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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Com a palavra, o soldado raso

PUBLICADO NA EDIÇÃO DE VEJA DESTA SEMANA AUGUSTO NUNES Mesmo antigos seguidores dos Paralamas do Sucesso reagem com espanto à descoberta de que o baterista João Barone é um especialista em II  Guerra Mundial, já escreveu um livro sobre o tema e acaba de publicar outro, agora tratando exclusivamente da Força Expedicionária Brasileira. Como é possível encontrar espaço na agitada agenda de roqueiro para […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 06h10 - Publicado em 27 Maio 2013, 15h51

PUBLICADO NA EDIÇÃO DE VEJA DESTA SEMANA

AUGUSTO NUNES

Mesmo antigos seguidores dos Paralamas do Sucesso reagem com espanto à descoberta de que o baterista João Barone é um especialista em II  Guerra Mundial, já escreveu um livro sobre o tema e acaba de publicar outro, agora tratando exclusivamente da Força Expedicionária Brasileira. Como é possível encontrar espaço na agitada agenda de roqueiro para pesquisas sobre o maior dos conflitos registrados desde o Dia da Criação? A  leitura de 1942 — O Brasil e Sua Guerra Quase Desconhecida ordena que a pergunta seja invertida: como é  que Barone consegue atender aos compromissos da banda se aparentemente consome 24 horas por dia no resgate de acontecimentos ocorridos há  setenta anos?

Filho de um dos 25 000 combatentes da FEB, o Barone historiador começou a tomar forma embalado não pelo que ouviu do pai, mas pelo que  João de Lavor Reis e Silva, um introvertido de nascença, deixou de contar. Ele se tornava mais retraído ainda quando a conversa enveredava pela  experiência vivida entre setembro de 1944 e maio de 1945, período em que participou da ofensiva militar aliada que libertou o norte da Itália,  consumou a derrocada dos alemães numa região de alta relevância estratégica e apressou o fim da guerra em território europeu. Os filhos  ansiavam por atos heroicos. Nas raras ocasiões em que se dispôs a falar sobre o assunto, o pracinha de poucas palavras interrompeu o relato no  meio ou substituiu revelações por reticências.

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Barone primeiro recorreu à imaginação para reconstituir as aventuras encobertas pelo silêncio. Depois de herdar o capacete de expedicionário,  saiu à caça de testemunhas, documentos e imagens que lhe permitissem ao menos vislumbrar o que o pai viu de perto. Incursões pelos cenários do  drama completaram o curso intensivo que fez de Barone um diplomado em II Guerra, com doutorado em FEB. O destino impediu que o soldado  raso do Regimento Sampaio descobrisse que o filho hoje sabe muito mais do que ele sobre a guerra a que sobreviveu. O velho pracinha gostaria de  ouvir a assombrosa história do soldado Dálvaro José de Oliveira, que resistiu num único dia a dois naufrágios provocados por torpedos alemães.  Ou o caso do catarinense que encontrou um conterrâneo de ascendência germânica no grupo de prisioneiros e trocou um caloroso abraço com o  agora inimigo.

Quantas mulheres se engajaram na FEB? Quem foi o primeiro a tombar em combate, por que a metralhadora inimiga foi apelidada de “Lurdinha”,  quantos bombardeios somaram os aviadores brasileiros? Barone sabe tudo isso. E muito mais. Conjugadas a depoimentos e revelações  surpreendentes, as informações contidas no livro resultam numa narrativa sem parentesco com a história oficial. Vista pelas lunetas dos chefes civis e militares, a saga da FEB parece o Brasil Maravilha dos discursos de Lula: se melhorar, estraga. Comandadas por generais que não fariam feio  num confronto com Napoleão Bonaparte, as tropas brasileiras, protegidas pelos pilotos do Senta a Pua!, colecionaram vitórias tão espetaculares que nem vale a pena registrar um ou outro revés.

Essa versão edulcorada tem sido retificada por obras que tratam a verdade com o devido respeito. É o caso do essencial As Duas Faces da Glória,  do jornalista William Waack. E é o caso de 1942. O entusiasmo de pracinha honorário em nenhum momento deforma o olhar de Barone. É o olhar  do pai. Vista pelo filho de João de Lavor Reis e Silva ─ ou apenas João da Silva, protagonista do episódio fictício que abre o livro ─, foi bonita a  história da FEB. Mas bonita de outro jeito. “As lições da participação brasileira vão muito além da velha necessidade de reafirmar a bravura e o  heroísmo dos pracinhas no campo de batalha”, escreveu Barone. “Naquela época, foi tão difícil constituir uma força militar para tomar parte na  guerra quanto é difícil nos dias de hoje preparar o país para sediar uma Copa do Mundo, uma Olimpíada ou para prevenir as enchentes de verão  (vale lembrar que o total de 916 mortes e 345 desaparecimentos com as chuvas de 2011 no Rio por pouco não superou os cerca de 1 500  brasileiros mortos na II Guerra Mundial).” Refletir sobre o que houve entre 1942 e 1945, insiste Barone, poderia ajudar a desfazer a sensação de  que o país nunca aprende com os erros do passado. Não foram poucos os erros que pontuaram a saga da FEB ─ e que testaram a determinação de  milhares de Joões da Silva na frente doméstica nos dois anos que precederam a partida para a Itália.

Criada oficialmente em 1943, a FEB teve de enfrentar as incertezas geradas pelos movimentos pendulares do governo de Getúlio Vargas, que  oscilou entre as partes em guerra antes de definir-se pelos aliados. As tropas tiveram também de vencer intrigas políticas, uma estrutura militar  envelhecida e, sobretudo, carências inverossímeis. No treinamento no Brasil, faltaram armas para combates simulados. (Para que se aprendesse a  lidar com explosivos, latas de goiabada fizeram as vezes de minas terrestres.) E continuaram faltando armas às tropas já acampadas na frente  europeia. O comando americano teve de socorrer os brasileiros com trajes de frio, barracas de campanha, alimentos e outros suprimentos  básicos.

A FEB já tinha um hino meses antes de existir fisicamente. Como os pilotos do Senta a Pua! descobriram só às vésperas de uma parada militar que  faltava um hino à Aeronáutica, resolveram desfilar ao som da marchinha carnavalesca Jardineira. Esses monumentos ao jeitinho brasileiro comprovam que os nativos destes trêfegos trópicos recorrem a improvisos espertos até no meio de uma guerra. Nem sempre dá certo, ensinam os  dramáticos episódios que Barone narra com a leveza que identifica os autores vacinados contra a linguagem pedante dos acadêmicos demais. O  músico historiador falou pelo pai. O Brasil enfim pode ouvir como foi a guerra quase desconhecida pela voz de um João da Silva.

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