língua no caso de palavras vindas do inglês – o mesmo ocorreu com shopping (center) e outdoor (advertising), por exemplo. O sentido também foi alterado de negativo (“equipe reunida de qualquer maneira”) para positivo (“equipe reunida para determinada ocasião, mas, ao menos em tese, criteriosamente”). Uma das especialidades da anglofilia brasileira – sincera, mas um tanto desajeitada – é produzir leituras originais desse tipo.

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