Blogs e Colunistas

Cristina Kirchner

09/08/2014

às 0:00 \ Disseram

A culpa é do Brasil?

“O Brasil tem crescimento previsto de 1,3% em 2014 e é o nosso principal sócio comercial.”

Cristina Kirchner, presidente argentina, ao nomear o Brasil uma das causas da crise econômica pela qual seu país passa atualmente

02/08/2014

às 0:20 \ Vasto Mundo

A charge de SPONHOLZ: Cristina, “reina” de la Argentina

a charge cristina kirchner

30/07/2014

às 0:00 \ Disseram

As “especulações” a respeito da Argentina

“O problema que atinge hoje a Argentina é uma ameaça não só a um país irmão, atinge a todo o sistema financeiro internacional. Não podemos aceitar que a ação de alguns poucos especuladores coloquem em risco a estabilidade e o bem-estar de países inteiros.”

Dilma Rousseff, durante encontro com os presidentes do Mercosul, em Caracas, na Venezuela, em apoio ao país de Cristina Kirchner, que pode dar calote a credores nesta quarta-feira

17/07/2014

às 19:30 \ Política & Cia

Banco dos Brics é uma boa ideia. Pena que Dilma haja estendido tapete vermelho ao tirano Putin, da Rússia, no momento em que ele está isolado internacionalmente — por boas razões

(Foto: Agência Brasil)

Dilma com Putin em Brasília na segunda-feira: tapete vermelho para o presidente russo no exato momento em que ele recebe sanções dos EUA e da Europa (Foto: Agência Brasil)

Apesar de um considerável tom anti-Ocidente, é uma iniciativa inteligente e ousada a criação do Banco dos Brics — sigla do grupo de grandes países em desenvolvimento que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Como se sabe, a instituição, anunciada anteontem na sexta reunião de cúpula do grupo, em Fortaleza, terá um capital de 50 bilhões de dólares, destinados a financiar projetos de infraestrutura e a serem desembolsados igualmente pelos sócios ao longo de dois anos, mais um colchão de reservas de 100 bilhões de dólares para fazer frente a eventuais crises cambiais.

Essas reservas, cujo montante poderá ser aumentado e cujo mecanismo de formação não foi anuncado em detalhes, não são suficientes para enfrentar crises de grande monta, mas sem dúvida constituem uma boa ideia e um bom começo.

A suposta “derrota” do governo brasileiro, e da presidente Dilma em particular, por não haver emplacado a presidência da entidade é muito mais fofoca de mídia do que algo com qualquer fundamento na realidade. A presidência será rotativa, cabendo o primeiro mandato à Índia — que, afinal de contas, foi quem teve a ideia do banco — e, ademais, o Brasil ficou com a presidência do Conselho de Administração.

(Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Na primeira fileira, da esquerda para a direita, em seguida à presidente Cristina Kirchner, os dirigentes dos cinco países-sócios: Rússia, Índia, Brasil, China e África do Sul. Fechando a fila, Evo Morales, da Bolívia. O gesto em direção à América do Sul foi político — não se sabe se e quando o novo banco irá trabalhar com países da região (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

O fato de a gigantesca Xangai, na China, ter sido escolhida para sede do banco não reflete mais do que a evidência de que o colosso chinês, com seu Produto Nacional Bruto de 9,2 trilhões de dólares, era o destinatário inevitável da nova entidade. Se não a China, quem seria? A África do Sul, com seu PIB de 350 bi?

O convite para que governos sul-americanos — vários deles “bolivarianos”, a começar pelo desgoverno delirante de Nicolás Maduro na Venezuela — participassem de parte da cúpula dos Brics é um gesto político, uma canelada a mais que o o governo lulopetista do Brasil, autor da iniciativa do convite, quis assestar nos Estados Unidos, país com o qual a relação atual é “morna”, segundo a própria presidente Dilma.

Não se sabe se o gesto político terá consequências práticas, como um socorro da nova instituição à Argentina de Cristina Kirchner, à beira de não conseguir honrar compromissos internacionais. A óbvia prioridade do novo banco é impulsionar projetos nos cinco sócios — e mesmo para isso o dinheiro, os 50 bilhões de dólares, é curto.

O que chateia os democratas nisso tudo é o governo do Brasil haver permitido que o impacto da iniciativa ajudasse a retirar o autoritário presidente russo Vladimir Putin da situação de semipária internacional.

O lançamento do banco e o tapete vermelho estendido por Dilma a Putin ocorreram no exato e preciso momento em que a Rússia sofria sanções dos EUA e da União Europeia em represália à anexação do ex-território ucraniano da Crimeia e por, debaixo dos panos, mas notoriamente, ajudar os rebeldes ucranianos de etnia e cultura russas que querem juntar mais um pedaço do país à soberania russa.

Não bastasse isso, há evidências de que Putin, por meio de seus aliados na Ucrânia, tem as mãos sujas de sangue pela derrubada de um jato da Malaysia Airlines que matou 298 pessoas próximo à fronteira ucraniano-russa.

Dilma também não se manifestou, nem em conversas à parte com Putin, sobre as crescentes violações dos direitos humanos na Rússia.

13/07/2014

às 18:40 \ Política & Cia

AMARELAS: O Brasil deve esquecer o Mercosul, deixar a Argentina de lado e fazer, sozinho, um acordo de livre comércio com a União Europeia

(Foto: Lailson Santos)

(Foto: Lailson Santos)

O BRASIL DEVE SEGUIR SOZINHO

O economista e ex-diretor da área internacional da Fiesp diz que é hora de deixar a enrolada e endividada Argentina de lado e fazer um acordo de livre-comércio com a União Europeia

Entrevista a Duda Teixeira publicada em edição impressa de VEJA

Por nove anos, o economista Roberto Giannetti da Fonseca foi diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), entidade que representa 41% do setor industrial nacional. Até o ano passado, quando deixou o cargo, trabalhou dentro dessa instituição para que o Brasil se abrisse para o mercado internacional.

Aos 64 anos, ele agora se dedica a sua consultoria econômica, a Kaduna. “Por causa da decisão de priorizar o Mercosul, o Brasil ficou muito dependente das exportações para a Argentina”, diz o economista. Para Giannetti, com o país vizinho à beira de um novo calote na dívida externa, fica claro quanto o Brasil se arrisca em não reduzir essa dependência.

A Argentina tem até o fim deste mês para pagar uma dívida com credores estrangeiros. Qual é o risco de o país dar o calote?

É bastante alto. A Argentina caiu em uma armadilha jurídica. No contrato de reestruturação da dívida, feito alguns anos atrás, há uma cláusula muito importante. Ela determina que os credores que aceitaram receber o valor da dívida com desconto devem ter um tratamento igual ao dos demais credores.

A questão é que uma parte menor dos credores, que ficou com 8% do montante, obteve na Justiça americana o direito de receber os títulos pelo seu valor de face, ou seja, 100%. Se os outros, que aceitaram receber menos, agora também entrarem na Justiça, a Argentina terá de pagar o valor integral. Isso representaria uma dívida total de 100 bilhões de dólares, muito mais do que os 28 bilhões de dólares de reserva internacional que o país tem.

O que pode ser feito, então?

A única saída é negociar com aqueles que aceitaram o desconto e tentar retirar a cláusula. Ao mesmo tempo, é necessário convencer os outros fundos, chamados de abutres, a aceitar o valor de face, mas em um prazo mais longo.

O que aconteceria se a Argentina desse o calote?

Se o calote for inevitável, os argentinos estarão diante de uma crise da maior gravidade. Eles ficarão isolados do resto do mundo. Será uma situação caótica. Qualquer propriedade do Estado argentino no exterior – imóveis, navios e contas bancárias – poderá ser penhorada para pagar aos fundos abutres.

A comunidade internacional, porém, se esforçará para evitar esse cenário. Deve haver uma nova renegociação, com a ajuda do FMI (Fundo Monetário Internacional) e de outras instituições. Para isso, a Argentina tem de se sentar à mesa sem arrogância, com humildade.

A palavra “abutre” não é exagerada?

Pode ser, mas a analogia não deixa de fazer sentido. Esses fundos compram títulos de dívida de países ou empresas em dificuldades por uma fração da cifra original. Depois, entram na Justiça e tentam ganhar o valor integral do devedor, arrancando o seu fígado. Pode-se não gostar deles, mas a realidade é que não há nada de novo nisso. Fundos mais agressivos existem em qualquer mercado.

O erro por parte da gestão dos presidentes Néstor e Cristina Kirch­ner foi acreditar que eles não seriam um problema no futuro. Houve um certo descaso. O governo argentino deveria ter negociado antes com os administradores desses fundos e minimizado as dificuldades. Era algo que podia ter sido evitado.

Qual seria a consequência, para o Brasil, de um calote argentino?

As consequências não seriam financeiras, já que os investidores sabem muito bem diferenciar um país do outro. Os efeitos negativos ocorreriam mais no âmbito comercial. O mercado interno argentino está em franco declínio e é o destino de mais de 20% das nossas exportações de manufaturados, como peças de automóveis, sapatos e eletrodomésticos.

Sem reservas em dólar, ou seja, se der o calote, a Argentina não terá como pagar esses bens. O volume do nosso comércio com a Argentina então cairia bastante. A perda em exportação de manufaturados pode chegar a 5 bilhões de dólares por ano.

No mês passado, o Brasil alterou o acordo automotivo com a Argentina. Antes, podíamos exportar sem imposto 1,95 dólar em carros e peças para cada dólar importado. Agora, ficou em 1,5 dólar para cada dólar importado. Ou seja, ficou mais caro exportar. Foi uma decisão acertada?

Qualquer acordo é melhor do que nada. Mas, se a crise chegar, nem essa ajuda terá efeito. Eles não terão como pagar o que importam de qualquer jeito.

Dar ênfase demais ao comércio com a Argentina foi um erro?

Certamente. Preso ao Mercosul, o Brasil deixou de assinar acordos de livre-comércio com outros países. Exportar 20% dos manufaturados para um país instável como o dos nossos vizinhos é muito arriscado. Se nossa economia fosse mais aberta, estaríamos exportando esse valor para países como Japão, Estados Unidos, Canadá ou para a Europa.

O Mercosul negocia um tratado de livre-comércio com a União Europeia há catorze anos, mas a Argentina sempre atrapalha as conversas. Qual é a probabilidade de esse país embolar o jogo novamente?

Os argentinos sempre surpreendem na última hora. Deixam a negociação seguir para avaliar até onde o Brasil é capaz de chegar. Então, quando tudo está bem adiantado, dizem que não aceitam o que foi colocado na mesa. Em 2004, o Brasil chegou muito perto de fechar com a União Europeia, mas aí houve o boicote da indústria argentina, que reclamou do risco de ter tarifas reduzidas em relação aos concorrentes europeus. Houve uma sabotagem em um momento decisivo.

Foi uma pena porque, enquanto o Mercosul fracassou, o México já havia feito um acordo com a União Europeia quatro anos antes. O Chile concluiu o seu em 2003. O tratado com a Colômbia e o Peru entrou em vigor no ano passado. O elevado desempenho da economia desses países atualmente é resultado direto desses tratados. O Mercosul, contudo, foi na contramão e preferiu ficar isolado.

Pelas regras do Mercosul, o bloco só pode decidir por consenso. O Brasil está de mãos amarradas, ou há alternativas?

Os negociadores brasileiros deveriam ter assinado o acordo com a União Europeia sem a Argentina, dando cinco anos para os nossos vizinhos se adaptarem à nova situação.

Para fazer isso, há uma saída técnica. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

18/06/2014

às 12:00 \ Disseram

Redes sociais estão substituindo os tribunais

“Postarei no Facebook minha declaração completa.”

Amado Boudou, vice da presidente argentina Cristina Kirchner, em resposta a jornalistas que o aguardavam ao fim do depoimento de sete horas que deu à Justiça. Ele é acusado de ter mandado imprimir notas de 100 pesos em sua própria gráfica quando era ministro da Economia

19/02/2014

às 14:00 \ Vasto Mundo

A declaração de apoio a Maduro informa: o Mercosul começou a agir na clandestinidade e está com cara de organização criminosa

As ruas de Caracas tomadas pela grande manifestação em solidariedade aos estudantes, no dia em que Leopoldo López, o opositor procurado pelo chavismo, se entregou às forças de segurança venezuelanas (Foto: Twitter)

As ruas de Caracas tomadas pela grande manifestação em solidariedade aos estudantes, no dia em que Leopoldo López, o opositor procurado pelo chavismo, se entregou às forças de segurança venezuelanas (Foto: Twitter)

Publicado no blog de Augusto Nunes

A DECLARAÇÃO DE APOIO A MADURO INFORMA: O MERCOSUL COMEÇOU A AGIR NA CLANDESTINIDADE E ESTÁ COM CARA DE ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA

Às vésperas da sessão de abertura, o presidente venezuelano Nicolás Maduro amparou-se na cirurgia a que foi submetida Cristina Kirchner para adiar por um mês a reunião de cúpula do Mercosul que começaria no dia 17 de dezembro, em Caracas.

Em 5 de janeiro, invocando a necessidade de preservar a saúde da colega argentina, o herdeiro de Hugo Chávez resolveu transferir o início do encontro para o último dia do mês. Em 16 de janeiro, misteriosos “problemas de agenda” serviram de pretexto para o terceiro adiamento. E a celebração bolivariana ficou para “meados de fevereiro”.

Como fevereiro vai chegando ao fim, é certo que vem aí o quarto adiamento. O encontro dos sócios do bloco econômico mais raquítico do mundo será provavelmente transferido para março. É possível que fique para quando Deus quiser, avisam os desdobramentos da crise venezuelana e os indícios veementes de que os quatro parceiros de Maduro querem distância de Caracas.

Nas ruas de Caracas, o descontentamento do Povo, que não carece de assinatura (Foto: Twitter)

Nas ruas de Caracas, o descontentamento do Povo, que não carece de assinatura (Foto: Twitter)

Fazem muito bem, concordam as cenas perturbadoras agrupadas no vídeo abaixo (gravado durante os protestos da última quinta-feira, dia 13) e as fotos que documentam a gigantesca manifestação promovida nesta terça-feira.Um comunicado divulgado neste domingo pelo Ministério das Relações Exteriores da Venezuela atesta que a turma do Mercosul decidiu combater ao lado de Maduro, mas à distância e por escrito. Num texto cuja autoria foi atribuída por muitos adversários ao sucessor do bolívar de hospício, “os Estados membros do Mercosul, diante dos recentes atos violentos na irmã República Bolivariana da Venezuela e as tentativas de desestabilizar a ordem democrática, repudiam todo tipo de violência e intolerância que busquem atentar contra a democracia e suas instituições, qualquer que seja sua origem“.

E a prisão do líder oposicionista Leopoldo Lopez? E a retomada das perseguições à deputada Maria Corina Machado? E os manifestantes (dois oposicionistas e um chavista) assassinados com tiros na cabeça? O documento que ninguém assinou não perdeu tempo com tais detalhes, como deixa claro o restante do texto. Confira a continuação do palavrório:

Os  Estados membros reiteram seu compromisso com a plena vigência das instituições democráticas e, neste contexto, rejeitam as ações criminosas de grupos violentos que querem espalhar a intolerância e o ódio na República Bolivariana da Venezuela como uma ferramenta política. Expressam seu mais forte rechaço às ameaças de ruptura da ordem democrática legitimamente constituída pelo voto popular e reiteram a sua posição firme na defesa e preservação das instituições democráticas, de acordo com o Protocolo de Ushuaia sobre compromisso democrático no Mercosul (1998)”.

“Sugerem que as partes a continuem a aprofundar o diálogo sobre as questões nacionais, dentro do quadro das instituições democráticas e do Estado de direito, como tem sido promovido pelo presidente Nicolás Maduro nas últimas semanas, com todos os setores da sociedade, incluindo parlamentares, prefeitos e governadores de todos os partidos políticos representados. Finalmente, expressam suas sinceras condolências às famílias das vítimas fatais, resultado dos graves distúrbios causados, e confiam totalmente que o governo venezuelano não descansará no esforço para manter a paz e plenas garantias para todos os cidadãos”.

Os cinco patetas que dividem o fiasco do Mercosul acabam de operar um milagre e tanto. Pela primeira vez, uma declaração conjunta foi aprovada sem que se perdesse tempo com reuniões, debates, sugestões de acréscimos, propostas de cortes e outras miudezas.

Pela primeira vez, um documento que traduz o ponto de vista de um punhado de países foi divulgado sem rubricas nem assinaturas. Pela primeira vez, continuam no baú dos segredos de Estado o nome do redator, a identidade dos envolvidos nos trabalhos de parto e o local de nascimento da peça histórica.

A gestação do texto reforça a suspeita de que o Mercosul caiu na clandestinidade e resolveu agir nas sombras. Pelo prontuário dos parceiros, ninguém ficará surpreso se a entidade engrossar a lista das organizações criminosas.

 

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VENEZUELA: Manifestantes acusam mascarados baderneiros de estarem a serviço do chavismo

31/01/2014

às 17:38 \ Vasto Mundo

A destruição da Argentina

Novo ministro da Economia de Cristina Kirchner, Alex Kicillof, preserva o costume de atacar os empresários, em vez de se ocupar com as causas da inflação (Foto: Reuters)

O novo ministro da Economia de Cristina Kirchner, Alex Kicillof, preserva o costume de atacar os empresários, em vez de se ocupar com as causas da inflação (Foto: Reuters)

Editorial publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo

A DESTRUIÇÃO DA ARGENTINA

Devastada de tempos em tempos por algum governo incompetente e populista, a economia argentina mais uma vez se esboroa, com inflação em disparada, problemas de abastecimento, produção estagnada, reservas cambiais quase no fim e quase nenhum acesso – ou nenhum, mesmo – ao financiamento internacional.

Nem originalidade se pode atribuir à presidente Cristina Kirchner e ao bando de ineptos ao seu redor, pelo menos quanto aos erros.

Há pouca novidade nos principais disparates cometidos em dois mandatos consecutivos.

Mais de uma vez, nos últimos 40 anos, o governo argentino produziu o quase milagre de esvaziar as prateleiras num país conhecido como grande produtor e exportador de alimentos.

E mais de uma vez esse país está a um passo de um desastre cambial, embora os preços agrícolas tenham sido muito bons, no mercado internacional, nos últimos anos.

Irresponsabilidade monetária e fiscal, ingerência nos preços, barreiras à exportação e à importação, interferência no câmbio e conflitos com o setor agropecuário, de longe o mais produtivo da economia, são marcas de vários governantes argentinos.

Em relação a esses pontos, nenhuma inovação nos últimos anos.

Se os Kirchners tiveram alguma originalidade foi em outras linhas de ação.

O primeiro, Néstor, marido de Cristina, juntou-se ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, há uns dez anos, para criar uma estranha e desastrosa parceria entre Argentina e Brasil – uma aliança terceiro-mundista, naturalmente antiamericana e incompatível com qualquer projeto sério de inserção do Mercosul no mercado global. Essa parceria acabou favorecendo um crescente protecionismo do lado argentino, ruim para o Brasil, para as economias menores do bloco e para a indústria argentina, acomodada e cada vez menos competitiva.

Sucessora do marido, Cristina Kirchner manteve o padrão geral da gestão anterior, mas aperfeiçoou o estilo, adotando a falsificação de informações macroeconômicas, a começar pelo índice de inflação. Conseguiu para seu país, com isso, uma distinção pouco invejada e ainda mantida.

Prateleiras vazias em um supermercado de Buenos Aires, na Argentina. (Foto: Enrique Marcarian / Reuters)

Prateleiras vazias em um supermercado de Buenos Aires: tentar frear a inflação com controles e ameaças dá nisso  (Foto: Enrique Marcarian / Reuters)

Ao publicar os dados argentinos, o Fundo Monetário Internacional (FMI) passou a acrescentar às tabelas notas com ressalvas sobre a credibilidade dos números.

Desmoralizado internacionalmente e pressionado pelo FMI, o governo da presidente Cristina Kirchner comprometeu-se a mudar as estatísticas oficiais, atrasou-se, foi censurado e anunciou um novo prazo.

Se o novo indicador for melhor, as contas do crescimento econômico deverão ser mais confiáveis, porque o deflator aplicado aos valores será mais realista. Mas essa mudança ainda é promessa. Por enquanto, vale o velho roteiro.

Segundo o governo, os preços ao consumidor subiram 10,9% em 2013. Segundo fontes independentes, a inflação deve ter superado 28%. Além de produzir números sem credibilidade, o governo continua tentando frear a inflação por meio de controles de preços e ameaças. A escassez é consequência normal desse tipo de política.

Segundo o secretário de Comércio Interior, Augusto Costa, faltam quase 50% dos produtos em alguns supermercados. O antecessor de Costa, Guillermo Moreno, costumava impor limites de preços por meio de ameaças, o mesmo recurso usado, com frequência, para proibir importações, principalmente de produtos brasileiros.

Moreno deixou o governo, mas a ingerência nos preços e o protecionismo foram mantidos. Também houve mudança no Ministério da Economia. O novo responsável, Alex Kicillof, preserva o costume de atacar os empresários, em vez de se ocupar com as causas da inflação.

Se empresários mal-intencionados causam a inflação, especuladores inimigos devem ser culpados pelos problemas cambiais. A desvalorização do peso nos últimos dias foi atribuída pelo chefe do Gabinete de Ministros, Jorge Capitanich, a interessados em quebrar o país para “ficar com seus recursos energéticos e naturais a preço de liquidação”.

Também o governo brasileiro tem usado esse discurso: a inflação e a crise da indústria são importadas. Se a culpa é dos outros, nada há para corrigir.

 

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ARGENTINA: A mentira da inflação oficial e outros contos-do-vigário do governo Cristina Kirchner

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A FALTA QUE FAZ A LIBERDADE DE IMPRENSA: reportagem crítica de VEJA ao governo Cristina Kirchner cai na web e milhares de leitores argentinos visitam o blog — para concordar com o que publicamos

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29/01/2014

às 16:00 \ Política & Cia

J.R. GUZZO: “Não fui eu”

"A presidente Dilma daria um enorme passo adiante se deixasse entrar na própria cabeça a ideia de que um fracasso é apenas um fato, e não um julgamento moral" (Foto: Dida Sampaio / AE)

“A presidente Dilma daria um enorme passo adiante se deixasse entrar na própria cabeça a ideia de que um fracasso é apenas um fato, e não um julgamento moral” (Foto: Dida Sampaio / AE)

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

NÃO FUI EU

J. R. GuzzoNada como o fracasso para trazer à luz do sol alguns dos defeitos mais desagradáveis que o ser humano esconde nos subúrbios distantes da sua alma.

Diz-me como lidas com teus fracassos, e eu te direi quem és — eis aí o resumo da ópera, numa adaptação do velho provérbio sobre as más companhias. De fato, é quando as coisas complicam que fica mais fácil dividir o bom do mau caráter.

Personalidades construídas com material de primeira qualidade sabem que o fracasso, em si, não é fatal; é apenas o resultado dos erros de julgamento de todos os dias, e, portanto, deve ser enfrentado com a disposição de fazer mudanças, adquirir mais conhecimento, ouvir mais gente e assim por diante.

Mas sabem, também, que o fracasso pode ser um pecado mortal quando o seu autor não admite que fracassou, ou nega que tenha havido realmente um fracasso, ou, pior que tudo, põe a culpa do fracasso nos outros. Seu mandamento principal é uma frase muito ouvida nas salas de aula infantis: “Não fui eu”. São pessoas fáceis de encontrar. Um dos seus habitats é o governo.

A presidente Dilma Rousseff, por exemplo, não perde nenhuma oportunidade de dizer “não fui eu”. O ano de 2013, para ir direto ao assunto, foi uma droga. O PIB cresceu abaixo de 2,5% — quase metade do que o governo tinha prometido no começo do ano.

O saldo da balança comercial teve o pior resultado desde 2000, com uma queda de quase 90% em relação a 2012. Num tipo de molecagem contábil cada vez mais comum, registrou-se como “exportação” a venda de equipamento que nunca saiu do território nacional.

Em dólar, mesmo, não entrou um centavo no Brasil. Mas no papelório oficial consta o ingresso de quase 8 bilhões, sem os quais, aliás, teria havido déficit na balança de 2013. Outros truques parecidos fazem do Brasil um aluno promissor da Escola de Contabilidade Cristina Kirchner.

Pela primeira vez em dez anos, caíram as vendas de carros. O contribuinte pagou 1,7 trilhão de reais em impostos — a maior soma de todos os tempos. Os brasileiros gastaram cerca de 25 bilhões de dólares no exterior, quatro vezes mais do que os estrangeiros gastaram aqui — e qual a surpresa, quando ficou mais barato comprar um enxoval em Miami do que em Botucatu?

A maior empresa do Brasil, a Petrobras, teve um desempenho calamitoso: em apenas um ano, de 2012 a 2013, foram destruídos 40 bilhões de reais do seu valor de mercado. O Brasil (que Lula, em 2006, proclamou “autônomo” em petróleo, e já pronto para “entrar na Opep”) importou 40 bilhões de dólares em petróleo e derivados em 2013.

A presidente, cada vez mais, dá a a impressão de estar passeando num outro planeta. Segundo Dilma, 2013 até que foi um ano bem bonzinho, e o que pode ter acontecido de ruim não foi culpa dela, e sim da “guerra psicológica” que teria sofrido.

Foram condenados, também, os “nervosinhos” — gente que, segundo o ministro Guido Mantega, fez cálculos pessimistas para as contas públicas de 2013. Veio, então, com uns miseráveis decimais acima das tais previsões — que, de qualquer forma, ficaram muito abaixo da meta prometida. Os juros foram a 10,5% ao ano, a inflação voltou a roncar e o Brasil pode perder o seu sagrado “grau de investimento” em 2014.

A estratégia econômica resume-se hoje a repetir a ladainha de sempre sobre o desemprego de “apenas 4,6%”, que na verdade parece ser de 7%, e o aumento de renda que levou “milhões de brasileiros” a sair da miséria e subir à “classe média”.

Chega a ser piada de humor negro misturar dados de desemprego no Brasil e em países do Primeiro Mundo, para vender a ilusão de que “estamos melhor que eles”. O que adianta isso, quando o abismo entre nosso bem-estar e o do mundo desenvolvido continua igual?

Da “subida social” dos brasileiros, então, é melhor nem falar. Falaro quê, quando o governo decidiu que faz parte da classe média todo cidadão que ganha de 291 reais por mês a 1019? A presidente quer que acreditemos no seguinte disparate: a pessoa entra na classe média se ganhar menos da metade do salário mínimo por mês; se ganhar 1020 reais, já fica rica.

A presidente Dilma daria um enorme passo adiante se deixasse entrar na própria cabeça a ideia de que um fracasso é apenas um fato, e não um julgamento moral. Ninguém se torna um ser humano melhor porque acerta, ou pior porque erra.

Mas no Brasil o que vale não é enfrentar o fracasso lutando pelo sucesso. Melancolicamente, o que funciona é negar a derrota e chamar a marquetagem para dar um jeito nas coisas. O resultado são anos como 2013.

03/01/2014

às 14:08 \ Vasto Mundo

Ilhas Malvinas/Falkland: Argentina desrespeita vontade esmagadora dos habitantes de continuarem sendo britânicos, expressa em referendo. O que quer o governo de Cristina? Outra guerra — para perder de novo?

Cidadãos das Malvinas/Falkland comemoram o resultado do referendo que os mantêm como cidadãos britânicos (Foto: Reuters)

Publicado em 12 de março de 2013

campeões de audiência 02Já era esperada, mas ainda assim não tem cabimento a reação do governo argentino ao referendo absolutamente livre realizado entre os habitantes das Ilhas Malvinas — ou Falkland, segundo os britânicos — para saber se eles eram ou não a favor de continuar sendo território ultramarino britânico.

Nada menos do que 99,8% dos eleitores votaram por manter a cidadania britânica. No total, 92% dos 1.672 habitantes aptos a votar participaram do referendo. Apenas três pessoas votaram contra.

O percentual parece o resultado daquelas eleições fajutas outrora realizadas por ditaduras árabes e africanas, em que sempre o ditador de plantão obtinha 99%, no mínimo, dos votos, mas, diferentemente delas, foi um exato espelho do que desejam os kelpers, habitantes das Malvinas/Falkland, em grande maioria descendentes de ingleses e escoceses, e, em pequeno percentual, de chilenos.

Embora não se conheça outra forma melhor, mais democrática e mais pacífica de resolver a quem pertence determinado pedaço de território do mundo que não seja consultando seus habitantes, o governo encrenqueiro da presidente Cristina Kirchner deu um jeito de descartar a manifestação dos moradores antes mesmo do anúncio oficial do referendo.

Considerou-o uma “tentativa britânica de manipular” e reiterou que “não acabará com a disputa pela soberania”.

A embaixadora argentina em Londres, Alicia Castro, qualificou o referendo de “uma manobra sem nenhum valor legal, pois não foi convocado nem supervisionado pelas Nações Unidas”.

Manipular, como, cara-pálida? Qualquer visitante das Falkland/Malvinas sabem que seus habitantes querem ver o governo argentino tão longe quanto possível. A consulta popular foi livre, correta e acompanhada por observadores internacionais, alguns deles latino-americanos.

Quanto a ser uma “manobra” sem “nenhum valor legal”, é evidente que a Grã-Bretanha não poderia pedir à ONU que interviesse em sua soberania e organizasse um referendo num território que é seu há 180 anos. Por acaso será a ONU a responsável pelo plebiscito que, no ano que vem, decidirá se a Escócia prosseguirá ou não sendo parte do Reino Unido?

O primeiro-ministro David Cameron, como é lógico, reagiu satisfeito ao resultado, dizendo que “os habitantes das Falklands não podiam falar de maneira mais clara. Querem continuar sendo britânicos e todo o mundo, incluindo a Argentina, deveria respeitar este ponto de vista”.

Diante do falar grosso que já levou a Argentina a uma derrota esmagadora na guerra de 1982 contra o Reino Unido, Cameron lembrou: “As Ilhas Falkland podem estar a milhares de milhas de distância, mas são britânicas até a medula e isto é o que desejam continuar sendo. As pessoas têm de saber que sempre estaremos aqui para defendê-las”.

Situadas a pouco mais de 400 quilômetros das costas argentinas e a 12.700 quilômetros de Londres, as Malvinas/Falkland eram inicialmente desabitadas e já foram reivindicadas por cinco diferentes países. Estão sob controle britânico desde 1833. A Argentina só teve soberania sobre as ilhas durante três anos.

Leia também: Governador das Malvinas responde à provocação argentina

Saiba mais: Malvinas serão nossas em 20 anos, diz chanceler argentino

Logística - O referendo, que ocorreu em um inóspito território de 12.000 quilômetros quadrados, foi um desafio logístico. Cerca de 80% dos 2.563 residentes do arquipélago vivem na capital Port Stanley, mas muitas centenas habitam zonas distantes, em áreas criadoras de ovelhas ou vilarejos remotos.

Para que todos votassem, foram abertos quatro colégios eleitorais fixos (um em Stanley e outros três em vilas) e urnas foram levadas pelas ilhas de avião ou em veículos com tração nas quatro rodas. Observadores internacionais, alguns deles da América do Sul, acompanharam a votação.

O governo argentino disse claramente que o referendo não encerra questão alguma sobre as Malvinas/Falkland e que “em 20 anos” as ilhas deixarão de ser britânicas. Será que pensam em uma nova guerra — para perder de novo?

 

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