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O “pulmão da maçã”

A riqueza cultural de um lugar é um bem contra os males psicossomáticos. Xingar na Argentina, por exemplo, deveria entrar nas grandes terapias do século.

Por Gabriela G. Antunes 10 fev 2018, 15h00

Outro dia, eu observava, com espanto, uma senhora agarrar o focinho do meu cachorro e dizer: “meu amor, você é um desastre!”. Estava pronta a reagir quando vi que o tratamento “carinhoso” era geral com os cachorros da região. “Coisa mais terrível! Vem cá, filho da putinha!”, dizia ela a outro canino.

Oito anos de Argentina e vou naturalizando certas expressões que são verdadeiras hipérboles. “Eu estou fuzilada!”. “Voltei à minha casa destroçada!”. “Ele me comeu aos beijos!”. No “lunfardo” argentino, dialeto do espanhol a la italiana falado principalmente na capital, nada disso é uma alusão à gravidade, carnificina ou pornografia São expressões corriqueiras que denotam inconformidade com algo simples, como cansaço e um inocente beijo.

A riqueza cultural de um lugar é um bem contra os males psicossomáticos. Xingar na Argentina, por exemplo, deveria entrar nas grandes terapias do século. Tenho certeza de que eles devem adoecer menos. Ninguém guarda algo. Todo mundo é um “boludo” (bobo) e, aparentemente, a mãe e a irmã de todos nasceram na zona. Tudo é um exagero, do descarrego verbal às metáforas do tango.

Tem um poema do escritor argentino Oliverio Girondo que, para mim, empapa a alma desse drama maravilhoso. “Chore jatos. Chore a digestão. Chore o sonho. Chore diante de portas e portões. (….) Abra as torneiras, as comportas do choro. Empape a alma, a camiseta. Inunde as calçadas e os passeios, e salve-se, nadando, em lágrimas. (…) Comemore aniversários da família chorando. Cruze a África chorando”.

Essa lágrima viva está tão entranhada que os argentinos não percebem o quanto a maneira que falam é excessivamente dramática.

Eu pensava em tudo isso quando, ao mudar de apartamento, me deparei com a nova vista de uma varandinha debruçada sobre um vazio, delimitada por edifícios de maneira quadrangular, um “Pulmón de la manzana”. Trata-se de mais uma expressão local que diz respeito a um vácuo criado entre os edifício de maneira a nos permitir olhar um certo espaço vazio. Normalmente, ele é formado pelas costas dos prédios que, acidentalmente, criam um quadrado. A tradução literal é pulmão da maçã, mas “manzana” se refere, nesse caso, a quarteirão. E o pulmão, a que se destina?

Puxei uma cadeira. Ao meu redor, dezenas de janelas se acendiam. No pulmão dessa maçã estavam as cenas cotidianas dessas inúmeras famílias. O interessante é que o que os argentinos chamam de “pulmão do quarteirão”, esse espaço vazio cercado de vida por todos os lados, é conhecido, em muito outros países de língua hispânica, como “coração de quarteirão”. Aqui, aparentemente, ele não bate. Ele respira.

Gabriela G. Antunes é jornalista. Morou nos EUA e Espanha antes de se apaixonar por Buenos Aires. Na cidade, trabalhou no jornal Buenos Aires Herald e hoje é uma das editoras da versão em português do jornal Clarín. Escreve aqui todos os sábados 

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