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Caçador de Mitos Por Leandro Narloch Uma visão politicamente incorreta da história, ciência e economia

Um escorregão da Lava-Jato

Disse e repito: a condução coercitiva contra Lula foi um dos piores momentos da melhor operação anticorrupção da história do país

Por Leandro Narloch Atualizado em 30 jul 2020, 23h22 - Publicado em 5 mar 2016, 17h27

Irritei um bocado de leitores ontem ao afirmar, em plena festa de comemoração do cerco ao ex-presidente Lula, que a condução coercitiva determinada pelo juiz Sergio Moro havia sido um erro, um escorregão da Lava-Jato. Até agora recebi 190 comentários, um bocado deles afirmando que “estou com pena do Lula” ou sou “um petista infiltrado na Veja”.

Calma, pessoal. Critiquei a operação contra Lula justamente porque me parece correto e necessário que o ex-presidente seja preso. Mas isso precisa ocorrer de forma irretocável.

A força da Operação Lava-Jato reside na legitimidade e imparcialidade das investigações. Conseguiu prender e manter presos tantos magnatas e figurões da política porque seus protagonistas agem de maneira técnica e apartidária.

A investigação de presidentes ou ex-presidentes exige uma preocupação ainda maior com a legitimidade do processo. O tão esperado cerco a Lula deveria chegar baseado em práticas e argumentos irrefutáveis.

Como disse à BBC o jurista José Gregori, ex-ministro da Justiça de FHC, “tendo em vista a importância que está tendo na conjuntura nacional, essas investigações precisam dar uma prova diária de equilíbrio, de isenção. Não pode haver nenhum tipo de tolerância com o que não seja rigorosamente ortodoxo, rigorosamente equilibrado, rigorosamente dentro da lei”.

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Não foi o que aconteceu. A condução coercitiva é um recurso utilizado quando o investigado não atende a uma intimação. Mas Lula não havia sido intimado pela Lava-Jato.

O atropelo fez um bocado de juristas questionarem a investigação, deu palanque a Lula e encheu os petistas de argumentos. Agora temos que aturar a Dilma prestando solidariedade à “vítima de perseguição” em São Bernardo do Campo e uma penca de intelectuais afirmando que Lula está sofrendo um justiçamento.

Como diz o vizinho Reinaldo Azevedo, a operação “foi uma demonstração de força desnecessária que, se teve algum efeito sobre o PT, foi o de lhe injetar algum ânimo. E ninguém precisa disso”.

O juiz Moro justificou a condução coercitiva pela necessidade de proteger o investigado e evitar tumultos. Mas Lula encarou a tentativa de proteção como uma perseguição. No fim das contas, a operação gerou, como diz Moro em nota oficial deste sábado, “exatamente o que se pretendia evitar”.

Por sorte, nada está perdido. A Lava-Jato tem reputação boa o suficiente para seguir adiante apesar desse escorregão. E, como as delações que estão por vir, vão sobrar razões para mais alguns líderes políticos passarem uma temporada em Curitiba.

@lnarloch

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