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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

Acostumar e costumar: quando se usa cada um?

“Prezado Sérgio Rodrigues, dias atrás deparei-me com esta dúvida: acostumar ou costumar, qual é o correto? Como nos exemplos abaixo: a) ‘Estou acostumado a estudar à noite’ ou ‘Estou costumado a estudar à noite’. b) ‘Eu acostumo estudar à noite’ ou ‘Eu costumo estudar à noite’. Tendo em vista a norma culta, gostaria de saber […]

Por Sérgio Rodrigues Atualizado em 31 jul 2020, 07h00 - Publicado em 24 jan 2013, 12h51

“Prezado Sérgio Rodrigues, dias atrás deparei-me com esta dúvida: acostumar ou costumar, qual é o correto? Como nos exemplos abaixo:

a) ‘Estou acostumado a estudar à noite’ ou ‘Estou costumado a estudar à noite’.

b) ‘Eu acostumo estudar à noite’ ou ‘Eu costumo estudar à noite’.

Tendo em vista a norma culta, gostaria de saber a razão pela qual usamos um ou outro. Se for possível, também seria bem-vinda uma breve explicação da origem e registros. Desde já, muito obrigado.” (Lucas Blanco)

Os dois verbos que Lucas traz para o consultório existem e não se pode dizer que um seja preferível ao outro. São apenas diferentes, embora tenham se formado mais ou menos na mesma época – meados do século 13 – a partir do substantivo costume, este vindo do latim vulgar co(n)stumine, “hábito”.

A semelhança pode realmente provocar confusão. Antes de falar um pouco de cada um deles, convém responder às dúvidas específicas do leitor. As construções corretas são:

a) Estou acostumado a estudar à noite.

b) Eu costumo estudar à noite.

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Isso se dá porque, na maioria esmagadora dos casos, acostumar é sinônimo de “habituar”, enquanto costumar pode ser substituído por “ter por hábito” ou “ser habitual”. O primeiro indica a formação de um hábito enquanto o segundo aponta para um hábito já formado. Acostumar pode ser ou não pronominal e pode ter complemento oracional ou não: “Acostumou os funcionários a obedecer sem discutir”, “Acostumava-se a custo com o calor”. Costumar nunca é pronominal e seu objeto é necessariamente uma oração: “Ela costumava rezar antes de dormir”.

Antes que os gramáticos saquem suas armas, deixo claro que o parágrafo acima é uma simplificação deliberada. Sim, autores clássicos empregaram o verbo costumar como pronominal e com o mesmo sentido de acostumar, em frases como “costumou-se a dormir cedo”, que são gramaticalmente corretas. No entanto, não se recomenda fazer isso no português contemporâneo – não no brasileiro, pelo menos.

Testemos a tal regrinha simplificada (acostumar = habituar; costumar = ter por hábito ou ser habitual) para ver como ficam as frases trazidas por Lucas:

a) Estou acostumado (habituado) a estudar à noite.

b) Eu costumo (tenho por hábito) estudar à noite.

Essa forma de pensar tem a vantagem de funcionar com diversos tipos de construção: “Meus ouvidos se acostumaram (se habituaram) ao barulho”; “Acostumei (habituei) meu cachorro a buscar meus chinelos”. E ainda: “Costuma (é habitual) chover no verão”; “Jogando em casa meu time não costuma (não tem por hábito) perder”.

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