‘Subversive Memories’ é game de terror retrô com memórias da ditadura militar
Jogo brasileiro inspirado em Resident Evil transforma obras de domínio público em história sobrenatural durante ditadura militar no Brasil
Com o crescimento e maturidade do universo de desenvolvimento de jogos no Brasil, é natural ver produções cada vez mais caprichadas, complexas e maduras.
Nos últimos tempos, temos visto obras que abraçam capítulos delicados da história do país, como Hell Clock, que usa como inspiração a Guerra de Canudos, e também o impactante Subversive Memories, lançado em abril, que tem o período da ditadura militar como cenário para um jogo de terror que presta homenagem aos primeiros episódios de Resident Evil.
Desenvolvido ao longo de 3 anos por Akira Ribeiro, desenvolvedor solo da Southward Studio e com suportes pontuais na trilha sonora e programação, o game mescla elementos sobrenaturais com temas sensíveis e representações da violência do período de ditadura militar no Brasil.
“A ideia dos elementos sobrenaturais veio enquanto eu jogava outros jogos de survival horror”, conta Akira. “A maior parte desses jogos utiliza documentos e cartas para explicar o que aconteceu com os personagens, mas considerando que a maior parte dos documentos sobre a ditadura foram apagados, queimados ou sequer registrados, achei que trazer ‘espíritos’ seria uma forma mais interessante e coerente com a proposta do jogo”.
A trama apresenta Renata, uma moça criada pelos avós que investiga sobre o passado da família e isso a leva até uma base abandonada com documentos secretos e uma pesquisa com mistérios que vão além da compreensão. Na prática, o elemento sobrenatural permite à garota ver as memórias de pessoas que se foram, uma forma elegante de destacar e criticar a ausência de registros oficiais de muito do que aconteceu durante a ditadura no Brasil.
Subversive Memories acerta muito também ao utilizar obras de domínio público para reforçar a conexão da história com eventos reais, incluindo fotos, músicas e notavelmente cartas de jogo do bicho, um dos itens colecionáveis do game.
Akira explica que a maior parte da pesquisa para o projeto foi feita online. “Durante praticamente todo o desenvolvimento do jogo eu estava morando no Japão, então precisei acessar acervos de museus e memoriais, foram muitas horas lendo e assistindo vídeos de depoimentos de vítimas”, explica ele.
“Em geral, eu não buscava por obras em domínio público, mas durante as pesquisas eu simplesmente me deparava com elas e sentia que seria legal encaixar de alguma forma no jogo. Foi assim com as cartas do jogo do bicho, eu não tinha pensado em usar elas, mas depois que as encontrei no acervo da Biblioteca Nacional, criei um motivo para adicioná-las no jogo”.
O título chama atenção pela estética retrô, um visual tridimensional rudimentar que remete ao estilo ‘low poly’ da época do primeiro PlayStation, quando os videogames ainda começavam a aprender a usar gráficos 3D. Tudo não passou de um feliz acidente por conta de limitações técnicas, como explica o produtor do jogo: “Não sou bom em modelar 3D e nem pixel art, mas quando os gráficos low poly recebem o filtro pixelado por cima, o efeito fica bem interessante. O fato de parecer com o PS1 foi praticamente acidental”.
As semelhanças não ficam só na parte visual, já que a experiência de jogar o game lembra bastante games de terror do final dos anos 90, como os primeiros Resident Evil e Silent Hill. Os movimentos lentos geram tensão e há vários quebra-cabeças que envolvem encontrar chaves para abrir portas e códigos de cofres pelo cenário. A jornada é curta, leva de 3 a 4 horas para terminar, mas oferece ao menos três finais diferentes com base no tanto que você explorar todo o ambiente da história.
Subversive Memories já está disponível totalmente em português para PC.







