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Por que não me entusiasmo com os “democratas” da Síria

O Conselho de Segurança, que não quis sequer discutir o atentado à cúpula de segurança da Síria, certamente não imporia, um dia depois, sanções ao governo. Com que legitimidade? Se o fizesse, seria o mesmo que aderir a um dos lados da guerra civil. E o que se tem lá é uma guerra civil, com os […]

O Conselho de Segurança, que não quis sequer discutir o atentado à cúpula de segurança da Síria, certamente não imporia, um dia depois, sanções ao governo. Com que legitimidade? Se o fizesse, seria o mesmo que aderir a um dos lados da guerra civil. E o que se tem lá é uma guerra civil, com os insurgentes recorrendo a métodos terroristas — análogos ao terrorismo de estado, este a serviço do regime de Bashar Al Assad.

Chegam a ser engraçadas algumas reações dos cretinos, aqui no Brasil, a textos que tenho escrito sobre a dita “Primavera Árabe”. Alguns petralhas latem: “Vai lá, Reinaldo, se juntar a Assad”. Outros rosnam: “Assad, não permita que os estadunidenses tomem conta da Síria”. “Estadunidense”? Coisa de gente chulé. O Bananão já se chamou “Estados Unidos do Brasil”, mas o patronímico mais óbvio e fácil na nossa língua era mesmo “brasileiros”, como “American” é o mais óbvio, fácil e sintético, em inglês, para quem nasce numa terra denominada “The United States of America”. Afinal, o nome indica que os “United States” então na América, não que toda a América pertence aos “United States”. A menos que se ache que, há quase 250 anos, eles tomaram a decisão precoce de dominar as Américas e o mundo… Tenham paciência! Ainda que seja raro, pode haver uma diferença entre anti-imperialismo e burrice. Mas me desviei. Volto ao ponto.

O fato de eu não ter uma opinião exatamente convencional sobre a Primavera Árabe tem gerado algum ruído. Chamo de convencionais — que não emprego como sinônimo de “erradas” necessariamente — as duas visões majoritárias. A primeira é esta: está em curso o florescimento de uma opinião pública no mundo árabe, mais afinada com os valores das democracias ocidentais, e isso é positivo, razão por que devemos dar apoio, moral que seja, aos levantes contra ditadores asquerosos. É a mais simpática, sem dúvida, e a que tem juntado os que considero equivocados de boa-fé. A outra análise apela a alguns clichês mentais do esquerdismo chinfrim: os Estados Unidos e seus títeres estariam por trás dessas manifestações e, ao darem apoio aos insurgentes, desrespeitam a soberania dos países. Já houve, sim, claro, desrespeito à soberania — a Líbia foi o maior exemplo disso. Mas me parece absolutamente despropositada a suposição de que o “imperialismo” tenha algo a ver com aquilo. Quando menos porque a onda derrubou governos que eram apoiados pelos EUA. Assad é uma exceção. De todo modo, era considerado a moderação possível na Síria.

A minha síntese dos dois grupos pode não ser perfeita — seus respectivos representantes certamente reivindicam opiniões mais complexas e informadas do que isso —, mas serve para esclarecer o meu ponto de vista ao menos. Infelizmente, não acho que o espírito que anima os levantes seja a adesão a valores da democracia ocidental. Ao contrário até: entendo que o que se fortalece nesses países é o radicalismo islâmico. A adesão a instrumentos de consulta da opinião pública — como eleições, por exemplo —, acho eu, é uma etapa na formação de estados religiosos. Repugna-me a ditadura? Ora, é claro que sim! Mas vejo, em estado larvar, uma outra, bem mais perversa. As mesmas mentalidades — as mesmíssimas — que hoje cantam as glórias da Primavera Árabe já cantaram as glórias da “Primavera Iraniana”. Já comentei aqui o entusiasmo com a revolução islâmica liderada pelos aiatolás de um intelectual como Michel Foucault. A quantidade de bobagens que escreveu a respeito, lidas agora, à distância, é uma coisa fabulosa.

Jornalismo
Incomoda-me ainda, e aí é incômodo também profissional, a visão ingênua do jornalismo sobre esses levantes, tratados todos como se fossem da mesma natureza e com as mesmas características. O do Egito, por exemplo, conduzido desde sempre pela Irmandade Muçulmana, não foi armado — não com armas de fogo ao menos. Os “mártires” ofereceram o próprio corpo ao sacrifício, certos da recompensa eterna. Na Líbia, desde o início, assistiu-se à deflagração de uma guerra civil, e os insurgentes, a exemplo do que acontece na Síria, estavam fortemente armados. Quem os financia? De onde saem os recursos? Com quais propósitos? Certamente não são alimentados pelo, sei lá, “Fundo Tocqueville de Apreço Pela Democracia”.

Conheço, já contei aqui, famílias sírias no Brasil que têm parentes em seu país de origem. Desde o começo do levante, relatam a espantosa violência dos insurgentes. Como Assad é um ditador, suas versões sobre os fatos, e não por maus motivos, sempre caem no descrédito. Mas o fato é que também os que se opõem ao governo recorrem a execuções sumárias, ações terroristas, barbárie. Não vou abrir meus braços para essa gente e saudar: “Bem-vinda à democracia!”.

Mais: a Síria é uma espécie de síntese ou emblema de todas as questões que têm se mostrado até agora insolúveis no Oriente Médio, a começar de sua própria composição interna. Os Assad pertencem à minoria alauíta — 10% da população —, um ramo do xiismo odiado, igualmente, pela maioria sunita e pelos xiitas. São hoje parte da elite dirigente do país. A chance de que essa e outras minorias — como a cristã, por exemplo — venham a ser esmagadas é grande. E isso pode se dar sob o silêncio cúmplice da imprensa ocidental, a exemplo do que se verifica no Egito. O assassinato de cristãos naquele país “democrático” se tornou corriqueiro. Estão sendo expulsos de suas propriedades. As igrejas estão sendo incendiadas. Nada disso é notícia!

Assad, por óbvio, não é um ditador simpático a Israel, mas encontrou ali um lugar que eu definiria de passiva beligerância. Não há um só motivo para acreditar que os que querem derrubá-lo investiriam na paz. O atentado, saudado por representantes da oposição síria, foi praticado por um grupo islâmico fundamentalista.

Nego-me a me comportar como o Foucault de Higienópolis, entenderam? Assad é um assassino asqueroso, como era o xá Reza Pahlev, no Irã. Vejam lá a maravilha de democracia e tolerância em que se transformou o Irã… Os métodos a que aderiram os insurgentes sírios não me animam, e não vejo uma trilha virtuosa caso cheguem ao poder — o que parece, a esta altura, inevitável. De resto, entendo que o Oriente Médio e a África islâmica passam, infelizmente, é por um processo de “desocidentalização”, não o contrário. Mais do que Bush, parece ser Barack Obama a alimentar a ilusão de que pode impor o “nosso modelo” aos países árabes. Vamos ver.

A democracia não se resume ao modo como se escolhe o governante. Sem eleição, é certo, o que se tem é ditadura. Mas não basta haver eleições para que o regime seja democrático, como prova o Irã. A depender da natureza do jogo, as urnas podem ser apenas um dos instrumentos de uma tirania — e da pior delas: a que conta com o entusiasmo da maioria. Os Estados Unidos certamente erraram no apoio a ditadores que estariam lá para evitar o pior: o radicalismo islâmico. Obama decidiu corrigir esse erro com outro maior — o que não considero surpreendente: passou a considerar que o ódio profundo ao Ocidente, traduzido na superfície pelo ódio ao ditador de turno, interessa à democracia e à paz. 

Para encerrar: como sempre, espero estar certo quando sou otimista, e errado, quando pessimista.

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