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A moda pegou: o estilo performático de protestos ecológicos

Milenaristas em suas crenças de que o mundo vai acabar e teatrais nas manifestações, adeptos do grupo Extinction Rebellion exportam modelo para mundo

Tem lá a sua graça as manifestações que militantes do Extinction Rebellion estão fazendo em Londres.

Pelo menos enquanto os incautos não ficam presos no trânsito ou no metrô.

Paralisar nós vitais da cidade é o objetivo tático. Sobre o estratégico falaremos mais adiante.

O pendor britânico para a excentricidade e o histórico de militâncias exótica são expostos em todo seu esplendor.

Ao contrário das manifestações habituais, mulheres e homens de cabelos brancos estão na linha de frente.

É uma forma de organização deliberadamente planejada pelos líderes do movimento.

Os “seniors” são convocados em todo o país como voluntários para se acorrentar, colar, amarrar ou simplesmente deitar no chão e exigir o esforço de quatro policiais, no mínimo, para serem removidos sem danos para as articulações ou outras partes mais sensíveis.

A expressão de felicidade do pessoal da terceira idade parece ter saído diretamente dos tempos em que eram jovens e felizes, tipo anos setenta.

O cheiro de maconha também. Mas nada tão radical quanto o pessoal que queria sentar, meditar e, movido a LSD, fazer o Pentágono levitar, como na grande marcha de 14 de abril de 1967 em Washington, contra a guerra do Vietnã.

Também não existem nomes como Allen Guinsberg, Timothy Leary ou Abbie Hoffman, poetas, intelectuais e ideólogos da era da chapação e da revolução dos costumes.

Tem umas estrelinhas e modelos, gente menos conhecida fora do mundo do showbusiness britânico.

A mais famosa, Emma Thompson, uma espécie de Greta Thunberg da terceira idade, dessa vez não pegou um voo de primeira classe em Los Angeles para fazer proselitismo em Londres.

Essa história de simpatizantes milionários de causas ecológicas que cruzam o mundo em aviões particulares parece que finalmente está pegando mal.

Carnaval veneziano

Seja com idosos ou mais jovens, os policiais pegam leve, às vezes dando risada de seus truques.

Não tem quebra-quebra nem agressões aos simpáticos agentes da lei.

A “marca registrada” do movimento é o grupo performático em que pessoas – ninguém é louco em falar de homens e mulheres – de camisolões vermelhos e caras pintadas de branco fazem uma espécie de carnaval veneziano pós-moderno.

Ou seja lá como se chame a coisa. O importante é que a encenação é pacífica. A polícia, evidentemente, reage de acordo.

Como vestir uma roupa dramática, carregar na maquiagem e se autocredenciar como guerreiro ecológico é uma combinação irresistível, o pessoal da Brigada Vermelha, apesar do nome que evoca o grupo ultraesquerdista italiano dos maus tempos, está exportando o modelo até para lugares distantes, como a Argentina.

Esta é uma das características do Extinction Rebellion. Para os íntimos, apenas XR. Em inglês, a letra X soa como Equis e aparece também no logotipo do movimento, uma ampulheta estilizada.

Tem um toque visual meio ultradireita, mas evidentemente o XR reúne diferentes correntes de esquerda, embora se declare apartidário e pregue o conceito de assembleias populares como instância de decisão.

Foi formalizado apenas em outubro do ano passado, com três fundadores, duas mulheres e um homem, de classe média – no reino, isso significa riquinhos, com estudos nos lugares certos.

Uma delas, Gail Bradbrook, ex-médica, deu uma entrevista de televisão dizendo ter certeza de que seus dois filhos passariam fome nos próximos anos.

Vai acabar a comida na Europa? Ou nos países exportadores? As sete pragas do Egito se abaterão sobre as ilhas britânicas?

Esse tipo de exagero melodramático move muitos militantes e ponto de provocar compaixão. Um homem acorrentado a um carro nos protestos de ontem chorou de soluçar ao mostrar as fotos dos filhos pequenos, para os quais prevê um futuro tétrico.

O choro convulsivo também caracterizou manifestações recentes de Greta Thunberg.

No caso dela, indicando que problemas de saúde mental já reconhecidos, inclusive depressão profunda, não estão recebendo tratamento adequado.

Uma menina de 16 anos no estado da jovem sueca deveria ter adultos responsáveis à sua volta.

Nem um Nobel da Paz daria jeito nessa realidade.

Charme anarquista

A preocupação legítima com a “crise ambiental”, o novo nome do aquecimento global, pode desencadear processos emocionais artificialmente estimulados.

Até o príncipe Harry já disse que tem dias em que acha difícil levantar de manhã da cama diante dos “problemas do mundo” – outro sinal clássico de depressão.

E também dos fenômenos milenaristas, a convicção de um apocalipse iminente, no passado movido por sentimentos religiosos; hoje insuflado por prognósticos climáticos catastróficos.

Crianças e adultos, na Inglaterra e outros países europeus, derramaram lágrimas sentidas ao verem que a “Amazônia está em chamas”.

Curiosamente, o assunto simplesmente desapareceu. Nem a grande queima de floresta virgem na Bolívia, um episódio de fato terrível, é discutida.

Os três pontos reivindicados pelo XR são simples, coisa de profissionais.

Número 1, diga a verdade. Tradução: o governo deve declarar emergência climática e ecológica.

Não o governo da China, evidentemente, responsável pela maior quantidade de emissões maléficas. Mas o da Grã-Bretanha, onde o Parlamento já aprovou 2050 como a data derradeira para o uso de combustíveis fósseis.

Número 2, aja agora. O governo tem que interferir imediatamente para interromper o fim da biodiversidade e acabar com as emissões de CO2 até 2025.

Número 3, ir além da política. Assembleias Cívicas passam a comandar as decisões de governo sobre clima e justiça ecológica.

Este aspecto anarquista é um dos maiores charmes do XR. Sonhar com o impossível tem um apelo universal.

Sem contar as sessões de ioga no meio da rua, cerimônias druídas, ritos xamânicos, quacres muito sérios (lembrando que a corrente religiosa puritaníssima foi a pioneira no combate à escravidão dos dois lados do Atlântico), o minuto de silêncio em memória dos animais no maior entreposto de carnes de Londres e outras criativas formas de protesto.

Enquanto não atrapalham a vida de quem precisa trabalhar, fazer compras e outras atividades dos humanos normais, são recebidas com britânica tolerância.

Nada a ver com as 107 pessoas mortas em seis dias de protestos no Iraque, em outra eclosão do confronto sunitas e xiitas.

Muito menos com os manifestantes de Hong Kong, enfrentando na unha uma superpotência não-democrática.

Na civilização ocidental, mesmo decadente, os protestos podem ser uma festa.

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