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Profissões em extinção: o afinador de pianos

Um artista da música: o afinador de pianos Branca Nunes Em vez de bombeiro, piloto de avião, detetive ou jogador de futebol, atividades com que sonhavam 99% dos adolescentes, Armando Aronne decidiu aos 15 anos que seria afinador de pianos. A paixão está instalada na família há bastante tempo. Chegou da Itália em 1954 com […]

Por Augusto Nunes - Atualizado em 21 fev 2017, 12h32 - Publicado em 31 jul 2010, 17h23

Um artista da música: o afinador de pianos

Branca Nunes

Em vez de bombeiro, piloto de avião, detetive ou jogador de futebol, atividades com que sonhavam 99% dos adolescentes, Armando Aronne decidiu aos 15 anos que seria afinador de pianos. A paixão está instalada na família há bastante tempo. Chegou da Itália em 1954 com o patriarca Giovani, que fundou em São Paulo a Aronne Pianos, uma das mais conhecidas lojas de venda, aluguel e reforma desse instrumento musical.

A arte de afinar pianos nada tem a ver com a de tocá-los. O afinador é um exímio conhecedor dos sons e das engrenagens, mas raramente sabe harmonizá-los em canções. Armando até arranha algumas notas, mas, apesar das mãos graúdas e dos dedos longos típicos de concertistas, não é essa a sua vocação. Nasceu para afinar o instrumento.

O dom já o levou a concertos de celebridades como Nelson Freire, Nora Jones, Jack Johnson, e o transporta todos os anos para um mês de trabalho no Festival de Inverno de Campos do Jordão, no interior de São Paulo. Músicos mais exigentes não sobem ao palco sem um afinador ao lado. E lá está Armando.

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Aos 32 anos, cuida dos pianos das melhores casas de espetáculos da cidade, e também dos instrumentos alojados em residências que insistem em manter viva uma tradição muito comum até meados do século passado, quando “boas famílias” e filhas que tocavam pianos eram sinônimo. “Pelo que percebo. esse hábito está sendo restaurado”, anima-se Armando. “Sou chamado cada vez mais a lugares com essas características.”

O que está cada vez menor é o interesse pela profissão. Armando torce para que os filhos que deverão nascer depois do recente casamento resolvam seguir o ofício que ele herdou do pai. “É algo que passa de geração para geração”, acredita. “Caso não queiram, a profissão acaba.”

Além de oferecer um serviço em extinção, a Aronne representa uma espécie cada vez mais rara: a típica loja familiar. Marcelo, o irmão mais velho, é responsável pela reforma e pelos orçamentos. Ângela, a do meio, cuida da parte administrativa. O caçula Armando é apaixonado pela afinação. “É um ofício solitário, que exige dedicação exclusiva”, ensina.

Os olhos de Armando se iluminam quando tenta descrever a sensação que sente ao dar vida ao instrumento. E se enchem de lágrimas com a lembrança da perda sofrida há três meses. Fulminado por um ataque cardíaco, Giovani deixou a família – e principalmente Armando – mais silenciosa. “Meu pai nunca me impôs essa carreira”, lembra. “Mas acho que de tanto ver o amor que ele sentia pela profissão, acabei sendo influenciado.”

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Armando passa a maior parte do dia na rua. Cada afinação demora de uma a três horas e custa 250 reais. Trabalho não falta. Embora seja uma profissão em risco de extinção, não adianta: enquanto existirem pianos no mundo, será necessário um Armando para afiná-los.

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