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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Valentina de Botas: O sacerdote que se pretendia intocável foi desmascarado

VALENTINA DE BOTAS Às vezes nossos desacertos se acertam com os do mundo e algo bom acontece: no aniversário de 36 anos do PT, quem comemora é o Brasil que presta.

Por Augusto Nunes Atualizado em 30 jul 2020, 23h26 - Publicado em 28 fev 2016, 11h22

VALENTINA DE BOTAS

Às vezes nossos desacertos se acertam com os do mundo e algo bom acontece: no aniversário de 36 anos do PT, quem comemora é o Brasil que presta.

Gosto de ler jornais e revistas velhos. Os astrônomos dizem que estamos vendo o céu de 2012. Li isso em janeiro numa revista científica de julho do ano passado, lá no dentista. Paciente dele há décadas, o doutor mantém as revistas antigas por afetuosidade. Uma bobagem, não? Mas essas coisas – à toa assim, despretensiosas e simbólicas, indeléveis na sua delicadeza – são o ninho do afeto.

Que Brasil é este que vemos no 36º aniversário do PT? Todos os índices mostram um país que regrediu, em muitos fundamentos econômicos e sociais, para níveis dos anos 90; o descalabro fiscal do governo ladrão e inepto, somado aos vícios estruturais, levou não somente à diminuição da produção de riqueza como à corrosão da riqueza produzida; a Lei de Responsabilidade Fiscal foi morta pelas pedaladas de Dilma Rousseff devolvendo o Estado à pré-história republicana.

Saúde e educação não escaparam do sucateamento, nem a infraestrutura e a segurança pública no que também compete ao governo federal. A política externa inovou, avançando no primitivismo: nunca estivemos tão resolutamente do lado de bandidos internacionais. Os pastores do atraso tiveram em Lula – o farsante que dissimulava a essência primitiva na aparência do operário que revolucionaria o país – o sacerdote ideal e fizeram o diabo para protegê-lo para, assim, também proteger os próprios desejos, negócios, amantes, famílias, caprichos e o vidão, afinal, ninguém é de ferro.

A proteção exigiu a cópula ininterrupta entre o público e o privado nesse viveiro repugnante para a constante geração de mentiras; disfarçou-se em devoção à causa tão delinquente que, alegadamente pelo nosso bem, só se nutriu do nosso mal. A aparência do sacerdote era a imunização contra a lei, as críticas, a luz e a verdade. Na clivagem vigarista da nação entre nós e eles, no discurso de ódio aos opositores tolerado pelos que agora se levantam contra o “ódio fascistoide da nova direita”, no financiamento do JEG, no mensalão, nas negociatas com antigos inimigos políticos, na desinstitucionalização da república, o jeca atrofiou a nossa incipiente política de tal modo que ela não o detivesse.

Assim, coube à Justiça revelar a essência do sacerdote miserável àqueles que ainda acreditavam na aparência e impor aos comparsas dele a abolição da farsa que patrocinaram. A Lava Jato e as investigações que chegaram ao sítio e ao tríplex educam uma geração inteira ao colocar na cadeia delinquentes com poder político e econômico e desmascarar o sacerdote que se pretendia intocável, coisa impensável desde sempre: desacertos nossos tão singulares que, a partir deles, nos acertamos com o mundo civilizado saltando para um futuro que sempre pareceu utópico.

Isso melhora o país submetido ao retrocesso que lhe custará um bocado do futuro. Enquanto o Brasil que presta deve comemorar o novo patamar civilizatório, o PT, na festa tristonha, comemora o anúncio da PF de que investigará as inúteis confusões íntimas de Mirian Dutra. A nação esbulhada pode deixar o passado para trás; o PT, desesperado por um passado incessante, asfixia-se.

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