Uma nova picada para emagrecer? Serpente pode conter receita para futuras canetas
Não seria a primeira vez que animais inspiram o tratamento da obesidade. A família do Ozempic tem suas origens na molécula de um lagarto
A história das canetas emagrecedoras passa por um animal que chega a comer menos de cinco vezes por ano e vive entre o sul dos Estados Unidos e o norte do México. A descoberta de uma molécula presente no veneno do monstro-de-gila, um lagarto com cerca de 50 centímetros de comprimento e pouco mais de meio quilo, foi decisiva para o desenvolvimento dos medicamentos análogos de GLP-1, classe da qual fazem parte Ozempic, Wegovy e, com um extra na fórmula, o Mounjaro.
Agora, pesquisadores americanos compartilham seus achados sobre outra substância com potencial de aumentar a saciedade e induzir a perda de peso. E ela vem de uma espécie de píton, uma serpente robusta que faz grandes refeições após longos períodos em jejum. O “ozempíton”, como brincaram por aí, ainda está longe de virar realidade na farmácia. Mas há precedente graças à engenhosidade humana – e a da natureza.
O segredo da píton
Antes de chegarmos nela, convém recapitular a contribuição do monstro-de-gila para o tratamento da obesidade. Cientistas já estudavam o papel do GLP-1, um hormônio produzido pelo nosso intestino, no equilíbrio dos níveis de glicose no sangue e na redução da fome. A questão é que o efeito dessa molécula dura pouco, questão de minutos.
Intrigados com o jejum extremo do lagarto que mora em regiões desérticas da América do Norte, nos anos 1990 pesquisadores identificaram em seu veneno algo especial. É ali que se encontrava uma substância de efeito parecido com o GLP-1 humano, mas de longa duração, a exentina-4.
Após estudos em laboratório, ela foi patenteada e ajudou a dar origem a uma primeira geração de análogos de GLP-1 depois testados em seres humanos para domar a glicemia e o peso. Foi o início de uma história que desembocaria em remédios como a liraglutida (das canetas de aplicação diária), a semaglutida (a versão semanal) e companhia.
Desta vez o centro das atenções é a píton birmanesa (Python molurus bivittatus), uma serpente de berço asiático que chega a medir mais de 5 metros e pesar ao redor de 100 kg. É mais um exemplo de réptil que, depois de se banquetear com mamíferos, aves e outros animais, fica dias sem comer.
De olho nessa habilidade metabólica, uma equipe conjunta das universidades Stanford e do Colorado, nos Estados Unidos, decidiu investigar o poder de uma molécula extraída da píton – não de seu veneno, pois não se trata de espécie peçonhenta – no metabolismo de um mamífero.
Para isso, eles recrutaram camundongos, tanto no peso ideal como obesos, e administraram neles a molécula de interesse, conhecida pela sigla pTOS. Na comparação com os animais que não foram submetidos à intervenção, aqueles que ganharam sua dose de pTOS perderam 9% do peso corporal após 28 dias.
Na análise, os especialistas observaram que a molécula tem uma atuação no hipotálamo, a região do cérebro responsável pelo balanço energético e que também é alvo dos análogos de GLP-1 – motivo pelo qual eles inclusive têm efeitos expressivos na redução do apetite e do peso.
Os autores da pesquisa, publicada na revista científica Nature Metabolism, também apuraram a presença dessa substância, um metabólito oriundo do processamento de proteínas pelo fígado e o intestino, em amostras de sangue humano. Tudo indica que, embora possam detectá-la ali, os níveis fisiológicos seriam insuficientes para ter uma resposta significativa no cérebro.
Foi por isso que o pTOS das pítons se destacou. Nos experimentos, além de fazer os ratinhos emagrecerem, a substância não demonstrou efeitos colaterais expressivos.
O estudo abre caminho a uma linha de pesquisa que deve durar alguns anos até se materializar em medicamento. Isso, claro, se chegar lá. Lembremos que a maioria das drogas experimentais não consegue vencer todas as provas científicas e virar um remédio seguro e eficaz para uso humano.
Mas o time americano está empolgado e inclusive montou uma startup para tentar acelerar os trabalhos. Quem sabe a píton birmanesa não estará um dia ao lado do monstro-de-gila no panteão dos animais que prestaram contribuições à medicina?





