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Engenheiros do futuro

Atentos à transformação da indústria automotiva, brasileiros já se formam para novas ocupações — como a de engenheiro de carro autônomo

O carro autônomo já é uma realidade. Nas ruas de Phoenix, nos Estados Unidos, os moradores só andam em veículos tradicionais se assim desejam. Há uma frota de táxis guiados por robôs, que desde dezembro último podem ser acionados pelos habitantes da cidade por meio de um aplicativo. O pioneirismo coube à Waymo, que nasceu como um projeto do Google e hoje opera de forma independente. Entre empresas líderes em tecnologia e grandes montadoras de automóveis, passando por fornecedoras de componentes e startups, há um ecossistema efervescente prestes a mudar o modo como as pessoas se locomovem em todo o mundo. Empresas de recrutamento no exterior oferecem milhares de vagas no setor, de engenheiros de carro autônomo a programadores e desenvolvedores de sistemas de navegação, radares e sensores. É um mercado em ascensão, e há uma geração de brasileiros pronta para aproveitar a onda: 31 deles se graduaram como engenheiros de carro autônomo na Udacity, a universidade do Vale do Silício fundada pelo alemão Sebastian Thrun (leia a entrevista abaixo), criador do Google X, o laboratório de pesquisa do gigante digital. Thrun foi também o pai do projeto do veículo sem motorista da empresa, esse mesmo que circula pelas ruas de Phoenix. Graças a ele, 2 400 profissionais já se formaram pela Udacity com a missão de continuar seu legado.

É isso mesmo que esses jovens brasileiros querem. A maioria atuava na área de engenharia, mas queria dar um passo além. É o caso de Fernando Damasio, de 35 anos, que fundou no Vale do Silício a Data Riders, uma startup que coleta dados por meio de sensores instalados em veículos convencionais em diversos países. As informações são utilizadas para o desenvolvimento dos carros autônomos, para prever eventos como o comportamento de pedestres e animais. Hoje ele comanda a Skoods, uma empresa que desenvolve carros de corrida autônomos. “Os profissionais do futuro precisarão ter capacidade de rápida adaptação ou ficarão à margem da transformação digi­tal”, diz Damasio, que é engenheiro de controle e automação e estudou machine learning (aprendizado da máquina, ramo da inteligência artificial) antes de decidir fazer o curso de engenharia de carro autônomo. Outro exemplo é o de Alexandre Nogueira, que mora em Estocolmo. Engenheiro da computação, ele também fez o curso da Udacity e trabalha na sueca Ericsson, onde desenvolve novos negócios automotivos utilizando a “internet das coisas”, tecnologia que permite a transmissão de dados em tempo real a partir dos veículos.

Há mercado para esses profissionais também no Brasil. Rafael Barreto Lopes, de 30 anos, engenheiro eletricista, conseguiu dar um salto na carreira depois de diplomar-se na Udacity. “Queria mudar de área e decidi fazer um curso voltado para o futuro que fosse relacionado com projetos e tivesse aplicação prática”, conta. Hoje ele atua como pesquisador no Senai Cimatec, em Salvador, e desenvolve robôs autônomos para uso em plataformas marítimas na indústria de petróleo e gás natural. Raphael Sousa, de 32 anos, por sua vez, criou um grupo de robótica para alunos do ensino médio em sua cidade natal, Cajazeiras, na Paraíba. Para isso, contou com o apoio da americana Nvidia, uma das empresas que lideram o desenvolvimento de inteligência artificial no mundo, para montar um protótipo de um minicarro autônomo. São histórias que começam a ficar mais frequentes em todo o país.

NA FRENTE – Táxi da Waymo em Phoenix, nos Estados Unidos: o primeiro projeto de carro autônomo em escala comercial

NA FRENTE – Táxi da Waymo em Phoenix, nos Estados Unidos: o primeiro projeto de carro autônomo em escala comercial (//Divulgação)

As perspectivas promissoras do mercado de trabalho voltado para o carro autônomo contrastam com as notícias cada vez mais recorrentes de redução do quadro de empregados na indústria automotiva tradicional, que muitas vezes prefere pedir subsídios ao governo a modernizar-se. O fechamento de postos nas montadoras é um fenômeno que não guarda relação só com crises econômicas, como era a regra. No fim do ano passado, a presidente mundial da GM, a americana Mary Barra, deu um choque de realidade no setor ao anunciar a demissão de 14 700 trabalhadores nos Estados Unidos, dos quais 6 000 operários de fábricas. É a nova era da tecnologia automotiva pedindo passagem. Os cortes de custos vão criar condições para que a empresa possa dobrar os investimentos no desenvolvimento de carros elétricos e autônomos nos próximos anos.

A nova era, diga-se, não vem de uma vez só. A tecnologia autônoma é avaliada em uma escala que vai de 1 a 5. No primeiro nível estão modelos disponíveis aos motoristas há pelo menos duas décadas, que permitem, por exemplo, que um carro mantenha a velocidade sem que se acionem os pedais. No nível 2 estão automóveis com direção semiautônoma: a aceleração, a frenagem e a manutenção do carro na faixa são controladas por computador, mas é exigida a presença atenta de um motorista. Veículos que trafegam sem a interferência humana em condições controladas, como em uma estrada (sem pedestres nem sinais de trânsito), encontram-se na terceira escala. É uma tecnologia ainda restrita a poucos modelos, caros e luxuosos. O quarto degrau é aquele em que os automóveis circulam de forma independente em perímetros previamente mapeados. Os testes realizados pela Waymo e pelo Uber em ruas e rodovias americanas correspondem a esse estágio. “O carro autônomo aprofunda uma tendência que já estava em curso nessa indústria: as peças mecânicas perdem espaço para componentes elétricos, eletrônicos e softwares, com maior valor agregado. O perfil do profissional para desenvolvê-los acompanha essa mudança”, diz Björn Hagemann, sócio da consultoria McKinsey. Finalmente, os veículos totalmente autônomos representam o quinto e último nível, que as empresas prometem concretizar já em 2020.

Na visão de Thrun, as empresas ainda não conseguem capacitar seus profissionais para desenvolver carros autônomos, uma tecnologia que exige habilidades específicas. Ao menos não na velocidade necessária. São habilidades como técnicas de visão computacional, que possibilitam a criação de sistemas para a detecção de faixas de trânsito e a compreensão de placas e sinalizações. A partir dessa lacuna, ele decidiu montar a graduação on-­line de curta duração (chamada de nanodegree, em inglês) a distância, em parceria com empresas que estão na corrida para entregar o automóvel autônomo de nível 5, caso do Uber, da Mercedes e da Nvidia. “É um assunto muito novo no qual as pessoas em geral só começaram a prestar atenção nos últimos três anos. Os profissionais não conseguem se mexer tão rapidamente”, afirma. Mas isso está mudando. Os 31 brasileiros formados na Udacity são uma prova de que há gente atenta para este admirável mundo novo. De fato, o conhecimento para as carreiras do futuro está cada vez mais ao alcance de quem vai atrás.


“A educação é essencial”

VISIONÁRIO – Thrun, da Udacity: a meta é democratizar o ensino de tecnologia

VISIONÁRIO – Thrun, da Udacity: a meta é democratizar o ensino de tecnologia (David Paul Morris/Bloomberg/Getty Images)

O alemão Sebastian Thrun, de 51 anos, é um dos empreendedores mais criativos do mundo. Ele fundou o Google X, o braço de pesquisas do gigante de tecnologia, no qual comandou projetos como o carro autô­nomo e o Google Glass. Em 2011, criou a Udacity, uma universidade com sede no Vale do Silício dedicada a cursos on-line de curta duração e disponíveis em diversos países. As chamadas nanograduações versam sobre temas como engenharia de carro autônomo e inteligência artificial. Atualmente, há mais de 50 000 alunos ao redor do mundo. Thrun, que também comanda a Kitty Hawk, empresa que promete um serviço de táxi aéreo autônomo, falou a VEJA por telefone.

Como o senhor se deu conta de que havia a necessidade de criar um curso de engenharia voltado para o carro autônomo? Quando trabalhei no Google e na Waymo, percebi que há um conjunto de habilidades específicas necessárias para que a produção do carro autônomo seja possível. Mas elas não estavam disponíveis para quem quisesse aprendê-las. Então pensei que, se nós ensinássemos essas habilidades, poderíamos mudar o mundo muito mais rapidamente, tornando-o mais seguro.

Que conselhos o senhor dá a quem deseja fazer carreira nessa área? Existem muitas pequenas companhias e startups que podem iniciar quem deseja trabalhar nesse campo. Abra sua empresa e adquira o conhecimento que pode ser necessário para as grandes companhias em algum momento. Mas, obviamente, o primeiro passo é fazer o curso para aprender as habilidades específicas. A educação é absolutamente essencial para qualquer país e qualquer pessoa que queira mudar e melhorar.

O que falta para que o carro autônomo esteja disponível para o grande público? A tecnologia está pronta. As melhores empresas já dispõem de sistemas de direção equiparáveis às habilidades de um motorista humano e, em breve, eles serão superiores. Tudo se tornará, portanto, uma questão de viabilidade econômica: quem vai produzir um número suficiente de veículos, entregá-los e ganhar dinheiro com isso.

A Udacity também oferece o curso de engenheiro de voo autônomo. Quais as perspectivas para esse segmento?  Carros voadores são um tema mais recente, pelo qual eu prevejo que haverá enorme interesse industrial. O Google, a Amazon e outras empresas já possuem equipes dedicadas à entrega de encomendas com o uso de drones. Trata-se de habilidades distintas das exigidas para o carro autônomo, que precisa evitar obstáculos nas ruas, como pedestres e ciclistas. Com os carros voadores isso não é necessário, mas há a preocupação com o vento e com a manutenção do controle do veículo, algo mais difícil. Minha outra companhia, a Kitty Hawk, já está se preparando para fazer o serviço de táxi aéreo autônomo, mas vai levar um tempo antes que as pessoas possam usá-lo.

Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2019, edição nº 2619

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