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Marcos Emílio Gomes A coluna trata de desigualdade, com destaque para casos em que as prioridades na defesa dos mais ricos e mais fortes acabam abrigadas na legislação, na prática dos tribunais e nas tradições culturais

Menos mortes em São Paulo. Uma tragédia completa em outras capitais

Redução de óbitos no estado e na capital paulista premia a quarentena e indica, por comparação, que a desigualdade marcará profundamente o saldo da epidemia

Por Marcos Emílio Gomes - Atualizado em 5 jun 2020, 11h26 - Publicado em 5 Maio 2020, 18h55

Os brasileiros precisam ser informados de que, nas últimas 72 horas, o número diário de mortes por Covid-19 na capital paulista e no estado de São Paulo reduziu-se em quantidade notável.

Depois de cinco dias com a divulgação de mais de 120 mortes a cada 24 horas no estado e de terem ocorrido, na capital, entre 77 e 147 óbitos diários, foram anunciados totais bem diferentes. Dia 3, 75 mortes no estado, 12 na capital. Dia 4, 41 no estado, 16 na capital. Os dados são dos boletins oficiais da prefeitura, que cita como fontes Hospital Johns Hopkins, Coronavirus Resource Center (Mundo e Brasil); Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo; SUS; e entidades municipais.

Quanto aos totais divulgados hoje, dia 5, meia hora antes da produção deste texto, há uma daquelas inconsistências típicas do serviço público brasileiro. Houve mais 27 mortes no estado e 117 na capital. Como o estado engloba os totais do município, os números só podem ser explicados como erro de digitação ou fruto do descompasso entre os registros das mortes e a coleta de dados, o que leva a alguns represamentos de informações.

Mas a confusão não atrapalha a análise e há um cenário positivo também nos dados do Programa de Aprimoramento das Informações de Mortalidade na cidade de São Paulo, que registra números eventualmente maiores do que os do Sistema de Vigilância Epidemiológica da Gripe, tidos como oficiais. Por esse programa, houve 31 óbitos por Covid na capital tanto no dia 3 quanto no dia 4. No dia 5, 57.

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Poucas autoridades de saúde vêm dando destaque a essa constatação, talvez com medo do impacto que ela possa ter no atendimento da população às medidas de distanciamento social, mas o fato é que não se conseguirá manter o engajamento dos paulistas e dos paulistanos com dados distorcidos. Podemos tratar a população como adulta.

Ao contrário do que se chega a temer, esses números podem ser usados como prova de que o distanciamento social adotado até agora começa a revelar bons resultados. E exatamente por isso precisa ser mantido, uma vez que subiram, em todo o estado, os índices de ocupação das UTIs – indício de que o tratamento nos hospitais também está alcançando resultados melhores.

Por outro lado, a quantidade de pessoas com testes indicando resultado positivo para Covid-19 vem aumentando em taxas ainda altas. Como não há um programa de testes específico para geração de dados estatísticos, essa evolução só indica que aumentou a quantidade de análises realizadas. Se não há defesas naturais na população, o total de infectados subirá naturalmente conforme aumentar a quantidade de gente testada.

Comparados aos números do Brasil, os dados de São Paulo confirmam que o cenário em estados como Amazonas, Ceará e Pará é aterrador e que a desigualdade brasileira deixará sua marca profundamente estampada ao final da pandemia.

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Se é um lugar comum dizer que o Brasil tem vários países dentro dele, essa situação mostra que o país São Paulo, por enquanto, deve ser comparado àqueles da Europa e da Ásia que melhor enfrentaram a pandemia.

Os outros três estados fazem as vezes dos que perderam o controle da situação. E é óbvio que não são comparáveis a Itália, Espanha, França, Reino Unido ou Estados Unidos – países que sofrem com a violência do vírus por não terem adotado as restrições de movimentação na hora certa, mas têm sistemas de saúde infinitamente mais eficientes do que o Norte ou o Nordeste do Brasil.

No Brasil mais carente, estão em processo de combinação o atraso na adoção de medidas de distanciamento social, a impossibilidade da população de seguir as orientações de isolamento por questões econômicas e até de espaço em casa, a incompetência das autoridades para se preparar para a gestão da crise, a falta de recursos e profissionais no sistema de saúde e a ação lenta do governo federal para atuar na emergência.

Assim, o que se pode aguardar para Manaus, Fortaleza e Belém, além de outras regiões, é o agravamento da tragédia. Segundo o Imperial College, de Londres, pode haver mais de 1 milhão de mortos no Brasil, vítimas do coronavírus. Contra essa previsão, há o fato de que o Imperial College vem sendo apontado por muitos cientistas como praticante de um alarmismo sanitário descolado da realidade.

Isso só se saberá se é fato dentro de algum tempo. Mas, quando se trata de Brasil, nenhuma previsão catastrófica parece exagerada. Sem UTIs em quantidade suficiente, sem respiradores, sem médicos, sem enfermeiros, sem  hospitais e até sem caixões para enterrar as vítimas, essas regiões, seguidas de perto pelo Rio de Janeiro, podem acabar servindo para resguardar a reputação do Imperial College. Isso se saberá bem antes.

No site Ora Essa!, o texto “A má temática da aritmética” também trata das estatísticas relativas à pandemia.

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