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Quem manda em Fernández: Cristina, filho dela e até o papa

Presidente eleito tenta manter a pose, mas todas as muitas correntes peronistas estão metendo a colher no novo governo; adivinhem qual será o resultado

Por Vilma Gryzinski 26 nov 2019, 12h38

Desde 1950, a Argentina passou 33% do tempo em recessão, segundo o Banco Mundial. Pior colocação global, só a República do Congo.

A legislação fiscal mudou 80 vezes desde 1988.

Em 84 anos, foram 61 presidentes do Banco Central.

Os dados, reunidos pela Bloomberg, desprezam os mais conhecidos sobre crises monetárias, surtos de desvalorização, presidentes derrubados ou fugidos, ditaduras, violentos conflitos internos, controles de capitais e calotes seriais.

Mauricio Macri chega ao fim de seu mandato, quase miraculosamente, exibido uma boa e lamentável parte dessa ficha suja.

Chega a dar peninha de de Alberto Fernández, que assume no dia 10, como um exemplo das bizarrices argentinas – um presidente eleito pela vice, Cristina Kirchner?

Ah, não mesmo.

Fernández é bem grandinho , inteligente, ladino e bem informado. Sabe o tamanho do rojão que tem na mão.

Em princípio, combinou com Cristina que ele ficaria com a montagem do governo e ela com as articulações no Congresso.

Hahaha.

Seria o caso de dar risada se todo mundo já não soube do abismo entre declaração e gesto. Cristina quer, Cristina tem.

Exemplos: o controle do judiciário (onde responde processos por corrupção serial, protegida pelo mandato de senadora e, agora, de vice-presidente) e do serviço de inteligência.

A coisa foi renomeada como Agência Federal de Inteligência. Fernández pensou em simplesmente dissolver o negócio, tão usado em serviços sujos durante os governos do casal Kirchner, inclusive no assassinato/suicídio do juiz Alberto Nizman por causa do acordo de Cristina com o Irã de livrar a barra dos operadores do atentado contra a associação judaica AMIA.

Mas pensou melhor, sabe-se lá por quê. A AFI continua e Cristina está lixando ainda mais as garras, quer dizer, unhas.

No curto prazo, a prioridade dela é anistia da filha, Florencia, internada num hospital cubano com edema nas pernas, anorexia, depressão e bronca com a família por ter sido envolvida em seus rolos na justiça.

Máximo Kirchner, deputado, controlará os diferentes grupos, inclusive o seu, chamado La Cámpora, que o PJ-K tem na Câmara.

Para quem ainda se confunde com os labirintos do peronismo: as iniciais correspondem a Partido Justicialista (o nome oficial) da corrente kirchnerista.

Isso, oficialmente. Extraoficialmente, já esta provado e comprovado o que ele faz.

Roubo de míssil

O pessoal também ganhou o Ministério da Defesa, como não? O nome dos Kirchner já foi acusado de desvio de armas, inclusive um míssil, mas isso provavelmente faz parte do currículo necessário para o cargo.

Carlos Zannini, outro nome K, vestá cotado para voltar como procurador-geral do Tesouro.

Também tem um processo, exatamente pelo caso do acobertamento do atentado contra a AMIA, mas se o critério fosse ficha limpa, quem sobraria?

Ele também já passou seis meses em prisão preventiva. Mas escutem só: falando a um grupo de juristas, o papa Francisco, conhecido na Argentina como Jorge Bergoglio, condenou especificamente o mecanismo da prisão preventiva e a politizando do judiciário, o lawfare.

Acharam que era um recado era sobre o recém-liberado influencer de Curitiba ou, livre-nos Deus de preocupações tão banais, até presos comuns.

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Pode ser. Mas na Argentina tem um bocado de corruptos em prisão preventiva, inclusive o ex-vice-presidente Amadou Boudou, um dos bonitões de Cristina, que vão se beneficiar do novo governo e das bondades papais.

Um papa, aliás, confessadamente simpático ao peronismo no passado (e no presente também, com restrições), embora seu predileto na leva atual de governantes esquerdistas, na ativa ou na espera para voltar a dar o bote, seja Evo Morales.

Aliás, Bergoglio também está dando seus palpites. O “homem forte” do novo governo no Vaticano é Horacío Rodríguez Larreta, que tem uma relação pessoal com o papa argentino.

É ele o portador dos recados papais. Inclusive recomendações para cargos. No último governo Kirchner, tentou emplacar até um ministro do Supremo Tribunal.

Como Mauricio Macri tentou fazer, sem sucesso, Alberto Fernández já avisou que vai legalizar o aborto.

Mas parece que o papa não está tão ligado nessas coisas.

Até chamou a atenção de deputados argentinos que o visitaram em comitiva e se jactaram de ter votado contra o projeto de legalização.

“Quem levantou esse tema?”, reclamou. Queria falar de “temas sociais”.

Quem sabe se os deputados tivessem levado uma Pachamama, chamariam mais atenção.

‘Bruxa malvada’

Excepcionalmente, o futuro ministro da Economia, Guillermo Nielsen, não tem ficha na Justiça. Foi uma escolha de Alberto Fernández, que afinal tem direito a dar seus palpites.

Nielsen, que já foi secretário de Finanças no governo K, é descrito como liberal, o que quer que isso signifique para um economista peronista.

Para a esquerda pura e dura, é um “neoliberal ortodoxo”o xingamento mais forte que pode existir.

Diante da tarefa à sua frente, talvez fosse melhor ser mágico.

Por escolha própria ou truques superiores, a provável secretária de Comércio Exterior será Paula Español, que já ocupou o cargo.

Atenção para a posição da senhora Español sobre sua própria atividade: “O governo tem o fetiche de que só com acordos comerciais será possível comerciar mais e melhor”.

A Argentina precisa “ter mercado interno, inovação e financiamento”, recomendou a economista e, igualmente, maga.

Foram espetadas dela que levaram o chanceler Ernesto Araújo a cogitar até uma dissolução do Mercosul.

Se o próximo governo argentino não quer priorizar o comércio e tem pavor do acordo do Mercosul com a União Europeia, qual seria a opção?

Paula Español tem reputação de briguenta. No passado distante, envolveu-se num “escândalo entre os economistas do ambiente heterodoxo_ – já deu para entender?

No meio, estavam Axel Kicillof, outro dos Cristina’s Boys, depois ministro da Economia, e uma ex-namorada, Mercedes D’Alessandro, professora de Epistemologia na faculdade de economia da Universidade de Buenos Aires.

Com epistemologia e tudo, ela acusou Paula Español, então candidata a senadora, de “maus tratos e despotismo” com assessores.

“Por trás desse grande sorriso, se esconde uma bruxa malvada”, atacou, com fúria trotskista, em tuíte posteriormente deletado.

Haja Pachamama para proteger a Argentina em sua nova fase.

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