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As dificuldades do revolucionário modelo da Boeing

Falhas no programa de computador do 737 Max teriam adiado entregas da aeronave – a companhia nega o problema e diz não haver risco para a segurança dos voos

Por André Sollitto Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 19 abr 2023, 18h15 - Publicado em 14 abr 2023, 06h00

Atualizada em 19 de abril com o posicionamento da Boeing.

Poucas atividades econômicas, talvez nenhuma, dependem tanto da confiança da sociedade quanto a aviação comercial. Lançado em 2017, o Boeing 737 Max passou por dramática crise de reputação apenas um ano depois de estrear nos ares do mundo. Em um intervalo de cinco meses, duas quedas do 737 Max mataram 189 pessoas na Indonésia (em outubro de 2018) e 157 na Etiópia (em março de 2019), e puseram em xeque o próprio futuro da aeronave. Na ocasião, as investigações concluíram que as tragédias foram provocadas por falhas em um software que controla sistemas de estabilidade em determinadas manobras, e o novo Boeing foi proibido de voar até que se comprovasse a sua segurança. Em 2019, a companhia perdeu a liderança do mercado aéreo para a rival Airbus, encomendas foram canceladas e os prejuízos financeiros inevitavelmente vieram. Depois de exaustivos ajustes e uma infinidade de testes, a partir do fim de 2020 as autoridades liberaram a decolagem do 737 Max, e a Boeing parecia, enfim, desfrutar de céu de brigadeiro. Agora, contudo, novas falhas em outro sistema eletrônico podem abalar novamente a confiança na empresa

TRAGÉDIA - Vítimas dos acidentes: duas quedas com diferença de cinco meses
TRAGÉDIA - Vítimas dos acidentes: duas quedas com diferença de cinco meses (Olivier Douliery/AFP)

Um relatório divulgado pelos portais especializados em aviação Airfinance Journal e Leeham News revelou que o processo de configuração dos computadores da aeronave apresentou defeitos, especialmente a operação conhecida como Option Selection Software (OSS). A Boeing classificou o episódio como um problema de documentação — seria algo rotineiro e relativamente comum em produtos tão sofisticados do ponto de vista tecnológico quanto um avião. Contudo, para a Administração Federal de Aviação (FAA), a autoridade regulatória americana, o defeito é considerado, sim, uma falha de segurança e todos os protocolos precisam ser imediatamente revistos. Ao contrário das falhas que originaram as quedas em 2018 e 2019, desta vez o avião não deixará de voar, mas é possível que as entregas de algumas encomendas sejam adiadas. De todo modo, a verdade é que se trata de mais um ponto de interrogação na trajetória turbulenta da aeronave.

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Depois das nuvens carregadas, a Boeing parecia ter encontrado, especialmente em 2023, horizontes mais azuis. No início de abril, Stan Deal, chefe comercial da empresa, disse que até o meio do ano a fabricante deverá produzir 38 aeronaves da família 737 por mês, um recorde desde que o modelo Max foi lançado. A notícia, claro, é positiva para as companhias aéreas que aguardam na fila para receber seus aviões. É o caso da brasileira Gol, que espera fechar o ano com 53 Boeings 737 Max em sua frota. Antes dos acidentes, o modelo era considerado revolucionário. Econômico em termos de consumo de combustível e com grande capacidade de carga, ele oferece para as companhias aéreas a possibilidade de melhorar as suas apertadas margens financeiras. De fato, parecia um caminho promissor, mas os acidentes produziram turbulência inesperada.

NA FÁBRICA - Linha de produção do 737 Max nos EUA: projeto apressado
NA FÁBRICA - Linha de produção do 737 Max nos EUA: projeto apressado (Matthew B. Thompson/Boeing/.)

Afinal, o que teria ocorrido com a Boeing, a centenária e mais relevante fabricante de aviões da história? “A trajetória do Max é reflexo de uma empresa que optou por dar mais voz ao pessoal que controla o dinheiro do que aquele que controla a produção”, afirma o consultor aeronáutico Gianfranco Beting, um dos executivos responsáveis por trazer a companhia aérea Azul para o Brasil. “Os problemas são resultado de uma mudança de cultura em que o lucro vem antes de fazer o que é certo.” Como se sabe, a estratégia não funcionou. Alguns especialistas dizem que o 737 Max foi concebido de forma apressada, justamente para atender a interesses comerciais, o que levou a problemas técnicos que poderiam ter sido resolvidos previamente. Agora, a empresa enfrenta turbulências financeiras. Em 2022, seu prejuízo totalizou 5,1 bilhões de dólares — foi o quarto ano consecutivo em que a empresa fechou o balanço no vermelho. Enquanto o gigante não recuperar plenamente a confiança do mercado, números como esses poderão se repetir.

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A Boeing divulgou o seguinte posicionamento:

A falha mencionada no relatório publicado pelos portais Airfinance Journal e Leeham News não afeta o cronograma das entregas de aeronaves da Boeing e não tem impacto em nossas perspectivas de entrega.”

“Vale reforçar que este problema não é “novo”, mas sim parte de uma atividade de conformidade de processos que foi encerrada pela Boeing há vários meses. Também não se trata de um problema da aeronave e, para solucioná-lo, não é necessário reescrever o software. Após análises, foi determinado que este não é um problema de segurança da aeronave”.

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Publicado em VEJA de 19 de abril de 2023, edição nº 2837

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