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O fenômeno da dieta cetogênica, a mais seguida pelos americanos

O cardápio da vez abole os carboidratos e manda consumir muita, mas muita gordura em todas as refeições

Por Bruna Motta - Atualizado em 14 fev 2020, 10h42 - Publicado em 14 fev 2020, 06h00

“De todos os males que afetam a humanidade, não conheço nem imagino nenhum mais angustiante do que a obesidade”, já dizia o britânico William Banting, dono de uma casa funerária em Londres, que, em 1863, publicou sua Carta sobre a Corpulência. Primeira dieta impressa de que se tem notícia, o regime que fez Banting deixar de ser obeso consistia, mais de 150 anos atrás, na substituição de pães, açúcar e batata por carne e hortaliças — a batida receita low-carb. De lá para cá, a demonização dos carboidratos foi ficando cada vez mais radical, até desembocar na dieta cetogênica, hoje a mais seguida nos Estados Unidos, que preconiza o consumo em grande escala de gordura, muita gordura.

A estrela mais fulgurante do universo cetogênico é a cantora Adele, que perdeu 45 quilos em seis meses e não para de postar fotos do corpo esbelto e posar com vestidos curtos e decotados. No Brasil, a dieta também é seguida e elogiada por famosos como o ator Bruno Gagliasso e a influenciadora fitness Gabriela Pugliesi (sendo que no caso deles, ao contrário do de Adele, o antes e o depois são quase iguais). Os três, e milhões de adeptos mundo afora, cumprem à risca a lei que determina que, das calorias consumidas em um dia, 70% venham de gorduras, 20% de proteínas e meros 10% de carboidratos. A conta das quantidades deve ser 7 gramas de gordura para cada 2 gramas de proteína e 1 grama de carboidrato.

O princípio por trás da dieta da moda é a cetose, nome do processo que transforma gordura em energia — em contraponto à glicose, parceira íntima dos famigerados carbs. A glicose é o “combustível” mais amplamente utilizado pelo corpo humano, mas, se a ingestão de carboidratos cai a quase nada, a cetose ocupa seu espaço. “O organismo entende que precisa produzir energia em forma de gordura”, explica o nutrólogo Felipe Manzano. Vantagens da troca: a queima de calorias é muito rápida, o nível reduzido de açúcar no sangue resulta em menor produção de insulina (o “hormônio da gordura”) e a sensação de saciedade dura mais tempo. Desvantagens: o cardápio é cansativo, a liberação pode levar ao consumo exagerado das gorduras saturadas, que causam problemas cardiovasculares e hepáticos, e a pessoa corta das refeições alimentos notoriamente saudáveis, como frutas e cereais integrais.

Reduzir a ingestão de carboidratos é parte inerente de qualquer dieta — foge-se tanto deles que o léxico ganhou um novo termo, “carbofobia”, e mesmo a apologia da gordura não é novidade (veja o quadro). A própria dieta cetogênica é citada nos registros médicos desde o início do século passado, quando se constataram seus benefícios no tratamento de crises epilépticas. Mas o recurso da cetose para emagrecer nunca teve tanto peso (com perdão do trocadilho) quanto agora, a ponto de, nos Estados Unidos, estarem em andamento mais de setenta pesquisas sobre os efeitos da dieta. O organismo demora uns quatro ou cinco dias para registrar a troca da glicose pela cetose como fonte de energia, mas, a partir daí, os efeitos aparecem rapidamente. O representante comercial Henrique Ferreira, de 44 anos, parou de se exercitar em 2015 e, em um ano, ganhou 50 quilos, chegando a 124. “Minhas taxas estavam todas desreguladas, e meu médico sugeriu a dieta. Em onze meses, perdi 36 quilos”, relata Ferreira, que hoje é vegetariano. Curiosamente, a personal trainer de Adele, a brasileira Camila Goodis, não é lá muito fã da cetogênica. “Toda dieta a ferro e fogo dá resultado, mas o importante mesmo é mudar os hábitos alimentares”, disse Camila a VEJA — ela atende uma legião de artistas em Los Angeles, onde mora, e confidencia que a cantora “não gosta muito de exercícios”.

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O cardápio típico da dieta cetogênica consiste de ovos, queijo, castanhas, folhas e vegetais com alto teor de proteína, como brócolis, couve-flor e espinafre — tudo nadando em azeite, manteiga, banha de porco ou óleo de coco. “Prisão de ventre é um efeito colateral comum, daí a importância dos vegetais”, alerta o nutrólogo Manzano. No quesito carnes, o alimento mais recomendado é salmão, peixe rico em gorduras do bem, mas bacon, presunto e costela também fazem sucesso nas refeições. O banimento dos cereais ricos em fibras é contraindicado a pessoas com histórico familiar de problemas cardiovasculares, e a dieta não fará bem àqueles que praticam futebol e corrida. “Eles dependem da glicose para ter um pique mais rápido”, explica o cardiologista Fabrício Braga. Isso posto, quem estiver acima do peso poderá, com cuidado e a supervisão de um nutricionista, empanturrar-se desta contradição em termos: gordura para combater a gordura.

Publicado em VEJA de 19 de fevereiro de 2020, edição nº 2674

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