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Bibi Perigosa tem muito a aprender com Lili Carabina

Apesar de serem iguais na aparência, há uma diferença essencial entre as duas personagens

Por Maicon Tenfen 18 ago 2017, 03h07

Muita gente deve se lembrar de Lili Carabina, personagem que apareceu pela primeira vez num episódio do antigo seriado Plantão de Polícia, da Globo. Como a Bibi Perigosa da atual novela das 9h, Lili foi concebida a partir de uma mulher de carne e osso, no caso a “loira dos assaltos”, figura que marcou a crônica policial dos anos 70.

Ao que tudo indica, várias mulheres — e alguns travestis — usaram a mesma tática em assaltos a agências bancárias do Rio de Janeiro. Com chamativas perucas loiras, desviavam a atenção dos seguranças para que os comparsas se aproximassem com as armas engatilhadas.

Depois de inúmeros roubos, os repórteres policiais batizaram as assaltantes da peruca com um único nome, Lili Carabina, sintetizando a onda de crimes com um toque de glamour. Pronta para a ficção, a personagem foi parar na TV, nos livros, no cinema e agora no teatro, sempre com textos de Aguinaldo Silva.

De todas essas obras, a mais divertida é o filme de 1989, Lili – A Estrela do Crime, com Betty Faria no papel-título. Está disponível no YouTube, mas só acesse se sentir vontade de comprovar a comparação abaixo ou se tiver uma irrefreável queda pelo trash dos anos 80.

É fácil perceber como a personagem de Juliana Paes deve à de Betty Faria, a começar pela sonoridade do apelido: um primeiro nome infantil que denota fragilidade seguido por um polissílabo paroxítono — CaraBIna, PeriGOsa — que sinaliza o perigo representado por uma mulher armada e destemida.

Ambas desafiam a ordem instituída e lutam para se safar da polícia. Há quem veja nisso uma reles apologia do crime, mas há quem entenda a presença de mulheres fortes na teledramaturgia como algo necessário à afirmação dos valores femininos e à igualdade entre os gêneros.

Pois é aqui que tudo fica mais interessante.

Apesar de serem iguais na aparência, existe uma diferença essencial entre Bibi e Lili, algo decisivo para entendermos se figuras como a “estrela do crime” e a “baronesa do pó” ajudam ou atrapalham o chamado empoderamento feminino.

Não se trata de cotejar a qualidade do filme e da novela, muito menos o carisma das atrizes ou o desempenho narrativo dos autores. Trata-se, isso sim, de comparar as personagens em suas motivações e tentar compreender as mensagens que transmitem ao gigantesco público da televisão.

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Comecemos por Bibi Perigosa.

No capítulo de ontem, num diálogo com Caio (Rodrigo Lombardi), quando a personagem de Juliana Paes confessou um incêndio criminoso e foi questionada sobre sua atitude, limitou-se a armar uma cara de coitada, com os olhos rasos d’água, e responder que fez “tudo por amor, pela minha família”, mesmo que a tal família, no contexto, fosse composta por um traficante de drogas com dificuldade de ser fiel no casamento.

Existe uma evidente aura de hipocrisia na história, um ato falho que enfraquece a personagem e a transforma numa mera empregadinha do marido presidiário. Se esta é a mulher forte com que muitas brasileiras se identificam, então estamos mal.

Nesse aspecto, entretanto, Lili Carabina possui uma ética mais direta.

Segundo o especial de TV, os livros, o filme e possivelmente a peça teatral que acaba de estrear, ela se tornou criminosa para vingar a morte do marido. Uma vez no crime, decide se transformar na dona do próprio nariz, sem álibis ou desculpas esfarrapadas, sem conversinhas sobre a família ou justificativas falsamente morais para a ação.

Mais ou menos no meio do filme, ao ouvir um “só te respeitei até agora porque você é mulher dele”, Lili agarra o pretendente pela orelha e vocifera:

— Em primeiro lugar, eu não sou mulher de ninguém (…) Eu tô com ele porque eu quero. Se você me respeita só por causa dele, pode se mandar agora mesmo.

Se é comum que uma personagem masculina entre no crime por rebeldia ou ambição, por que uma feminina precisa fazer a mesma coisa “por amor”? Lili toma o bando para si e se arrisca em constantes desafios à polícia porque gosta de emoção, simples assim, como não se cansa de repetir.

Como bandida — e modelo de empoderamento — Bibi Perigosa tem muito a aprender com Lili Carabina.

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