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Casa Branca está à venda? Michael Bloomberg dará um lance

Décimo-primeiro mais rico do mundo, o bilionário tem dois elementos em choque: a vantagem do dinheiro e, também, a desvantagem do dinheiro

Por Vilma Gryzinski - 28 nov 2019, 15h35

Os muito ricos não são apenas diferentes de mim e de você.

São, hoje, profetas que querem salvar o mundo, bancar viagens espaciais, descobrir a fonte da juventude, criar o algoritmo da justiça perfeita, transformar os humanos num download que pode ser baixado em vários corpos ou alguma outra alternativa.

Michael Bloomberg quer apenas ser presidente dos Estados Unidos.

Para isso, tem 55 bilhões de dólares, o que o coloca no mais alto topo das incríveis fortunas da era atual, criadas pelos pioneiros digitais e gênios financeiros.

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Nesse nível quase inimaginável de dinheiro, no caso dele criado pela transição de Wall Street para o conglomerado quase monopólico de informações financeiras com seu nome (20 mil funcionários em 120 países), o maior risco, evidentemente, é achar que tudo é possível.

Quem vai falar não para ele, isso é besteira, não vai dar certo, os democratas estão na fase de odiar os ricos e os republicanos jamais votariam num sujeito que despeja rios de dinheiro em campanhas contra a posse de armas?

Quem vai dizer que candidato centrista é a última coisa com chance de fazer sucesso no momento político atual?

Quem vai lembrar que Donald Trump foi a exceção irreproduzível que saiu dos negócios e desembarcou sem escalas na Casa Branca?

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E, segundo as própria palavras dele, antes de achar que o cavalo estava passando selado, “quem vai votar num bilionário judeu baixinho para presidente?”.

Bloomberg com certeza tem muitas respostas para isso tudo.

Foi prefeito de Nova York com três mandatos seguidos – e um prefeito bastante bom -, ligou-se no cardápio ambiental antes que virasse moda, o Partido Democrata precisa de uma alternativa viável e menos esquerdista que não seja um candidato gagá como Joe Biden, ainda por cima enrolado nos negócios nada transparentes do filho.

Sem contar que sua fortuna é umas vinte vezes maior do que a de Trump – sendo este uma exceção tão única que aumenta, em lugar de diminuir, o tamanho do próprio dinheiro.

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Ego imbatível

Bloomberg, ao contrário, não aparece na Lista da Bloomberg dos mais ricos, só na da Forbes (nono lugar nos Estados Unidos, décimo-primeiro no mundo).

Aliás, o conflito de interesse no caso do dono de um conglomerado de mídia – focado em economia, mas também com extensa cobertura política – já começou mal.

O diretor da Bloomberg News, John Micklethwait, disse num memorando interno, vazado e confirmado, que o chefe tem imunidade.

“Vamos continuar nossa tradição de não fazer reportagens investigativas sobre Mike (e sua família e fundação) e vamos estender a mesma política a seus adversários nas primárias democratas.”

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E Donald Trump, o adversário republicano? Ah, vai continuar não só sob escrutínio, como é dever da imprensa, como levando pau, como é direito, desde que não seja por interesse partidário não confessado.

Com a franqueza dos muito ricos, Bloomberg já disse que “não gostaria de saber que paga o salário” de jornalistas que o investigam.

Fora a incrível segurança dada por fortunas avassaladoras, o ego imbatível que as constrói, a certeza absoluta de que sabe como fazer as coisas, o que leva Mike Bloomberg a achar que deve ser presidente aos 77 anos?

E o que ele está disposto a fazer para conseguir isso?

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É difícil imaginar Bloomberg tuitando uma montagem da cabeça dele no corpo de Rocky Balboa, como fez Trump no fim de semana, em mais um lance que deixou os jornalistas ingenuamente antitrumpistas espumando de raiva – e dando cobertura de graça ao presidente, uma das táticas mais efetivas que usou para ser eleito.

Bloomberg pode inundar os canais de televisão com propaganda eleitoral. Aliás, já fez isso em suas várias e milionárias campanhas contra a posse de armas, sem sucesso.

Certamente sabe que as redes sociais são hoje um elemento muito mais importante do que a propaganda convencional.

Não faltarão especialistas no universo digital em sua campanha, mas certamente não haverá o exército de voluntários que elegeu, na unha, Trump e outros candidatos considerados completamente inviáveis. Nem precisa dizer quais.

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A estratégia dele que pode ser vista no momento é ficar fora das primárias lá o interiorzão, Iowa e New Hampshire, e não participar de debates entre os pré-candidatos democratas, e concentrar esforços nos estados com população maior – e mais votos no colégio eleitoral quando chegam os finamente.

Pequeno Mike

Todos os aspirantes democratas, evidentemente, estão fulos da vida com o bilionário que apareceu do nada no caminho deles.

Ou do inferno, considerando-se que a campanha de Elizabeth Warren é inteiramente construída na pregação contra os ricões.

Bernie Sanders é socialista, nem precisa dizer mais nada.

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Joe Biden tem que fingir que é o candidato do povão, a camada da classe operária de classe média, média ou baixa, que sempre votou nele para o Senado, e não dos milionários que inundam sua campanha de dinheiro, a essa altura com um certo pânico.

Biden vai dar conta do recado?

É nesse temor que Bloomberg planeja construir sua vantagem competitiva.

Donald Trump já está chamando seu ex-companheiro de golfe de “little Mike”, sabendo que é um ponto fraco do potencial adversário.

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Bloomberg mente sobre sua altura, avaliada em algum lugar um pouco abaixo e um pouco, pouquíssimo, acima de 1,70 metro.

Parece menor ainda porque sua mulher, ou companheira, Diana Taylor, tem 1,80 e ainda usa salto.

Bloomberg já disse que adora mulher de salto.

Aliás, adora mulher, de forma geral, no mesmo sentido que Trump, embora Diana, uma republicana socialmente liberal, com porte de modelo e joias de arrasar quarteirão, seja uma elegante senhora de 64 anos, idade não compatível com as “esposas troféu” dos milionários exibicionistas.

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No passado, foi processado por discriminação contra funcionárias no ambiente de trabalho. “Mais uma”, reclamou, segundo uma acusadora, quando soube que estava grávida.

Outra, nas mesmas circunstâncias, afirma que ele determinou: “Mate essa coisa”.

Mesmo sem querer, e provavelmente odiando isso, o destino de Bloomberg está associado ao de Trump.

E o de Trump é um enigma. Pode ser impichado pela Câmara, absolvido pelo Senado e mesmo assim perder a reeleição, com a maioria horrorizada com as revelações de manobras obscuras, mesmo se não foram criminosas ao pé da letra.

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Ou ganhar, numa reação da base inexpugnável de Trump, mais os que se beneficiam do quadro econômico, ao que pareceria um processo inteiramente levado por interesses políticos, com acusações inventadas ou exageradas.

Depois das dramáticas e televisionadas audiências na comissão da Câmara onde os democratas jogaram tudo para implicar o presidente em maquinações com o governo da Ucrânia, as intenções de voto em Trump aumentaram um pouco.

Na era Trump, tudo é possível. Até o mais bilionário de todos os homens que já pensaram na Casa Branca ser eleito presidente.

É uma ideia que, quase inevitavelmente, já passou pela cabeça de Jeff Bezos, Bill Gates ou Mark Zuckerberg. Devem ter achado que não precisavam se dar ao trabalho.

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Mas todos, certamente, adoram um desafio de vida ou morte.

“Sem empreendedor não é realmente só abrir um negócio”, costuma dizer Bloomberg. “É um modo de ver o mundo: ver oportunidades onde outros enxergam obstáculos, correr riscos quando outros correm para se proteger.”

Então corra, Bloomberg, corra.

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