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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A celebração da morte

Crueldade nas veias

Por Ricardo Noblat - Atualizado em 21 ago 2019, 08h44 - Publicado em 21 ago 2019, 07h00

A levar em conta a estridência que marca suas falas e a falta de piedade que o caracteriza, até que o presidente Jair Bolsonaro não foi tão mal assim ao comentar o desfecho do sequestro do ônibus no Rio que resultou na morte do sequestrador. Ele disse: “Não é para ter pena”. Em seguida, elogiou a Polícia Militar.

No caso, o mal, a irresponsabilidade e o oportunismo político foram encarnados pelo ex-juiz Wilson Witzel, o governador do Rio, candidato desde já a presidente da República em 2022 como ele mesmo admite e já avisou a Bolsonaro, ou à reeleição na pior das hipóteses. Seu comportamento foi cruel para dizer o mínimo.

Era de se esperar que Witzel fosse ao local cumprimentar a tropa  da Polícia Militar que procedeu como mandam os protocolos internacionais. Foi uma operação tecnicamente perfeita. Salvou a vida dos passageiros feitos reféns. E deu todas as chances para que o sequestrador se entregasse. Infelizmente, ele preferiu ser morto.

Inesperado e chocante foi o desempenho do governador à saída do helicóptero que o transportou. Acompanhado de um assessor que filmava tudo para que fosse postado nas redes sociais, Witzel deu pulinhos no asfalto, socou o ar várias vezes, sorriu e acenou como se fosse um torcedor a celebrar um gol do seu time.

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Não ficou só nisso. Abraçou demoradamente o chefe da operação de resgate, concedeu entrevistas e entrou no ônibus para rezar com os passageiros que o aguardavam. A reza coletiva foi motivo de outra postagem nas redes. Mais tarde, em novo encontro com repórteres, exibiu-se tendo à sua frente uma boina da PM.

O que a televisão mostrou ao vivo durante horas para todo o país nada teve a ver com a polícia orientada por Witzel a atirar na cabecinha de bandidos que portem fuzis, e nada a ver com a polícia autorizada por ele a disparar de cima de helicópteros na população dos morros cariocas. Foi outra polícia. Quanto a ele, foi o mesmo.

Há poucos dias, seis jovens inocentes foram mortos pela polícia de Witzel. De janeiro último para cá, balas perdidas em trocas de tiros entre policiais e bandidos mataram 33 pessoas no Rio. “Quem mata é o crime”, gosta de repetir o governador. Não é verdade. A polícia também mata, e cresce o número de abatidos por ela.

Não será à bala que diminuirá a violência no Rio. A política de enfrentamento do crime organizado só terá êxito se combinada com a política de ações sociais e de maior oferta de serviços públicos. É o que prova farta literatura universal, e também experiências que se frustraram no próprio Rio.

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Cerca de 2,5 milhões de moradores do Rio vivem em áreas dominadas pelo tráfico de drogas e pelas milícias, segundo levantamento do Ministério da Defesa à época do governo Temer. Não há notícias de territórios subtraídos ao crime organizado desde que Witzel começou a governar. Tudo está por se fazer.

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