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Caso de demissão: sexo no trabalho, com elas ou com eles

Presidente do McDonald’s foi dispensado, deputada americana renunciou ao mandato e outras encrencas de superiores que transam com subordinados

Todo mundo pode namorar todo mundo no lugar de trabalho, menos o CEO.

Esta regra na verdade não existe. Nas empresas contemporâneas, chefes, em todos os níveis, envolvidos com subordinados estão todos no mesmo barco.

Mas só ficamos sabendo do que está escrito no manual de ética quando um nome importante, como o do diretor-presidente, agora ex, do McDonald’s, Steve Easterbrook, tem que ir grelhar seu hambúrguer em outro lugar.

Num sinal de que a empresa não quer passar a impressão de que Ronald McDonald assumiu o controle, o diretor de RH, David Fairhurst, foi demitido um dia depois de demitir Easterbrook.

E pelo mesmo motivo. Eram colegas desde os tempos da Inglaterra.

Foi lá que Easterbrook ganhou a fama de rei do fast food. 

Percebeu, pioneiramente, que a inventora da comida a jato precisava oferecer comidas mais saudáveis e variadas, seja lá o que isso signifique na maior rede de lanchonetes do planeta, inventora do próprio conceito de fast food e do sistema de linha de produção, há quase 80 anos.

Tinha feito lucro para a empresa, enquanto a gigante balançava no resto do planeta, e ganhou a direção mundial.

Também tinha se divorciado. As três filhas ficaram com a mãe.

Chegou nos Estados Unidos livre e por cima . 

Com a remuneração atrelada às ações da empresa na bolsa, levou para casa 15,9 milhões de dólares no ano passado. Em 2017, foram 21,8 milhões.

Também levou uma funcionária da empresa, obviamente subordinada ao executivo mais importante, para a cama.

De comum acordo, sem assédio. O caso já tinha até acabado.

Mesmo assim, mais proibido do que batatinha frita para quem está de regime.

“Diante dos valores da empresa, concordo com o conselho que é o momento de mudar de rumo”, humilhou-se depois da demissão, por um motivo forte: 51 milhões de dólares em stock options, a opção de compra de ações que é o salva-vidas de ouro dos altos executivos.

Ironicamente, as ações da McDonald’s, a empresa criada por dois irmãos californianos com este sobrenome que virou metáfora de Estados Unidos, caíram. Em um dia, o prejuízo foi de 4 bilhões de dólares.

MÉNAGE A QUATRO

Mercado é assim, cheio de reações nervosas.

Por causa da popularidade mundial da rede de quase 38 mil lanchonetes – 85% em sistema de franquia –, o caso do executivo inglês, ainda mais por ser seguido pela do chefe do RH, teve enorme repercussão.

Muito mais do que a demissão do CEO da Priceline, a rede de viagens online em 2016, pelo mesmo motivo. Com a diferença de que Darren Huston era casado.

Com ou sem aliança no dedo, parece incrível que executivos dos tempos de hoje não entendam as regras.

E, principalmente, que não entendam de onde vem a maior reação a casos amorosos intramuros: dos outros funcionários – ou funcionárias –, que se sentem excluídos do sistema de igualdade de condições.

É claro que a atração sexual correspondida, atiçada pelo gosto do proibido, é uma força superior a praticamente todos os argumentos racionais.

Mas o entendimento da sociedade hoje é que, mesmo quando existe consentimento mútuo, pessoas em posição de poder abusam desse status quando se relacionam com subordinados.

O caso do CEO da McDonald’s coincidiu em questão de dias com o da deputada democrata Katie Hill.

Eleita no ano passado, na onda oposicionista que derrubou a maioria republicana na Câmara, a novata de 32 anos renunciou ao mandato por uma coincidência de escândalos.

A que chamou mais atenção, claro, foram as fotos nude postadas possivelmente pelo ex-marido.

Katie aparece com a amante, que foi sua assessora durante a campanha na Califórnia.

Mas o motivo irrecorrível foi outro caso, com um assessor já depois de eleita.

Na onda inevitável de fofocas, circulou que o romance com a assessora Morgan Desjardins era de comum acordo com o marido de Katie, talvez até com a participação dele.

Quando entrou outro homem na equação, a coisa se complicou.

Katie diz que não sabia que estava sendo fotografada nua. Mas aparece carinhosamente penteando o cabelo de Morgan, que olha direto para o que deve ser um celular.

Também aparece fumando maconha num bongo, o cachimbo de água que os americanos adoram.

E com uma tatuagem no púbis em forma de cruz de ferro. Importante: sem o símbolo nazista que destruiu a reputação do antigo ícone.

Agora ex-deputada, Katie Hill tenta se passar por vítima da perseguição machista e da discriminação a uma mulher de 32 anos que se relaciona dos dois lados da cama.

Encontrou muitas defensoras, várias com um argumento razoável: se fotos nude inviabilizarem uma carreira política, 90% das mulheres jovens estão fora.

As fotos sensuais foram incorporadas ao processo de azaração, flerte, namoro, relacionamento rápido ou sério, casamento e o que mais houver.

O problema é que é um argumento falso. Claro que imagens de uma mulher jovem e deputada, ainda por cima com outra mulher, criam curiosidade e comentários com altíssimo teor de constrangimento.

Mas e o caso com um subordinado?

A própria Katie Hill endossou o manual de conduta que proíbe relacionamentos entre deputados e assessores.

Já pensaram se a moda pega em Brasília?

MORTE POR APEDREJAMENTO

Em Washington, durante décadas, também rolou a farra.

Um dos casos mais famosos foi o de Newt Gingrich, obrigado a renunciar como presidente da Câmara em 1999, quando veio a público seu caso com uma assessora, Caliista Bisek.

Detalhe: no exercício do cargo, comandou a inquérito de impeachment de Bill Clinton por perjúrio sobre seu caso com Monica Lewinsky.

Sua vida, claro, foi escarafunchada e as circunstâncias de seus dois divórcios provocam repúdio até hoje.

Falou em separação quando a primeira mulher estava no hospital, em tratamento por câncer de útero. A segunda, tinha sido diagnosticada com esclerose múltipla.

Gingrich, que ganha a vida como comentarista conservador de raiz, casou-se com a loiríssima Caliista.

Por influência dela, católica de família de origem polonesa, converteu-se e abraçou a Igreja quando o papa Benedito XVI visitou os Estados Unidos.

Contrariando o cínico mandamento de que quem casa com a amante abre uma vaga, comprovado por ele próprio, comprometeu-se publicamente a ser fiel à esposa.

Logo depois, Gingrich tentou ser candidato a presidente pelo Partido Republicano. Uma impossibilidade, na época, para um sujeito com seu currículo. 

Uma das deputadas mais identificadas com a esquerda do Partido Democrata, Ilhan Omar, teve um caso com um assessor beneficiado com pagamento por serviços prestados durante a campanha.

Ilhan negou tudo, mas a ação de divórcio da mulher do envolvido explicita o motivo. Em outubro, a própria deputada entrou com pedido de divórcio.

Originalmente, Ilhan Omar veio da Somália. Ela segue o uso do véu na cabeça, com um toque fashion, típico das fiéis mais ortodoxas da religião muçulmana.

Em 2017, tornou-se infame o monstruoso caso de Habiba Ali Isak, somaliana de 30 anos e oito filhos, morta a pedradas por adultério numa região do país dominada pelo Al Shabab, uma das mais radicais milícias islâmicas em atividade na África.

A lapidação é a pena prevista para as mulheres por adultério, depois de serem enterradas até abaixo dos seios. Esta parte não é muito seguida.

Para o homem, se for solteiro, são cem vergastadas. Se for casado e cometer a infração com uma mulher igualmente casada, vergastadas e morte.

Não chega a ser um consolo para políticos e executivos flagrados na fruição do sexo, livre e sem culpa na civilização ocidental quando por consenso dos envolvidos. 

Mas cada vez mais proibidão quando envolve relações entre chefes, ou pessoas em posição hierárquica superior, e quem está na relação como subordinado.

Os manuais de ética das empresas não são tão interessantes quanto o Corão e a era digital cria oportunidades de transgressão 24 horas por dia, mas alegar desconhecimento não alivia a barra de ninguém.

E tem sempre alguém vigiando.

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