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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Nossos domingos

Não faço do destino de Lula o centro das minhas preocupações depois que ele foi preso, e não participo do que acho que virou obsessão no noticiário

Por Valentina de Botas Atualizado em 30 jul 2020, 20h23 - Publicado em 14 jul 2018, 07h14

Valentina de Botas

Depois de duas semanas no hospital, recuperação lenta e trabalhosa em casa, minha filha está recuperada. O resultado dos últimos exames confirmou a cura na quarta-feira retrasada. Pensem numa mãe feliz, exausta, com o cabelo implorando por um corte e uma hidratação, com o saldo negativo ainda maior no banco (remédios que salvam tua vida estão pela hora da morte) e tão grata. Minha filha, tanto tempo entre o quarto do hospital e o de casa, quis celebrar e sugeri o programa de que ela tanto gosta desde pequena: um piquenique num parque para desfrutar o calor e o sol que ainda desfigurariam o inverno por uns dias. Família e amigos contribuíram com bebidas, comidinhas, planejamento e o essencial: dividir alegria e afeto, o que sempre os multiplica. O assalto do lulo-desembargador Rogério Favreto ao domingo dos brasileiros não atingira aquela nossa trégua do cotidiano do país que se deixa assombrar por um jeca que esperneia para que se abra a porta da cela. Já passava de uma da tarde quando troquei mensagens rapidamente pelo WhatsApp com alguém tão especialmente querido quanto bem-informado que chegou a me perguntar se eu ainda duvidava de que o STF tramava soltar Lula. Não entendi direito, mas o jeca era a última coisa da qual queria me ocupar na tarde que reluzia. Só por volta das três horas da tarde soube do assalto que desmoralizou o assaltante.

Não duvido da tal trama, só não faço do destino de Lula o centro das minhas preocupações como cidadã depois que ele foi preso e não participo do que acho que virou obsessão no noticiário: o que Lula fez, disse, pensou, quer. Além de a pior figura da nossa história ser inelegível e que pagará por seus crimes, mesmo que garimpe um HC aqui ou ali, fixar-se nele é olhar para trás, é fazê-lo vitorioso de algum modo, tendo-o como referência, mesmo que negativa, na paisagem na neblina em que o país se perdeu de si. Nem vejo a coisa como trama porque há fundamento legal tanto para soltar Lula como para mantê-lo preso. Os mais inflamados podem tirar a calça pela cabeça, mas a decisão do STF sobre prisão depois de condenação em segunda instância está em aberto porque Cármen Lúcia, patética heroína de névoas, resistiu ao bom senso e não pautou o julgamento das ações declaratórias de constitucionalidade. Não, as decisões havidas (mesmo a de novembro de 2016) não têm efeito vinculante e, por isso, se aplicam somente aos casos analisados, no chamado efeito de repercussão geral. É somente o STF que pode dar uma resposta institucional e tirar o país do limbo jurídico quanto à questão. Seja qual for a decisão, Cármen Lúcia preside o STF para lidar com ela, não para evitá-la; votar ou não a matéria em função de Lula é atar o país ao destino do jeca. A ministra é a responsável moral do assalto do burlesco Favreto, ambos personagens plausíveis apenas num país concebido por um Ionesco oligofrênico. Tristeza contemplar a simultaneidade de figuras tão lamentáveis na chefia dos Três Poderes, além de justiceiros conspiradores como Janot, procuradores militantes como Dallagnol e o medíocre sabotador Rodrigo Maia.

Lewandowski limita o direito do governo sobre as privatizações, Cármen Lúcia mandou o Estado (nós, para quem não ligou o nome à pessoa) pagar pensão a marmanjas cujo mérito é ter pai militar. Num caso, o Tesouro recolheria uma boa soma; no outro, a economia não seria grande, mas em ambos importa o simbolismo: na nação apaixonada pelo Estado como provedor/resolvedor que não vê que ela é provedora dele; na nação de empresários loucos por subsídios; da indústria dos concursos públicos; do Congresso que amputa de vez a racionalidade nas contas públicas; enfim, na nação da meia-entrada como definiram Zeina Latif e Marcos Lisboa, em que só entra quem pode pagar inteira, simbolismo semeia princípios. Escrevo na manhã de sexta-feira, situando essas notícias no contexto pré-eleitoral depois de arruinarmos a chance de futuro que tivemos no governo Temer e acho que me tornei um inseto, sabe, caro Gregor Samsa? Aproveito para te dizer que sinto muito aquela tua morte na desumanização. Não sei se estou me tornando repugnantemente cínica ou se apenas estou tentando lidar com o absurdo do real, como todo cidadão brasileiro que, um pouco sozinho, doma o cotidiano entre o ponto de ônibus e o resto de um sonho, entre a fila para um exame médico e um resto de toco, entre perspectivas desmanteladas e a marcha estradeira num resto de país. Mas meta-se a ver sentido no real e você vai ver só aonde é que isso vai te levar: você vira um sintoma do absurdo. Nada disso; ajo diferentemente de Gregor: resistindo à desumanização que o absurdo impõe, faço minha implausibilidade como inseto desafiar a implausibilidade do real. Então, uso o antídoto à mão: reconheço a mútua falta de sentido. É que não faz sentido o debate LulaSoltoXLulaPreso se o lulo-desembargador for “punido” com a aposentadoria compulsória integral de seis dígitos, aleijão simbólico que esfrega na nossa cara que Lula importa menos do que o fato de permitirmos aposentadorias dessa monta, e como punição.

Seremos só um resto de país líder em casos de leishmaniose, com metade dos lares dispondo de saneamento básico e universitários analfabetos se mantivermos Lula preso, mas castigarmos Favretos com uma aposentadoria milionária. Não podemos, enquanto orbitamos o abjeto planeta-Lula, olharmos também os desequilíbrios na elaboração do presente que desarticula a elaboração do futuro sob risco de calcinação no Congresso? A imprensa quis ouvir dos candidatos à presidência sobre o assalto de Favreto, mas apenas os jornalistas Carlos Andreazza e Vera Magalhães os convidaram a sair do silêncio covarde quanto às decisões indecentes do Congresso que quebrarão o país: veto à proibição de aumento salarial do funcionalismo público, restabelecimento de subsídios para a indústria de refrigerantes, contrabando de um dispositivo na lei sobre as estatais permitindo nomeações políticas, criação de novos municípios. Poucos foram os jornalistas que abordaram declarações do líder das pesquisas, Jair Bolsonaro. Ele quer um STF para chamar de seu, por isso nomearia mais 10 ministros: a pessoa está há 30 anos no Congresso e tem tal compreensão miserável sobre leis, de Estado, governo, democracia e sociedade. Disse, ainda, sobre Vladimir Herzog que “suicídios acontecem, pessoal, tem gente que pratica”. O deputado, que se sagra intocável pelos truculentos discípulos da seita da direita verdadeira, se parece com Lula, mas também com Dilma Rousseff que, antes de eleita, desfilava como ministra sua parvoíce autoritária na mais clara crônica de uma tragédia anunciada. Desolador constatar que alguns democratas que denunciavam o embuste desafiando a plausibilidade do absurdo de então, hoje, relevam o embuste bolsonarento.

Receio que insistir em Lula como o eixo do nosso cotidiano nos mantém no subsolo dessa imensa delegacia em que o Brasil se tornou: no calabouço sem janelas, tomamos os horizontes da súcia como a referência; nesse porão simbólico, marcamos o tempo pelos movimentos do jeca e esterilizamos a semente de domingos ensolarados mantendo as condições para assaltos renovados, se não mais por Lula, por outros candidatos a dono do mundo.

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