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Deu ruim: mais um ucraniano para complicar a vida de Trump

Lev Parnas, uma figura do lado cinza da força, muda de lado e passa a colaborar com os que querem fritar o presidente; e não é a única má notícia para ele

Por Vilma Gryzinski - 17 jan 2020, 12h17

Emoções novas todos os dias são o normal no governo de Donald Trump.

Por exemplo, alguém ainda se lembra que ele autorizou o disparo dos mísseis Hellfire que pulverizaram Qassem Soleimani e, teoricamente, provocariam uma guerra total?

Pois é, já era.

A abertura do julgamento do impeachment de Trump voltou a ser a obsessão nacional.

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O Senado já está transformado num tribunal, presidido por John Roberts, o juiz principal, ou presidente, da Suprema Corte.

Para comemorar, duas bombas.

Uma envolvendo o GAO, o departamento independente que trabalha para o Congresso e fiscaliza como é utilizado o sagrado dinheirinho do contribuinte americano dirigido pelo Poder Legislativo para todos os programas governamentais.

Pois o GAO concluiu que Trump mandou congelar uma verba de 400 milhões de dólares, aprovada pelo Congresso, para forçar o governo ucraniano a investigar eventuais atos de nepotismo ou corrupção dos Biden, pai e filho.

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Em burocratês, diz o relatório do GAO: “A execução fiel da lei não permite ao presidente substituir suas próprias políticas prioritárias por aquelas que o Congresso erigiu em lei”.

Em linguagem normal: Trump agiu contra a lei.

Ponto para a oposição que trabalha ostensivamente para conseguir o impossível, ou seja, convencer dois terços do Senado a aprovar o afastamento do presidente dos Estados Unidos.

Ou, mais realisticamente, desconstruí-lo para que chegue miseravelmente desmoralizado na eleição de novembro.

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Muito mais compreensível para o povão foi a segunda bomba.

Lev Parnas, um sujeito que parece em tudo um ator de segunda linha de um filme sobre a mafia russa, virou de lado.

De trumpista entusiástico e colaborador relativamente secreto de Rudy Giuliani, o advogado de Trump que comandava a política externa paralela de pressões sobre a Ucrânia para investigar os Bidens, ele passou a contar – ou cantar – histórias de bastidores sobre os planos nada límpidos.

Se Martin Scorcese não tivesse decidido que chega de filmes de gângsters, teria um tesouro ambulante em Lev Parnas e seu colega Igor Fruman – este ainda em silêncio -, ambos cidadãos da antiga União Soviética que refizeram a vida e realizaram sonho americano a Flórida.

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Um sonho americano, mas à moda russa.

Transações imobiliárias, operações no mercado de ações, empresa de fachada e tentativa de ocultar doações para a campanha presidencial de Trump transformaram Parnas e Fruman em réus.

Quando falava sobre malfeitorias de Hunter Biden, o protegido do papai vice-presidente na época dos negócios lucrativos na Ucrânia, era, para a oposição, um desclassificado indiciado na justiça.

Quando foi dar uma entrevista altamente prejudicial a Trump para a jornalista de televisão mais furiosamente antitrumpista, Rachel Maddow, virou uma peça importante nos esforços para detonar o presidente.

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Evocou também as figuras menores do escândalo Watergate, como Jeb Magruder, o empresário que prestava diferentes serviços a Richard Nixon.

O mais conhecido, por motivos óbvios, foi o nada brilhante plano de grampear o comitê do Partido Democrata em Washington.

Os envolvidos que chamaram a atenção de pessoas que trabalhavam no complexo de Watergate, foram presos como assaltantes comuns e a bomba política explodiu na Casa Branca.

Magruder também resolveu fazer uma delação premiada e pegou uma sentença mais leve. Bizarramente, depois estudou teologia, foi ordenado ministro da Igreja Presbiteriana, passou a dar palestras sobre ética e a acusar Richard Nixon de saber de tudo.

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As chances de que algo semelhante aconteça com Parnas são parecidas, fora a parte religiosa.

Nascido em Odessa, ele é judeu. Isso aumenta a quantidade de pessoas da tribo envolvidas no impeachment de Trump, um fato que foi abordado com luvas de pelica, devido ao alto teor de sensibilidade, por um jornal conservador como o Jerusalem Post.

E com luvas de boxe pelos conspiracionistas antissemitas que já têm até um nome ara a história toda, “golpe judeu”.

Adam Schiff e Jerrold Nadler, presidentes das duas comissões da Câmara, que conduziram o inquérito para a aprovação do impeachment, fazem parte da tribo.

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Dos quatro advogados constitucionalistas que defenderam o impeachment, três eram judeus. E também o coronel Alexander Vindman, da equipe de segurança nacional da Casa Branca, que prestou um depoimento condenando as pressões de Trump sobre o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

Aliás, Zelensky, um humorista que interpretava o papel de um presidente eleito por acaso, tem uma resposta perfeita para quem se espantava que fosse candidato num país como a Ucrânia: “Ser judeu vem em vigésimo lugar na minha longa lista de defeitos”.

O que quer dizer tudo isso?

Muito pouco. Talvez a principal conclusão seja dissipar a ideia de que Trump seja um peão de Israel por atitudes como mudar a embaixada americana para Jerusalém ou reconhecer a anexação da região de Golã.

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Mas quem muda a cabeça dos conspiracionistas, seja de que lado estiverem?

A batalha da oposição democrata, no momento, é cooptar uma quantidade suficiente de senadores republicanos para que haja algo parecido com audiências, com testemunhas e advogados de defesa e acusação.

Isso está quase garantido.

Lev Parnas, com sua espetacular e loiríssima mulher, Svetlana, vai certamente dar um show.

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