Caso Daniel Vorcaro: a violência contra as mulheres nos vazamentos de conversas
Mesmo não sendo suspeitas no episódio do Banco Master, mulheres têm suas intimidades expostas na operação contra banqueiro, critica advogada em artigo
No mês dedicado às mulheres, em que ações distribuem flores e empresas publicam posts sobre empoderamento feminino, a realidade dos fatos escancara diversos tipos de violência no cotidiano.
Não vou falar aqui em estatísticas de feminicídio ou de estupro, que realmente são assustadoras e precisam ser combatidas com urgência. Vou tratar de uma outra forma de violência, mais silenciosa, porém igualmente devastadora para a mulher: a negação do nosso direito à intimidade.
Recentemente, fomos testemunhas de mais um episódio inaceitável. No bojo das investigações envolvendo o empresário Daniel Vorcaro, do Banco Master, mensagens de cunho estritamente pessoal com sua noiva e outras mulheres foram vazadas e expostas na mídia e nas redes sociais.
Quero ser muito clara: não estou discutindo o mérito da investigação judicial. O que estou questionando é o porquê de conversas íntimas, que não possuem qualquer relação com os fatos investigados ou com o interesse público, terem sido jogadas no ventilador da internet.
A intimidade da mulher não é prova processual. Quando conversas privadas de mulheres são expostas para virar meme ou manchete de fofoca, o que vemos é uma violência gratuita. Essas mulheres não são o alvo da investigação, mas tornam-se vítimas de uma exposição que deixa uma ferida aberta e permanente.
O que cai na internet, fica na internet. É uma sentença perpétua de exposição que nenhuma dessas mulheres mereceu receber. Quem já passou por isso sabe quanto é brutal e injusto.
E pode haver consequências, uma vez que a integridade e o estado psíquico dessas mulheres também são comumente abalados.
Onde está o limite? Por que a sociedade negligencia o direito à privacidade feminina com tanta facilidade?
Quase ninguém toca nesse assunto. É mais fácil rir do print, compartilhar o post ou comentar a vida alheia do que se indignar com a violação de um direito fundamental. Essa exposição é uma forma de controle e de desumanização. É dizer que, independentemente do que você conquistou, sua vida privada pode ser usada para te diminuir a qualquer momento.
Não podemos aceitar que a dignidade feminina seja rifada em situações como vazamentos seletivos. Respeitar a mulher também é respeitar o seu direito de ter uma vida privada.
Nossa intimidade não é pública. E o silêncio diante disso é conivência.
* Ana Seleme é advogada, mediadora e consultora jurídica. É fundadora da Fenagro – Frente Nacional em Defesa do Agro e diretora executiva da Febrapo – Frente Brasileira pelos Poupadores, pela qual coordena o maior acordo coletivo do Judiciário brasileiro





