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Lipoless: quais os riscos por trás das canetas emagrecedoras irregulares?

Mulher de 42 anos está internada desde dezembro em estado grave após usar produto conhecido como “Mounjaro do Paraguai”

Por Victória Ribeiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 22 jan 2026, 11h14 • Atualizado em 22 jan 2026, 11h55
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    Uma mulher de 42 anos está internada em Belo Horizonte desde dezembro após usar uma caneta para emagrecimento trazida do Paraguai e vendida de forma irregular no Brasil. Sem orientação médica, Kellen Oliveira Bretas Antunes procurou atendimento inicialmente por causa de dores abdominais, mas o quadro se agravou ao longo dos dias e evoluiu para perda de força muscular e complicações neurológicas.

    O produto utilizado por Kellen foi a Lipoless, uma caneta que circula no mercado clandestino e costuma ser divulgada como o “Mounjaro do Paraguai”. O apelido, recorrente entre vendedores, tenta criar uma associação direta com um medicamento regularizado e amplamente conhecido. Na prática, trata-se de uma substância sem autorização para uso ou comercialização no país. Desde o ano passado, a Lipoless está proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ainda assim, segue sendo anunciada em redes sociais e outros canais informais.

    O preço mais baixo costuma ser o principal chamariz. Mas o valor reduzido, alertam especialistas, raramente se explica apenas por contrabando ou evasão fiscal. Em muitos casos, reflete a própria natureza do produto. São medicamentos falsificados ou irregulares que, embora afirmem conter tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro) ou semaglutida (princípio que compõe o Ozempic), entram no Brasil por rotas ilegais, sem fiscalização sanitária e sem qualquer controle sobre origem, transporte ou armazenamento.

    Isso abre espaço para uma série de problemas, como formulações com baixa pureza, frascos sem esterilidade adequada, insumos de procedência desconhecida e tentativas imprecisas de reproduzir as concentrações usadas pela indústria farmacêutica. Para se ter uma ideia, análises já identificaram substâncias proibidas para uso injetável, como a sibutramina. Em outros casos, foram encontradas composições com álcool ou até insulina. Ou seja, na prática, quem compra medicamentos nessas condições corre um risco elevado de adquirir algo que não guarda relação alguma com o medicamento original.

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    O preço dos medicamentos falsificados

    Por outro lado, quando medicamentos como esses não seguem padrões farmacêuticos — seja por falsificação, manipulação irregular ou importação sem controle sanitário — os riscos deixam de ser pontuais e passam a ser clínicos. Entre os efeitos mais relatados estão problemas gastrointestinais intensos, como vômitos persistentes, náuseas e diarreia grave.

    Além disso, soluções produzidas sem esterilidade podem introduzir bactérias no tecido subcutâneo, provocando abscessos, inflamação local, febre e, em situações mais graves, infecções sistêmicas. Alterações na composição química também podem desencadear efeitos neurológicos e cardiovasculares, como tontura intensa, taquicardia, arritmias, picos de pressão arterial e dores de cabeça incapacitantes.

    Outro ponto crítico é a dosagem. Produtos falsificados ou manipulados sem controle técnico podem conter concentrações muito acima ou muito abaixo do necessário. Doses elevadas aumentam o risco de hipoglicemia, confusão mental e mal-estar súbito. Já doses insuficientes tendem a não produzir efeito, levando muitas pessoas a aumentar a quantidade por conta própria, o que amplia ainda mais o risco de intoxicação.

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    Quando se fala em riscos, porém, o principal problema é a imprevisibilidade. Sem informações confiáveis sobre composição e concentração, muitos dos efeitos adversos não podem ser antecipados. No caso de Kellen, a paciente deu entrada no hospital pela primeira vez em 17 de dezembro de 2025, com dores abdominais. Dois dias depois, passou a apresentar perda de força muscular, sem conseguir se levantar ou se movimentar sozinha.

    Em 28 de dezembro, foi internada novamente. Além da fraqueza muscular e da urina escura, desenvolveu insuficiência respiratória e complicações neurológicas, permanecendo hospitalizada desde então.

    Synedica e TG

    Na última quarta-feira, dia 21, a Anvisa determinou a apreensão de lotes de diferentes marcas de tirzepatida e de todas as marcas de retatrutida vendidas irregularmente no país.

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    Na resolução publicada no Diário Oficial da União, o órgão também proibiu a comercialização, distribuição, fabricação, importação, propaganda e uso desses produtos, que não possuem registro no Brasil.

    No caso da tirzepatida, os produtos cujo recolhimento foi determinado pela Anvisa — e que se somam à Lipoless — pertencem às marcas Synedica, como T.G., Lipoless, Lipoless Éticos, Tirzazep Royal Pharmaceuticals e T.G. Indufar. Medicamentos com essas marcas nunca haviam sido autorizados pela agência, mas a nova ação de fiscalização foi motivada pela comprovação de publicidade irregular dessas canetas.

    O mesmo ocorreu com produtos vendidos sob a alegação de conter o princípio ativo retatrutida. Nesse caso, a Anvisa determinou o recolhimento de lotes de todas as marcas à venda no país, já que o fármaco sequer é regulamentado no Brasil. Ou seja, qualquer retatrutida vista circulando por aqui, não é confiável — ao menos por enquanto.

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    Em todos os casos, a vigilância sanitária avalia que os produtos são “fabricados por empresa desconhecida”. Os lotes irregulares vinham sendo comercializados por perfis no Instagram identificados como @tirzepatida.oficial, @albertotirzepatida e @retatrutida1.

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