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Não por falta de adeus

O PSDB demorou, e a porta da rua virou serventia do Planalto

A IMPRESSÃO que dá é que nesta altura o governo já está pagando o táxi do PSDB em direção à plataforma de desembarque. Só Michel Temer ainda mantinha as aparências; os demais governistas já tinham tornado patente o enfado depois de assegurado o arquivamento da segunda denúncia contra sua excelência, que, na quarta-feira, pôs um ponto e vírgula com jeito de ponto final na relação.

Daquele modo obscuro que lhe é peculiar, Temer deixou claro tanto às moças e aos rapazes quanto às senhoras e aos senhores do partido que, por ele, tudo bem, poderiam ficar à vontade.
Naquele momento, os nominados “auxiliares” presidenciais, sempre encarregados de transmitir recados cuja autoria possa ser negada depois de a mensagem ter sido captada, trataram de adiantar que Temer já considerava a saída dos tucanos um fato prestes a ser consumado. Portanto, a nomeação de nova leva de ministros (também chamada de “reforma ministerial”) poderia ocorrer em breve.

Em português, a porta da rua tornava-­se serventia da casa. Pendurados na escada, os tucanos perderam ali a prerrogativa de decidir. Dada a vocação da turma para se envolver em processos “indecisórios”, poderia ter sido até um favor, não fosse mais uma expressão da perda de capital político do PSDB. Particularmente humilhante por partir de um governo com índices ínfimos de aceitação. No caso, o que saiu de baixo atingiu em cheio os tucanos.

O.k., uma decisão a menos para tomar, mas o quadro que já era ruim ficou péssimo: quatro ministros indesejados, um presidente licenciado (Aécio Neves) cuja salvação do mandato no Senado abriu as portas da impunidade para políticos país afora. Um presidente em exercício candidato a efetivo e agora destituído (Tasso Jereissati) em fúria contra correligionários — “O PSDB desses caras não é o meu PSDB” —, um postulante ao mesmo cargo (Marconi Perillo) apelando por “elegância”, um presidente de honra (Fernando Henrique) alertando para a hipótese de o tucanato virar linha auxiliar do PMDB, um partido que não sabe para onde vai e não se entende nem sobre a contratação de uma equipe de comunicação, que dirá sobre um projeto para o Brasil.

Isso sem falar nos baixos índices de intenção de voto de três políticos mais do que conhecidos nacionalmente, inclusive porque foram candidatos à Presidência da República (Serra, Alck­min, Aécio). Isso falando de um partido que ganhou a disputa ao Planalto duas vezes no primeiro turno e ficou em segundo lugar nos quatro pleitos subsequentes. No último, em 2014, não ganhou por um triz.

Daí acreditar que tal patrimônio já o colocava na boca do gol em 2018. Mas fez tudo errado e, justiça seja feita, contou com uma dose expressiva de falta de sorte, como aquela ação contra a chapa Dilma-Temer, julgada já quando dava sustentação ao governo e contava com o PMDB como sustentáculo de seus planos presidenciais.

Não teve jeito a não ser voltar ao muro, desta vez num Brasil polarizado e, portanto, exigente no quesito clareza de posições. Foi tortuoso para fora e belicoso para dentro. Partido em briga consigo e com o eleitor nem por milagre ganha eleição.

Publicado em VEJA de 15 de novembro de 2017, edição nº 2556

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