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Mounjaro e retatrutida do Paraguai: os riscos de importar e tomar

Medicamentos injetáveis para perda de peso sem aval da Anvisa têm circulado no Brasil e versão ainda em teste chegou a ser apresentada em evento

Por Paula Felix Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 6 mar 2026, 18h00 • Atualizado em 6 mar 2026, 19h31
  • Com a febre das canetas contra obesidade à base de semaglutida (Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro), surgiram não só versões manipuladas, mas opções que alegam utilizar os mesmos princípios ativos — sem as garantias de segurança e eficácia dos produtos originais —. Os mais difundidos atualmente são o “Mounjaro do Paraguai” e a retatrutida, substância ainda em estudo e que não tem autorização de agências regulatórias para uso.

    Desde o ano passado, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem feito alertas e proibições relacionados a canetas injetáveis para o tratamento de obesidade importadas e comercializadas de forma indevida. Alguns dos produtos, inclusive, eram de empresas desconhecidas.

    Em novembro de 2025, a agência publicou uma série de resoluções determinando a proibição de importação, distribuição, comercialização, fabricação, propaganda e uso de medicamentos à base de agonistas do GLP-1, as canetas antiobesidade, que não têm registro no Brasil.

    Neste ano, em fevereiro, a Anvisa determinou a apreensão de produtos não registrados no Brasil e divulgou a lista com os nomes e dosagens das versões das canetas: Lipoless MD 15mg/Lipoless 15mg, 12,5mg e 10mg, Retatrutida 40mg, Tirzec 15mg/Tirzec pen 15mg, Lipoland 15mg e T.G 15mg e 10mg.

    A procura pelas canetas paraguaias que se apresentam como emagrecedoras tem relação não só com o desejo de perder peso de forma mais rápida do que com a adoção de exercícios e uma dieta saudável. O preço é um atrativo. Com base na média de preço disponível na internet, é possível estimar que o valor dessas opções corresponde a 25% a 44% do preço do medicamento original.

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    Riscos à saúde

    Os produtos sem registro no Brasil e sem procedência conhecida oferecem uma série de riscos à saúde. Sem passar pela análise da Anvisa, não é possível garantir a segurança e a eficácia dos remédios.

     

    Outro problema é o risco de contaminação, porque as condições de fabricação são desconhecidas, principalmente em produtos falsificados. Pode ocorrer ainda a presença de substâncias inadequadas ou em quantidade incorreta, levando a eventos adversos e resultados insatisfatórios.

    “De acordo com órgãos regulatórios internacionais, produtos falsificados ‘podem conter ingredientes errados, quantidade excessiva, insuficiente ou nenhuma substância ativa, ou ainda outros ingredientes nocivos’. Eles também podem ser produzidos em condições insalubres por entidades não regulamentadas, sem a habilidade ou treinamento adequados”, explica, em comunicado aos consumidores, a farmacêutica Eli Lilly, fabricante do Mounjaro.

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    O caso da retatrutida, molécula que também está sob a patente da Lilly, é mais grave. A substância ainda está em testes, embora tenha sido apresentada em um evento “paralelo” por laboratório paraguaio com a presença de celebridades e influenciadores brasileiros, o que configura uma situação irregular.

    Professor de Endocrinologia e Metabologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Alexandre Hohl alerta que os ritos científicos precisam ser seguidos antes que um remédio chegue à população e isso ainda não ocorreu com a retatrutida.

    “É uma medicação em estudo de fase 3 com uma grande probabilidade de ajudar pessoas com obesidade, diabetes e doença hepática metabólica, mas, para que isso se concretize, os estudos precisam ser finalizados e as agências regulatórias precisam analisá-los para entender se existe indicação do medicamento, para quais doenças, qual dose utilizar e qual não utilizar, quais as contraindicações e interações medicamentosas.”

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    Segundo Hohl, é necessário implementar medidas para coibir a comercialização. “Quando uma medicação que está sendo estudada começa a ser utilizada, fabricada e vendida em um país sem nenhuma dessas informações, é um caos sanitário, é colocar a população em risco. É fundamental que agências regulatórias e órgãos como a polícia reprimam esse tipo de situação.”

    Vale lembrar que os agonistas do GLP-1 aprovados, como a semaglutida e a tirzepatida, devem ser administrados apenas com indicação médica e, por determinação da Anvisa, são vendidos com retenção da receita médica. A aquisição deve ser feita apenas em farmácias e drogarias credenciadas.

     

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