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A freira pecadora

Há 350 anos, uma religiosa portuguesa se apaixonou por um oficial francês e escreveu as mais belas cartas da literatura sentimental

Um romance vivido entre uma freira portuguesa, que rompeu com o isolamento da clausura e quebrou o voto de castidade para se relacionar com um oficial de cavalaria francês, produziu no século XVII as mais belas cartas de amor da literatura sentimental. Ela se chamava Mariana Alcoforado (1640-1723) e vivia no Convento de Nossa Senhora da Conceição de Beja, hoje uma cidade com 23 400 habitantes, na região do Alentejo; ele era na época o capitão de cavalaria Noël Bouton (1636-1715), futuro Marechal Noel Bouton, Conde de Saint-Léger e Marquês de Chamilly, e se encontrava temporariamente em Portugal, compondo as tropas enviadas pelo rei Luís XIV para ajudar o país na luta contra a Espanha.

“Mal te vi e a minha vida foi tua, e chego a ter prazer em sacrificá-la a ti”, escreveu a freira na primeira das cartas.  “Mil vezes ao dia os meus suspiros vão ao teu encontro, procuram-te por toda a parte”. Mariana viu Noël pela primeira vez entre 1667 e 1668, portanto há cerca de 350 anos. Estava com as colegas no terraço do Convento da Conceição, assistindo às manobras militares. Foi amor à primeira vista, apaixonou-se loucamente pelo garboso oficial de cavalaria.

Mariana, que era tratada soror (como as freiras eram chamadas), levou o romance a sério e queria acompanhar Noël na volta à França. Para ele, porém, parece que se tratava apenas de uma aventura furtiva e passageira. Nas vésperas de regressar à França, prometeu voltar para buscá-la.  Mas não só deixou de cumprir a palavra, como ignorou os clamores da amada distante.

Foram cinco cartas sucessivas. Com o coração e o desejo exasperados, a soror enviou a primeira quando Noël ainda estava em solo português. Fez um apelo angustiado, queria acompanhá-lo no regresso à França (“Se me fosse possível sair deste malfadado convento, não esperaria em Portugal pelo cumprimento da tua promessa: iria eu, sem guardar nenhuma conveniência, procurar-te, e seguir-te, e amar-te em toda a parte”).  Aparentemente, seu amante partiu de Beja sem responder.

Ao chegar no Algarve, sul de Portugal, para embarcar no navio que o transportaria à pátria, ele recebeu a segunda carta (“Reconheço que me enganei, ao pensar que procederias com mais lealdade do que é costume: o excesso do meu amor parece que devia pôr-me acima de quaisquer suspeitas e merecer uma fidelidade que não é vulgar encontrar-se. Mas a tua disposição para me atraiçoar triunfou, afinal, sobre a justiça que devias a tudo quanto fiz por ti”).

Apesar da crescente desilusão, Mariana continuou a escrever-lhe de sua cela no Convento da Conceição, até se dar conta de que jamais o reencontraria. Na derradeira carta, revolta-se com a indiferença do amado, cria coragem e encerra oficialmente o relacionamento (“Escrevo-lhe pela última vez e espero fazer-lhe sentir, na diferença de termos e modos desta carta, que finalmente acabou por me convencer de que já me não ama e que devo, portanto, deixar de o amar”).

Cartas portuguesas Edição francesa de 1701: soror Mariana Alcoforado é representada escrevendo uma carta

Edição francesa de 1701: soror Mariana Alcoforado é representada escrevendo uma carta (Coleção Particular/Divulgação)

As cinco cartas foram publicadas na França em 1669, com o título de “Lettres d’Amour d’Une Religieuse Portugaise” (traduzido para “Cartas Portuguesas”), e lançadas  como romance epistolar pelo famoso editor Claude Barbin, o mesmo dos clássicos da geração de 1660: Molière, La Fontaine, Thomas Corneille e Charles Perrault. Tiveram repercussão imediata, sobretudo entre os moralistas, que condenaram a “freira pecadora”, apesar de por muito tempo a autoria da correspondência ter sido atribuída ao jornalista, diplomata e escritor bordalês Gabriel Joseph de Lavergne, Conde de Guilleragues. O filósofo e escritor suíço Jean-Jacques Rousseau chegou a achar os textos “belos demais para serem ideados por uma mulher”. 

Em 1810, porém, o jornal “L’Empire”, de Paris, baseado nas investigações de um abade, identificou os dois personagens das cartas e as creditou à soror Mariana. Mesmo assim, escritores portugueses como Alexandre Herculano e Camilo Castelo Branco negaram a autenticidade. O fato é que muitos intelectuais europeus se inspiraram nas “Cartas Portuguesas”, sensibilizados pelo seu conteúdo e qualidade literária, para escrever ensaios, poemas, peças de teatro etc. Na arte, o pintor, desenhista, escultor e gravurista Henri Matisse reproduziu o rosto de Mariana em uma série de litografias.

Os cochichos espalharam como um fio embebido em pólvora o relacionamento proibido de Mariana e Noël, inclusive porque a freira pertencia a uma família tradicional. Temendo as consequências, o capitão deixou Portugal alegando a necessidade de voltar à França para encontrar o irmão doente. Que se saiba, Mariana nunca mais se envolveu com um homem. Embora não tivesse vocação religiosa  – ingressou no Convento da Conceição por imposição da família, como aconteceu com muitas jovens da época -, morreu ali aos 83 anos de idade, depois de chegar ao posto de abadessa. Passou os últimos anos em oração, pintando e fazendo doces.

O Convento da Conceição se notabilizou pela contribuição à doçaria conventual – o rico acervo confeiteiro português desenvolvido a partir do século XV, quando as ordens religiosas passaram a ter açúcar à vontade em suas cozinhas. O farto suprimento era garantido pelas plantações e engenhos de cana no Arquipélago da Madeira, que depois se transferiram para o Brasil. A comunidade religiosa na qual vivia Mariana criou receitas como os Geladinhos da Conceição de Beja; o Bolo de Requeijão; o Bolo de Santo Alberto; a Sopa Doce da Conceição, as Trouxas de Ovos da Conceição; e os Papos de Anjo. A amargura e a solidão da soror desprezada pelo capitão francês  podem ter sido mitigadas com essas doçuras.

 

PAPOS DE ANJO

INGREDIENTES

  • 12 gemas
  • 1 pitada de sal
  • 2 L de água, aproximadamente
  • 1 kg de açúcar
  • 1 colher (chá) de essência de baunilha
  • 2 a 3 cravos
  • Manteiga para untar as forminhas

PREPARO

 1. Bata muito bem as gemas na batedeira, com uma pitada de sal, até crescerem, ficando espumosas, fofas  e claras.  Coloque-as em forminhas bem untadas com manteiga e asse-as em forno moderado (160ºC), por cerca de 30 minutos, até crescerem, sem deixar corar.

2. Em uma panela grande, misture a água com o açúcar, a baunilha e os cravos. Leve ao fogo alto até dissolver o açúcar. Abaixe bem o fogo e ferva, por cerca de 20 minutos, obtendo uma calda rala.

3. Desenforme os papos de anjo e coloque-os na calda, em fogo muito baixo, até ficarem translúcidos e bem embebidos pela calda.

4. Passe-os para uma compoteira, ou outro recipiente, cobrindo-os com a calda. Sirva-os frios.

 Rende cerca de 15 a 20 unidades, conforme o tamanho das forminhas.

 

Dicas

 

-Se preferir os papos de anjo mais secos, retire-os da calda, escorra-os numa peneira e sirva-os polvilhados com açúcar cristal.

 

-Além das gemas dos ovos, também podem ser incorporadas  as claras.

 

Receita do Convento da Nossa Senhora da Conceição de Beja, no Alentejo, Portugal.

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