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“Oba, o Vanderlei chegou”

PUBLICADO NA EDIÇÃO IMPRESSA DE VEJA LEONARDO COUTINHO Até duas semanas atrás, o deputado federal Gabriel Chalita era uma estrela ascendente na política. Em 2010, ganhou prestígio ao defender a então candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, quando ela foi atacada por grupos religiosos por,  supostamente, defender o aborto e o casamento entre homossexuais. Dois anos depois, candidatou-se a prefeito de São […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 06h45 - Publicado em 3 mar 2013, 15h33

PUBLICADO NA EDIÇÃO IMPRESSA DE VEJA

A canoa virou: o deputado Gabriel Chalita com seu ex-assessor Roberto Grobman em uma viagem a Étreat, na França, em 2004: o amigo do peito agora é o acusador

LEONARDO COUTINHO

Até duas semanas atrás, o deputado federal Gabriel Chalita era uma estrela ascendente na política. Em 2010, ganhou prestígio ao defender a então candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, quando ela foi atacada por grupos religiosos por,  supostamente, defender o aborto e o casamento entre homossexuais. Dois anos depois, candidatou-se a prefeito de São Paulo pelo  PMDB e, com sua imagem de bom moço, discursou em defesa da ética e da amizade com padres-celebridade, como Marcelo Rossi e  Fábio de Melo, conseguindo 13% dos votos. Saiu com o passe valorizado  a ponto de, agora, ser nome certo na reforma ministerial que a presidente Dilma fará neste mês — além de peça no tabuleiro das eleições de 2014, quando poderia ser candidato ao Senado ou a  vice-governador. O depoimento demolidor feito ao Ministério Público por um ex-assessor e ex-amigo do peito fez tudo ruir.

Roberto Grobman, o ex-assessor, contou aos promotores que se aproximou de Chalita em 2004, quando ele era secretário da Educação de São Paulo. Fez isso por determinação do empresário Chaim Zaher, que era dono do Sistema COC de Ensino e teria interesse em  conseguir contratos com o governo. Grobman diz que Zaher lhe pagava um salário para que ele atuasse na secretaria. “O Zaher queria  ter uma pessoa dele lá dentro para que pudesse vender os seus produtos. Queria ser favorecido, obviamente.” Ficou, assim, estabelecida a bizarra situação em que Grobman, empregado pago por uma empresa privada, dava expediente numa secretaria de governo, com direito a cartão de visita timbrado e o título de “assessor de gabinete”. Nessa condição, ele se tornou íntimo do então  secretário, com quem viajou para diversos países (“O Chalita disse que gostou de mim e eu virei seu acompanhante de viagens”). Mas  nem essa proximidade com o titular da pasta nem as supostas vantagens que o COC teria ofertado a Chalita ─ entre elas o pagamento de  parte da reforma de um dos seus apartamentos, fato que Zaher nega ─ resultaram em algum negócio para o grupo. Diz Grobman: “O  Chalita deixava o Zaher sempre no fim da fila. Dizia que tinha acordos mais importantes”.

Grobman permaneceu como assessor informal de Chalita por dois anos. Nesse período, disse ao Ministério Público, assistiu a reuniões  em que ele combinava como seriam feitas as cobranças de propina a fornecedores da secretaria, como a Zinwell, uma empresa de  origem chinesa contratada para fornecer por 5 milhões de reais 5 000 antenas parabólicas para escolas. A “taxa”, de 25%, era entregue  diretamente a Chalita em seu apartamento em Higienópolis. Segundo Grobman, o ex-secretário chamava o dinheiro de “Vanderlei”. “Quando tocava o interfone, ele gritava, eufórico: ‘Oba, chegou o Vanderlei!’. Só mais tarde descobri que Vanderlei não era uma  pessoa. Como ele dizia que mandava a sua parte para uma conta bancária em Luxemburgo, fazia graça com o nome do técnico de futebol”, diz. Grobman contou ao MP que, por diversas vezes, viu Chalita distribuir o dinheiro que recebia. “Ele derramava as notas no  chão do closet. Arrancava as tiras dos maços e jogava em cima dos assessores, imitando o Silvio Santos: ‘Quem quer dinheiro?!!’.”

O ex-assessor afirmou ainda que empresas fornecedoras da Secretaria da Educação eram compelidas a comprar lotes de livros do  deputado ─ uma manobra que o ajudaria a justificar o seu exuberante aumento patrimonial (os 741 000 reais em bens que ele  declarava possuir em 2000 transformaram-se em 11,5 milhões em 2011). Aos promotores, Grobman pôs em dúvida não apenas os  motivos pelos quais os livros eram vendidos, mas também quem os escrevia. Um dos inquéritos abertos apurará se houve uso de  dinheiro público no pagamento de uma equipe de ghost writers que, segundo Grobman, ajudava o ex-secretário a escrever seus livros  ─  ele já lançou 64 até agora. Procurado por VEJA, Chalita disse, por meio de nota, ser vítima de uma disputa política e negou que  Grobman tenha sido seu assessor ─ embora tivesse e-mail funcional, cartão de visita e tenha aparecido nos prospectos da Unesco como representante da secretaria em evento realizado em 2004, na França (onde ele e Chalita posaram para a foto que ilustra esta  reportagem).

Na segunda-feira, o governo federal anunciou ter desistido de nomear o peemedebista para um ministério. A aventada vaga no Senado  em 2014 soa agora uma impossibilidade, sem falar nos planos para a candidatura a vice-governador. Na quinta, Chalita se reuniu com  um grupo de assessores e admitiu: “Eu estou acabado”. O resultado das investigações do Ministério Público dirá se o país deve ou não  lamentar essa constatação.

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