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Daniel Galera e a bobagem dos rótulos

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Quarto romance de Daniel Galera, Barba Ensopada de Sangue (Companhia das Letras, 424 páginas, 39,50 reais) é também o mais gaúcho do escritor que nasceu em São Paulo, mas passou parte da vida no Rio Grande do Sul. Gaúcho e sulista: além de impregnado de um forte sotaque, o texto percorre os três estados da região, acompanhando a trajetória de um personagem sem nome e sem rosto. Com um problema neurológico raro, o protagonista do romance é impedido de memorizar rostos, inclusive o próprio. Após a morte do pai, ele sai de Porto Alegre em busca de pistas do avô, que desapareceu em Garopaba, litoral de Santa Catarina, nos anos 1960, e teve a morte investigada por um delegado que mora agora no Paraná. Para a temporada na praia, onde espera também esquecer a namorada que o trocou pelo irmão, se muda munido de um videogame, da cachorra que herdou do velho e das fotos que compõem o “catálogo afetivo” de sua existência.

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barba_ensopada_sangue_capa (//Divulgação)

“Vê um nariz batatudo, reluzente e esburacado como uma casca de bergamota. Boca estranhamente juvenil entre queixo e bochechas tomados por rugas finas, pele um pouco flácida. Barba feita (…) Seus olhos percorrem todos os quadrantes desse rosto no intervalo de uma respiração e ele pode jurar que nunca viu essa pessoa na vida, mas sabe que é seu pai porque ninguém mais mora nessa casa desse sítio em Viamão e porque ao lado direito do homem sentado na poltrona está deitada de cabeça erguida a cadela azulada que o acompanha faz muitos anos”, escreve Galera em uma grande abertura de romance, parte aliás de um primeiro capítulo irretocável, merecidamente emplacado na edição brasileira dos jovens talentos da Granta. Se algum nome causou estranheza por figurar ali, o de Galera chocaria por sua ausência.

A presença no trecho citado da palavra “bergamota”– como a mexerica é chamada no sul do país – é apenas um entre os vários toques gaúchos do livro. Se passasse no Nordeste, com cenário e sotaque nordestinos, e o livro seria chamado de regionalista, adjetivo que por vezes desvia a análise do que realmente interessa em um texto de ficção: a história que ele traz e a forma como ela é contada. Ler Barba Ensopada de Sangue lembrando dessa diferença – do que faz com que o romance de Galera não seja enquadrado em algum regionalismo – desnuda a estupidez do rótulo. A saga do herói sem nome e sem rosto criada pelo escritor gaúcho que só por acaso nasceu em São Paulo, em 1979, poderia se passar em qualquer lugar, com as naturais adaptações de cores e linguagem.

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