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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Lula recebe título de doutor “honoris causa” e, em companhia do reitor, enfia o pé na jaca. Ou 100% contra 1,6%!

Vejam a imagem acima. Ela é o retrato de um tempo. Lula exibe o seu diploma de doutor honoris causa, conferido pela Universidade Federal do ABC. Até aí, tudo bem! O establishment universitário federal, estadual, municipal ou privado é petista, com exceções aqui e ali. Não há surpresa nisso. Títulos “honoris causa” quase sempre são […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 04h52 - Publicado em 4 dez 2013, 23h12
Lula, ao lado de Dilma, exibe o titulo de doutor honoris causa, observado por Mercadante e Marisa Letícia (Foto: Jorge ARaújo/Folhapress)

Lula, ao lado de Dilma, exibe o titulo de doutor honoris causa, observado por Mercadante e Marisa Letícia (Foto: Jorge Araújo/Folhapress)

Vejam a imagem acima. Ela é o retrato de um tempo.

Lula exibe o seu diploma de doutor honoris causa, conferido pela Universidade Federal do ABC. Até aí, tudo bem! O establishment universitário federal, estadual, municipal ou privado é petista, com exceções aqui e ali. Não há surpresa nisso. Títulos “honoris causa” quase sempre são matéria de simpatia, de afinidades eletivas, não de mérito. Mas não exclui a necessidade do decoro. E foi tudo o que faltou na solenidade da UFABC. A começar, como de costume, do próprio homenageado, que não sabe honrar o mérito da democracia e da República. E foi seguido por um discurso indecoroso do reitor, um tal Helio Waldman.

Em sua fala de agradecimento, informa Diógenes Campanha, na Folha Online, Lula aproveitou para fazer proselitismo político-eleitoral:
“Eu já estou pensando no Brasil de 2022, quando a gente completar 200 anos de independência e fizer uma comparação do que era o Brasil. Aí vai ser duro, Dilminha, quando a gente falar do Brasil que nós deixamos em 2022 e o que nós pegamos”.

Trata-se de um discurso intelectualmente vigarista por vários motivos. Em primeiro lugar, porque o país que o PT pegou era infinitamente melhor do que, por exemplo, aquele que caiu no colo de Itamar e de FHC. Contra os votos do PT, o PSDB liderou o esforço de combate à inflação, com o Plano Real, e fez reformas que foram essenciais para os futuros governos petistas. E teve de enfrentar as sabotagens do petismo. Se o PT ficar no poder mais nove anos, completando 20, o mínimo que se espera é que entregue um país melhor. Estará cumprindo a sua obrigação, não é? Mas não estejam certos disso.

Ao doutor honoris causa não bastava o raciocínio tautológico e emburrecedor. Era preciso avançar na goela dos seus adversários. Ao lembrar que um deputado petista apresentara a proposta de uma universidade no ABC, afirmou:
“Três governos estaduais se sucederam sem atender à reivindicação, mesmo com a aprovação na Assembleia. O governo federal, quando foi procurado, no ano 2000, também rejeitou a proposta.”

Como é fácil ser Lula! São Paulo tem três grandes universidades estaduais — inclusive a USP, a maior do país — e, com efeito, não precisava de uma quarta. Assim, os sucessivos governos tucanos fizeram muito bem em não dar consequência ao projeto. Quanto à suposta recusa do governo federal, Lula sabe muito bem que a proposta jamais chegou a ser debatida a sério.

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O Apedeuta continuou a espancar a verdade porque fala para desmemoriados. Leio na Folha (em vermelho):
Lula disse ainda que as gestões do PT no Planalto, a partir de 2003, criaram 290 escolas técnicas no país, ante 140 que haviam sido feitas “em um século”. “Porque houve um dia um governo que fez uma lei tirando a responsabilidade do governo federal pelo ensino técnico. Era como [se dissessem] faz quem quiser e quem Deus ajudar. Pois bem, nós revogamos a lei e voltamos a fazer escola técnica”, declarou.
“A lei é de 98″, disse Lula, para deixar claro que se referia ao final do primeiro governo de FHC (1994-1998), e foi aplaudido pela plateia.

É mentira!
O ex-presidente está se referindo à lei Lei 9.649, que apenas estabelecida que novas escolas técnicas fossem criadas em parceria entre a União, os estados, o setor produtivo e entidades não governamentais. A íntegra da lei está aqui. A questão de que Lula trata está no artigo 47, a saber:
O art. 3o da Lei no 8.948, de 8 de dezembro de 1994, passa a vigorar acrescido dos seguintes parágrafos:
“§ 5o A expansão da oferta de educação profissional, mediante a criação de novas unidades de ensino por parte da União, somente poderá ocorrer em parceria com Estados, Municípios, Distrito Federal, setor produtivo ou organizações não-governamentais, que serão responsáveis pela manutenção e gestão dos novos estabelecimentos de ensino.
§ 7o É a União autorizada a realizar investimentos em obras e equipamentos, mediante repasses financeiros para a execução de projetos a serem realizados em consonância ao disposto no parágrafo anterior, obrigando-se o beneficiário a prestar contas dos valores recebidos e, caso seja modificada a finalidade para a qual se destinarem tais recursos, deles ressarcirá a União, em sua integralidade, com os acréscimos legais, sem prejuízo das sanções penais e administrativas cabíveis.

Como se vê, a fala dele é mentirosa. Tratava-se, em suma, de uma boa lei.

Será que o PT criou todas essas escolas mesmo? A ver. Há quatro anos, a verdade era bem outra, como notou, então, Paulo Renato, ministro da Educação de FHC em artigo. Transcrevo:
“Segundo as informações do Ministério da Educação, em 2003 o número de alunos matriculados nas escolas técnicas federais era levemente superior ao da rede de escolas técnicas de São Paulo: 79 mil no Brasil inteiro e 78 mil nas escolas técnicas estaduais paulistas. Seis anos depois, em 2009, o Estado de São Paulo registrava 123 mil alunos nas suas escolas técnicas, ante apenas 87 mil nas escolas federais. Assim, entre 2003 e 2009, a expansão das matrículas no governo federal foi de apenas 9%. Nesse mesmo período, o ensino técnico público paulista cresceu 58%, sob o comando de dois governadores do PSDB – Geraldo Alckmin e José Serra.”

O reitor
O reitor da UFABC também enfiou o pé na jaca do proselitismo partidário. Leiam:
O reitor da UFABC, Helio Waldman, também fez um ataque velado aos tucanos em seu discurso. Ao justificar a outorga do título para Lula, ele contou ter visto, durante um debate eleitoral em 2006, o petista se referir à criação da universidade, na época em implantação, como um dos feitos de seu primeiro mandato. “Tive um sentimento de consternação e choque quando o adversário de Lula, em sua réplica, referiu-se também à UFABC, mas para dizer que era apenas um projeto que não ia sair do papel”, declarou o reitor. Em 2006, Lula concorria à reeleição e disputou o segundo turno contra Geraldo Alckmin (PSDB), atual governador de São Paulo.
Waldman afirmou que, naquele momento, já trabalhava havia um ano para implantar a universidade. “E agora um candidato a presidente dizia em rede nacional que nós não íamos tirar aquele projeto do papel? Confesso que, naquele momento crítico, fiquei indignado, mas também preocupado e inseguro com o futuro da recém-nascida UFABC.” Ele disse ter “respirado aliviado” com a reeleição de Lula para o segundo mandato.

Encerro
É preciso verificar se Alckmin disse mesmo o que o reitor lhe atribui. Considerando o amor dessa gente pela verdade, não sei, não… De todo modo, ainda que tivesse dito, é evidente que não cabe a um reitor fazer esse tipo de discurso. Uma coisa é honrar o laureado, outra é atacar seus adversários políticos. Afinal de contas, este senhor não é — ou melhor, não deveria ser — militante de um partido. A UFABC pertence ao estado brasileiro, que é apartidário, não ao PT.

Mas esse é o jogo. O nome desse negócio é aparelhamento do estado. O dia, aliás, é bastante adequado. Saiu a lista das 100 melhores universidades dos países emergentes, um ranking inédito feito pela publicação britânica Times Higher Education (THE). Há apenas quatro brasileiras: as três estaduais de São Paulo — USP, Unicamp e Unesp — e umafederal, a UFRJ.

Em síntese, São Paulo tem três universidades, e as três estão entre as 100 melhores dos países emergentes (100%). Das 61 federais, apenas uma está na lista (1,6%).

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