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Letra de Médico Por Adriana Dias Lopes Orientações médicas e textos de saúde assinados por profissionais de primeira linha do Brasil

Covid-19: os novos desafios que surgirão na saúde com o fim da epidemia

Entre eles, o cuidados com o pacientes oncológicos que tiveram tratamentos afetados e os que sofrerão de stress pós-traumático

Por Ben-Hur Ferraz Neto Atualizado em 30 abr 2020, 13h33 - Publicado em 30 abr 2020, 12h57

A Covid-19 iniciou uma guerra mundo afora e como tantas já sofridas, o pós-guerra nos trará derrotas, ensinamentos, conquistas, progresso, tristeza, perdas, ganhos, entre outros inúmeros sentimentos, muitas vezes ambíguos.

A única maneira da incógnita desta equação, com tantas variáveis e denominadores, resultar em um saldo positivo é a estratégia da conduta, desde o início do ambiente de guerra até o seu final, independente da sua duração.

Como médico, venho apoiando e sou a favor das medidas até então tomadas, com base no isolamento social como forma imediata de achatamento da curva, a fim de buscar o equilíbrio momentâneo entre a oferta e procura pelo sistema de saúde (saída econômica para um problema de saúde). No entanto, aguardo com muita esperança um plano futuro rápido e estratégico, baseado em números, na realidade e em fatos. Torço muito pelo êxito das próximas medidas dos nossos governantes.

Entendo que os profissionais da frente de batalha estejam com 100% de seus esforços voltados a combater o inimigo, nesta guerra o coronavírus. Mas também compreendo de maneira transparente que estes mesmos profissionais não devem ser aqueles que estudem, ininterruptamente, o planejamento e as estratégias que influenciarão as mudanças na movimentação do “exército” combatente e do plano a ser implantado no pós-guerra.

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Como dizia o jornalista, médico e estadista francês Georges Clemenceau: “A guerra é uma coisa muito importante para ser deixada para os soldados”.

Como um cirurgião com as características peculiares de resolutividade e auto-controle, mas distante da rotina frenética habitual do centro cirúrgico, tenho lido e estudado esta crise e, alguns pontos me preocupam sobremaneira.

Estou convencido de que 5 ou mais ondas ocorrerão na saúde

A primeira, aquela que envolve a doença em si, momento que estamos vivenciando agora e que se traduz pelo “modo de sobrevivência”. O vírus nos atacando e a sociedade tentando escapar.

A segunda onda estaria relacionada a restrição de recursos para outras doenças que necessitam atuação imediata, como exemplo os transplantes e a oncologia. Pacientes estão morrendo em lista de espera (por falta de órgãos ou infra-estrutura na era Covid-19 ou mesmo ficando mais graves e consumirão muito mais recursos em um futuro próximo. Pacientes oncológicos que não recebem quimioterápicos ou, ainda mais grave, o diagnóstico precoce da doença e, serão diagnosticados tardiamente, sem possibilidade de tratamento curativo.

Alguns hospitais privados de São Paulo já identificaram queda de 80% em seus serviços de radiologia intervencionista, que cuidam de angioplastias, aneurismas, entre outras doenças que, se não tratadas tendem a ter complicações graves e óbitos. Não acredito que estes pacientes “não existam mais”…

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Uma terceira onda, seria decorrente da falta de cuidados permanentes aos doentes crônicos (diabéticos, hipertensos, cardiopatas, hepatopatas, pacientes reumatológicos, entre outros) com todo seu impacto no futuro da saúde e da economia do país.

  • A quarta onda, especialmente destruidora decorrente do stress pós-traumático, pois se trata dos efeitos sobre o bem estar e a saúde mental, se mostra sem precedentes. O número de novos deprimidos, afastados de suas atividade diárias e, de volta a um isolamento social, desta vez psiquiátrico, pode trazer doenças incuráveis por anos e anos. Vejamos, um estudo de economia pós crise financeira na Grécia em 2011 (bem menor do que a que vivemos). Foram diagnosticados 5% de deprimidos novos a mais na população. Uma simples transferência deste número para a população brasileira impactaria em 10 milhões de pessoas gravemente enfermas.

    Uma quinta onda seria o resultado da escassez. Isto poderá implicar em falta de logística de suprimentos, infra-estrutura, recursos humanos, caracterizados por fome, desemprego e seus reflexos na saúde, decorrentes dos problemas econômicos que virão.

    Vejo, entre tantas dúvidas, apenas uma certeza: “A pandemia vai passar e a quarentena tem que acabar”, a discussão é quando e como?

    Minha preocupação vai além do curto prazo, além do “modo sobrevivência”. Sou médico e me preocupo com a saúde e bem estar da sociedade.

    Os recursos e habilidades para o time que está agindo emergencialmente são diferentes daqueles que estariam responsáveis pelas medidas a médio e longo prazo ( 6 semanas a 24 meses). Há urgente necessidade de um planejamento com estratégia multifuncional para se enxergar o “macro”, o que está por vir e, não só, o que está acontecendo! Isto vai desde estratégias coordenadas para a batalha contra o coronavírus até o futuro do SUS.

    Após o incêndio, precisamos de um plano, previamente definido, para lidar com a floresta e a pastagem queimada e manter nosso plantel alimentado.

    Considero ainda oportuno que a eventual liberação de verbas extras pelo Ministério da Economia, esteja condicionada a entrega de qualidade permanente aos serviços do SUS como contra-partida, medida por indicadores claros e previamente definidos. Não há espaço para oportunismos durante esta terrível crise!

    Só assim, poderemos planejar a saída da quarentena com segurança a saúde da população e conquistar, o mais rápido possível, a retomada do crescimento econômico do Brasil e seus frutos, incluindo a melhoria constante do Sistema Único de Saúde.

    Felipe Cotrim/VEJA.com
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