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Chocolate afrodisíaco nas redes sociais: dá para confiar?

Divulgado no Instagram, produto promete melhorar vida sexual, mas pode esconder substâncias potencialmente perigosas quando mal utilizadas

Por Cesar Baima/ Revista Questão de Ciência*
6 dez 2024, 16h00

Sexo vende, e não é de hoje. Desde tempos imemoriais, homens e mulheres buscam receitas e produtos que prometem melhorar a vida sexual, aumentar o prazer ou turbinar suas relações. No passado, já alertamos sobre o “melzinho do amor”, um sachê com um conteúdo adocicado de composição incerta vendido por camelôs que chamou a atenção das autoridades e teve a fabricação proibida pela Anvisa.

Ossos do ofício, minhas navegações pela internet e redes sociais em busca de pautas frequentemente me levam para sites promovendo pseudociências e produtos duvidosos do tipo. Assim, não foi com surpresa que recentemente o algoritmo do Instagram fez com que minha conta fosse invadida por anúncios de um chocolate “afrodisíaco”. Supostamente feito “exclusivamente” com ingredientes “naturais”, ele prometia revolucionar minha vida sexual e da minha parceira.

Hora então de ir ao trabalho e pesquisar mais sobre a oferta. E aí começam os problemas. Dependendo da página que se consulta, os ingredientes variam. Em comum, além do óbvio cacau para fazer o chocolate – ora apresentado como “energizante” e fonte de substâncias que “melhoram o humor”, ora um “afrodisíaco natural”, “fonte da juventude” e até o “ingrediente combustível da paixão do mundialmente famoso carnaval brasileiro” -, as listas incluem a erva Epimedium e raiz de maca.

Também conhecida com o sugestivo nome de “erva-do-bode-excitado”, a Epimedium sagittatum é usada na chamada “Medicina Tradicional Chinesa” como tratamento para uma ampla gama de condições por suas supostas propriedades “rejuvenescedoras” via “nutrição dos rins e reforço do yang”.

O foco do “chocolate afrodisíaco”, porém, provavelmente está na sua indicação para tratar fadiga, problemas sexuais – como disfunção erétil – e sintomas da menopausa, dada a forte presença do flavonoide icariin em sua composição. O icariin pode promover a síntese de estrogênio e afetar a regulação de hormônios sexuais, mas os estudos são limitados, geralmente se restringindo a testes in vitro ou com animais em condições distantes de seu uso prático, como a injeção de um extrato de epimedium diretamente nos corpos cavernosos de pênis de ratos.

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Já a maca é o nome popular do tubérculo Lepidium meyenii. Também conhecida como maca-peruana, a planta é originária da região dos Andes e, como a epimedium, é tradicionalmente usada como tratamento para diversas condições, supostamente exibindo propriedades tão díspares como neuroprotetora e anti-inflamatória a atividade antialérgica e reguladora do sistema imune. Como não poderia deixar de ser, porém, a maca também aumentaria a libido e combateria a disfunção erétil, justificando sua inclusão na receita do “chocolate afrodisíaco”.

Composição misteriosa

Daí em diante, no entanto, a real composição do produto é um mistério. Em uma das publicações da página promovendo o “chocolate afrodisíaco” que apareceu no meu feed no Instagram, ele também conteria desidroepiandrosterona (DHEA). Hormônio esteroide produzido pela glândula suprarrenal, a desidroepiandrosterona é um precursor de estrogênios e progesterona, com efeitos sobre o corpo similares aos da testosterona, e sua presença joga por terra a alegação de que o produto é composto “exclusivamente” com ingredientes “naturais”.

Naturalmente, porém, a suplementação de DHEA está cercada de alegações de benefícios. A lista é extensa, indo de melhora do humor, energia e sensação de bem-estar a aumento da força e massa muscular, desempenho atlético, estímulo ao sistema imune, redução do colesterol e da gordura corporal, alívio da depressão, reversão do envelhecimento, melhora da aparência da pele envelhecida e da função cerebral e aumento da libido.

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De acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), no entanto, a única condição médica em que se justifica considerar terapia sistêmica com DHEA é a insuficiência adrenal crônica em mulheres, doença rara em que as glândulas adrenais (suprarrenais) deixam de produzir seus hormônios corticais.

“A deidroepiandrosterona (DHEA) é um hormônio e não é um suplemento natural isento de riscos”, destaca a SBEM em campanha de esclarecimento sobre a saúde adrenal lançada este ano. “Ela não serve como reposição para melhorar a massa muscular, a libido, a depressão, o envelhecimento, o fortalecimento do sistema imunológico, o humor e aumentar a energia. Portanto, é fake que a DHEA é um suplemento que melhora o vigor físico e a libido”.

Assim, além de a SBEM alertar que “não há comprovação científica de que esse hormônio traga benefícios para o indivíduo”, não há indicações de segurança para seu uso ao longo de meses ou anos. Segundo a sociedade médica, o uso indiscriminado da DHEA foi relacionado a riscos como ginecomastia (crescimento de mamas) e sintomas depressivos em homens associados a uma tendência à elevação das concentrações de estrogênio (hormônio feminino), e hirsutismo (crescimento de pelos faciais) e queda de cabelo associados ao aumento da testosterona (hormônio masculino) em mulheres, além de acne, cefaleia, alterações de humor.

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Também há relatos de risco de estimulação de câncer de próstata, de fígado e de mama, diminuição dos níveis de colesterol “bom” (HDL), aumento das taxas de triglicerídeos e piora da síndrome do ovário policístico (SOPC), bem como casos de mania e um de convulsão.

Outro perigo da compra do “chocolate afrodisíaco”, para além de sua ineficácia e riscos à saúde, é o golpe financeiro puro e simples. Apesar de afirmar que o produto é fabricado nos EUA e dos textos em inglês, a conta do Instagram cujos anúncios surgiram no meu feed indica ter sido criada no Brasil em maio de 2022, tendo passado por cinco alterações de nome de usuário desde então.

* Cesar Baima é jornalista e editor-assistente da Revista Questão de Ciência, onde este texto foi originalmente publicado

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