Retatrutida: o ‘Godzilla do emagrecimento’ que dribla as autoridades e chega antes da versão oficial
Eis um exemplo de que a medicina baseada em faturamento pode ser mais rápida que a ciência. E isso é um problema criminoso de saúde pública, diz especialista
Há sempre um novo nome circulando nas redes sociais e em clínicas de obesidade, embalado por luzes, palcos e a palavra que seduz plateias: “Revolução”. A bola da vez atende por retatrutida. Já ganhou até apelido grandioso: “Godzilla do emagrecimento”. Teve até evento no Paraguai esquentando os motores com influenciadores (inclusive não médicos) para lançá-la no mercado.
Só que há um grande problema: a retatrutida ainda é uma medicação oficialmente em estudos. O produto original não passou por nenhuma agência regulatória no mundo nem foi aprovado para uso. Mas como ele está sendo oferecido por aí?
As mesmas pessoas e grupos que antes vendiam versões alternativas de semaglutida (Ozempic e Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro), soroterapias, peptídeos da moda e protocolos “exclusivos” perceberam que precisavam de um novo trunfo, de algo capaz de sustentar seu discurso de exclusividade e ter acesso secreto ao “código metabólico” de quem deseja emagrecer.
Quando a inovação vira rotina, é preciso anunciar a próxima promessa, ainda que ela sequer exista oficialmente no mercado. É nesse contexto que surge a retatrutida.
Do ponto de vista científico, trata-se de uma molécula sofisticada desenvolvida pela farmacêutica americana Eli Lilly: um agonista triplo que atua simultaneamente nos receptores de GLP-1, GIP e glucagon. O racional farmacológico é elegante: modular apetite, melhorar a sensibilidade à insulina e regular o gasto energético.
Nos estudos clínicos, os resultados são expressivos, com reduções médias de peso que se aproximam de 25% a 30% em protocolos bem conduzidos. É, sim, um candidato potencialmente transformador no tratamento da obesidade.
Mas há um dado incontornável: ainda está em investigação. Não possui registro sanitário em nenhum órgão regulatório do mundo – nem FDA, nem EMA, nem Anvisa, nem a autoridade sanitária paraguaia, que inclusive já esclareceu não haver autorização para comercialização do que andam anunciando em seu país.
Mesmo assim, já prospera um mercado paralelo no hiato entre o entusiasmo preliminar e a aprovação formal.
A estratégia é conhecida. Apropria-se da linguagem científica, veste-se de vanguarda e cria-se a sensação de privilégio: “Quem já está usando o que o mundo ainda nem viu”.
O palco inclui influencers, vídeos festivos e supostos lançamentos internacionais. A estética é moderna; a base regulatória, inexistente.
Enquanto isso, a ciência segue seu ritmo, menos glamouroso, porém inegociável. Exige segurança comprovada, desfechos clínicos consistentes, avaliação de risco-benefício em longo prazo? Moléculas que parecem brilhantes no início já falharam quando o acompanhamento se estendeu.
Há ainda um ponto central que a medicina baseada em faturamento evita enfatizar: obesidade é doença crônica. E doença crônica exige tratamento contínuo. Quando a terapia é interrompida, o reganho de peso ocorre, não por falha da ferramenta, mas porque a biologia não foi “curada”. A adaptação metabólica permanece. O organismo continua defendendo seu estoque energético.
A tirzepatida do Mounjaro, por exemplo, é uma ferramenta extraordinária quando bem indicada e acompanhada por profissionais sérios. Mas não é feitiço. Não elimina a natureza crônica da doença.
Parte das pessoas, contudo, não busca estratégia de longo prazo; busca solução imediata. E, quando percebe que o tratamento exige manutenção, supervisão e investimento, passa a desejar a próxima promessa.
É nesse vazio entre expectativa e realidade que floresce o oportunismo.
Antes mesmo de existir oficialmente, a retatrutida já é oferecida e comercializada em circuitos paralelos. O movimento não nasce do compromisso com inovação responsável, mas do lucro antecipado à evidência consolidada. Explora-se a esperança legítima de quem sofre com uma condição complexa e estigmatizada.
O ciclo é previsível: vende-se a expectativa, estimula-se a urgência, monetiza-se o desejo.
Criar mercado para algo não aprovado não é apenas temeroso. É ilegal. É crime. Não há garantia de procedência, transporte adequado, armazenamento correto ou autenticidade da substância. O paciente acredita estar adquirindo ciência de ponta; pode estar comprando risco bem embalado.
A verdadeira inovação não precisa de atalhos regulatórios nem de festas antecipadas de lançamento antes da autorização formal. Quando o mercado se apresenta como vanguarda antes do tempo, está apenas correndo atrás de faturamento, não de avanço científico nem de benefício real à saúde.
* Clayton Luiz Dornelles Macedo é endocrinologista, coordenador do Núcleo de Endocrinologia do Exercício da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEN)





