16/03/2013
às 14:00 \ Tema LivreNeil Ferreira: Chico Primeiro é tão gracinha que nem parece hermano

"Meu voto obedeceu à orientação de Bento XVI: captei sua mensagem e votei no africano". Na foto, o cardeal Turkson, de Gana (Foto: EFE)
Por Cardeal Neil Ferreira, publicado no Diário do Comércio da Associação Comercial de São Paulo
CHICO PRIMEIRO É TÃO GRACINHA QUE NEM PARECE HERMANO
Não votei nele, mas gostei. Meu voto obedeceu à orientação de Bento XVI, na homilia em que sugeriu à Igreja a penitência pelos pecados, a renovação, a transparência e a abertura de um diálogo mais amplo com a sociedade. Captei a mensagem e votei no africano, que poderia ser um sopro de oxigênio para o Vaticano, assim como o Joaquinzão Barbosa foi para a Justiça brasileira.
Eu queria um Joaquinzão Barbosa; seria uma tremenda tacada de marketing, que viraria a Igreja de cabeça pra baixo sem que ela se deslocasse um milímetro sequer de onde sempre esteve.
Como Minas, estaria e ficaria onde estava, sem nunca dali arredar o pé por nada deste mundo. Como Lampedusa escreveu em “O Gatopardo”, é necessário mudar muito para ficar no mesmo lugar.
Um novo Papa tipo Joaquinzão Barobosa, seria uma chacoalhada na opinião pública. Despertaria em alguns setores do clero tipo linha Frei Betto, nosso Demônio de porta de igreja, esperanças de desvio a bombordo — fim do celibato dos padres, aceitação do aborto e do casamento gay. Sem chance.
Ser concedida a uma mulher a possibilidade de ser a Segunda Papisa, nem pensar, em que pese o poder atribuído à Merkel, Hillary, Michelle, La Kirchner, La Roussef e La Bundchen, não nesta Eternidade, quem sabe em outras, pouco mais distantes.
Em nenhuma das 115 cabeças dos cardeais eleitores, entre as quais incluo a minha, jamais passou um fiapo de intenção de mexer numa política, sim é política, que vem sendo testada há apenas 20 séculos e já tem alguém aí com a ideia de jerico de mudar tudo.
A foto do “Osservatore Romano” publicada na nossa imprensa, dos cardeais milimetricamente alinhados, como batalhões do exército da Coréia do Norte no funeral do seu líder, sob o teto sem igual no mundo da Capela Sistina, congelou o que parece congelado há 2 mil anos.
Quem observa nota que nada há de congelado, o que há lá nunca parou de se mover, para frente, para trás, para os lados, para cima, nunca para baixo, embora tenha sofrido baixíssimos baixos, de onde se recupera.
Aí, a fumacinha preta. Um ohhh e um frisson, no Mundo. Aí, a fumacinha branca. Um ohhh e um frisson no Universo. Numa sociedade de ícones modernosos, permanecem os que tenho o desplante de chamar de clássicos: a Cruz de Cristo, a Estrela de Davi, a Suástica e a Foice e o Martelo. Não me envergonho de acrescentar as fumacinhas preta e a branca.
(Uma parte mais desavergonhada do meu ser atreve-se a acrescentar, entre parênteses e a sottovoce, a maçã mordida da Apple. Corro o risco de Bill Gates me dedurar a Deus que coloquei aqui o fruto proibido. Para Gates, seguidor fiel das Escrituras, a maçã mordida é e sempre será o fruto proibido).
Aí, o grand finale. As luzes da sacada acesas, abrem-se as cortinas do espetáculo (lembra do cara que narrava futebol como enorme dramaticidade?), aparece lá um dos meus colegas, acho que o mais velhinho, são tantos os mais velhinhos que nem sei mais quem é qual e com sua voz trêmula quase d’além túmulo, fala de maneira quase incompreensível “Habemus Papam” e em seguida pronuncia um nome com sobrenome italiano. Deu zebra ! O Papam é hermano.
É anunciado que ele escolheu o nome de Francisco, foi o que foi informado, assim mesmo, Francisco. Neste momento em que escrevo, há uma tremenda discussão teológica, feita na frente da tv, se ele é Francisco ou Francisco I. Nem eu, a bordo das minhas vestes cardinalícias, posso aconselhar uma saída para o impasse.

"A escolha de Francisco foi um show com audiência mundial equivalente às do 'Oscar', dos playoffs da NBA e do Superbowl" (Foto da Praça de São Pedro lotada: AFP)
Mas eis que Francisco assume o seu cargo de pastor, humilde (nem parece argentino) pede que os fieis rezem por ele. A Praça de São Pedro, lotada, embandeirada, contei uma boa meia-dúzia de bandeiras brasileiras, orava, aplaudia, cantava.
Você pensa que os musicais e o showbizz são invenções da Broadway e do cinema de Hollywood; não são.
A invenção é da Igreja, que apresenta seu espetáculo e seus figurinos com tanta pompa e circunstância; os americanos são aprendizes esforçados, que contribuíram com o sentido de mídia.
Mas até nisso a Igreja aperta o cerco. A escolha de Francisco foi um show com audiência mundial equivalente às do “Oscar”, dos playoffs da NBA e do Superbowl.
A do próximo Papa vai bater em todas essas e até na final da Champions League.
Tags: aborto, Angela Merkel, Bento XVI, Capela Sistina, cardeal Turkson, Casamento gay, celibato, champions League, Cristina Kirchner, Dilma Rousseff, Frei Betto, Gisele Bündchen, Habemus Papam, Hillary Clinton, homilia, Joaquim Barbosa, Michelle Obama, papa Francisco, Praça de São Pedro, Vaticano














































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