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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Coincidências demais (por André Gustavo Stumpf)

Crises se empilhando

Por André Gustavo Stumpf Atualizado em 25 fev 2021, 02h00 - Publicado em 25 fev 2021, 12h00

Coincidências são puramente acidentais? Amigo meu estava numa cidade na Europa do Leste, ao tempo da cortina de ferro, e decidiu almoçar em determinado restaurante. Chegou na porta, não gostou do ambiente, virou as costas e saiu. Minutos depois, o restaurante explodiu.

Não se explica por que alguém gosta ou não gosta de outra pessoa. Há ainda aquela desagradável sensação de já ter vivido determinada situação. O ‘’dejá vu’’ provoca uma estranha percepção extrassensorial, inexplicável.

O assunto é apaixonante. Na política, nas guerras, ou nas ações de espionagem coincidências usualmente são propositais. Na vida profana, as coincidências obedecem a lógica própria. Assustam por serem inexplicáveis.

Quem quiser se aprofundar no assunto sugiro o livro intrigante, inteligente e provocativo cujo título é ‘As razões da coincidência’’, de Arthur Koestler, editora Nova Fronteira. Segundo ele, muitas incertezas podem formar uma certeza, ou grande número de ocorrências fortuitas tendem a desembocar em resultado previsível de acordo com a teoria das probabilidades.

Mas a coincidência a que me refiro é o fato deste deputado de fundo do plenário, ex-policial militar, ex-motorista de ônibus, produzir vídeo com ofensas pesadas, ataques furiosos e afirmações tenebrosas contra ministros do Supremo Tribunal Federal sem que nada justificasse tamanho desvario.

Não aconteceu por acaso. Provocou enorme repercussão, os ministros não gostaram e, por unanimidade, mandaram prender o meliante. Confrontar as onze excelências não é atitude recomendável para quem tem juízo. Parece que ele não tem nenhum. Mas tem o perfil do tipo ideal para realizar provocação deste quilate.

Lee Oswald, o homem acusado de atirar no presidente John Kennedy, era um tipo controvertido. Ex-fuzileiro naval, de repente, declarou-se marxista, decidiu se mudar para a União Soviética, morou em Minsk por mais de dois anos, casou-se com uma russa. Depois retornou a Dallas.

No dia do assassinato ele estava perto do local onde o presidente passou em carro aberto. Oswald foi preso dentro de um cinema. Quando deixava a delegacia de polícia, também foi assassinado. Personagem ideal, meio lunático, metido a salvador da pátria, soldado profissional norte-americano que transferiu sua residência para o inimigo por vontade própria.

Tinha o perfil adequado para se encaixar no conceito policial de prender os suspeitos de sempre. Ninguém sabe até hoje, ao certo, quem matou Kennedy.

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No início do movimento fascista na Itália, Mussolini, que era jornalista, produzia artigos vigorosos contra o regime e seus seguidores, chamados de camisa preta, promoviam badernas públicas contra o sistema. Intimidavam as pessoas, agrediam, batiam e matavam.

Intimidar é essencial. Na escalada do nazismo na Alemanha, também os defensores de Hitler se reuniam nas milícias chamadas de SS, que agrediam, intimidavam, matavam e disseminavam o ódio. O método era o mesmo. Provocar, intimidar e disseminar o ódio. Tudo muito parecido com o que está acontecendo no Brasil de hoje.

Estas confusões, provocadas por pessoas sem qualquer importância, têm o poder de mudar o foco do debate nacional, na imprensa e nas redes sociais. O país está sem vacina, sem orçamento, sem as comissões temáticas no Congresso, sem auxílio emergencial e a pandemia continua a matar brasileiros numa velocidade superior a mil óbitos por dia.

Na realidade, o Brasil está em guerra. O inimigo é invisível, mas ele existe, é perceptível e provoca estrago nunca imaginado. Trata-se de cataclisma de consequências devastadoras. Não há previsão razoável para o fim da pandemia. No próximo ano haverá eleição. Ou seja, mais aglomeração. Mas a ação do meliante é a principal pauta da imprensa.

O governo não se preparou no tempo certo para imunizar os brasileiros. O general da logística não percebeu a extensão do problema. Quando entendeu, o estrago já estava feito. E seguindo a tradição histórica brasileira, abandonou os estados do norte. A Amazônia é outro país, que foi socorrido pelos venezuelanos.

As crises vão se empilhando, umas sobre as outras. Os brasileiros não são aceitos em outros países. O país está ilhado. Cumpriu-se o objetivo do ministro Ernesto Araújo. O Brasil transformou-se num pária. Nicolas Maduro, presidente da Venezuela, também era motorista de ônibus antes de assumir o poder. Em Caracas, ele governa em proveito próprio em nome da defesa da pátria. Apoiado por seus principais chefes militares.

Coincidências muito coincidentes.

 

André Gustavo Stumpf escreve no Capital Político. Formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), onde lecionou Jornalismo por uma década. Foi repórter e chefe da sucursal de Brasília da Veja, nos anos setenta. Participou do grupo que criou a Isto É, da qual foi chefe da sucursal de Brasília. Trabalhou nos dois jornais de Brasília, foi diretor da TV Brasília e diretor de Jornalismo do Diário de Pernambuco, no Recife. Durante a Constituinte de 88, foi coordenador de política do Jornal do Brasil. Em 1984, em Washington, Estados Unidos, obteve o título de Master em Políticas Públicas (Master of International Public Policy) com especialização política na América Latina, da School of Advanced International Studies (SAIS). Atualmente escreve no Correio Braziliense.

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