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Canetas emagrecedoras: quantos quilos é possível perder com elas e quando é hora de ajustar ou suspender?

Consenso europeu ajuda a definir metas realistas de peso e o momento certo de pausar o tratamento

Por Carlos Eduardo Barra Couri Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 jul 2026, 13h00 | Atualizado em 20 jul 2026, 15h14
Canetas emagrecedoras: quantos quilos é possível perder com elas e quando é hora de ajustar ou suspender? Priorizar nos meus resultados Google

Essas são, hoje, as duas perguntas mais frequentes no meu consultório. “Doutor, quantos quilos eu vou perder?“. E, poucos meses depois, quando o resultado já apareceu: “Posso parar agora?”. São perguntas legítimas, mas que raramente têm uma resposta em número fechado — e um documento recém-publicado por três importantes sociedades europeias de obesidade (EASO, EFAD e ECPO) ajuda a explicar por quê.

Nos estudos clínicos, a semaglutida na dose de 2,4 mg promoveu perda média de até 14,8% do peso corporal em relação ao placebo; a tirzepatida, na dose máxima de 15 mg, chegou a 20,8%. São números expressivos, próximos aos obtidos com cirurgia bariátrica. Mas médias escondem uma variabilidade enorme entre pacientes: o mecanismo de ação — redução da ingestão calórica em cerca de 300 kcal por dia, em média — não afeta todo mundo da mesma forma, e uma parcela dos pacientes perde bem menos do que a média dos estudos.

Por isso, a meta de peso não deveria ser definida apenas pelo número que aparece na bula do medicamento, e sim de forma individualizada: qual
percentual de perda é necessário para melhorar a comorbidade daquele paciente específico — pressão arterial, apneia do sono, glicemia, dor articular?

Às vezes, 10% já resolve o problema clínico; em outros casos, é preciso mais. Definir essa meta junto com o paciente, antes de iniciar o tratamento, evita tanto a frustração de quem esperava emagrecer mais quanto o risco oposto: perder peso além do necessário, à custa de massa magra.

O que o acompanhamento nutricional e o exercício mudam nessa equação

Isso me leva a um ponto central do documento: a perda de peso rápida não distingue gordura de músculo. Sem intervenção, uma parte relevante do peso perdido é massa magra — o que compromete força, função física e o próprio metabolismo a longo prazo. Por isso, o consenso recomenda ingestão proteica adequada e exercício resistido progressivo como parte do tratamento, não como recomendação opcional.

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Na prática, isso significa acompanhamento nutricional estruturado, especialmente em pacientes com maior risco: idosos, pessoas com baixa
ingestão alimentar prévia, perda de peso muito rápida ou sinais de deficiência de micronutrientes. O documento propõe um modelo escalonado: pacientes de baixo risco, com boa tolerância e trajetória esperada, podem ser acompanhados pela equipe multidisciplinar de forma rotineira; já os de maior complexidade devem ser encaminhados a um nutricionista para terapia nutricional individualizada, com avaliação periódica da composição corporal quando indicada. Esse acompanhamento também é o que permite ajustar a meta de peso ao longo do tratamento, em vez de persegui-la de forma rígida.

A parte psicológica que pouca gente discute

Há uma dimensão do tratamento que considero tão importante quanto a nutricional, e que costuma passar despercebida: a psicológica. As terapias
baseadas em incretinas — hormônios produzidos naturalmente pelo intestino que ajudam a controlar a fome, a saciedade e os níveis de açúcar no sangue — atuam sobre as vias de recompensa relacionadas à comida, o que explica por que muitos pacientes relatam alívio do chamado “ruído alimentar”, aqueles pensamentos repetitivos sobre comida que ocupavam a mente ao longo do dia.

Só que essa mudança tem um custo emocional para alguns. Assim como acontece após a cirurgia bariátrica, quando a via de recompensa alimentar é
atenuada, parte dos pacientes perde — junto com o apetite — estratégias de enfrentamento emocional às quais recorria havia anos. Em grupos focais
citados no consenso, pacientes relataram sensação de perda da própria identidade, mesmo diante do sucesso da perda de peso.

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Por isso, o documento recomenda triagem psicológica e suporte estruturado quando necessário, e não apenas celebração do número na balança. Um paciente que emagrece rápido, mas fica mais isolado socialmente ou desenvolve relação disfuncional com a comida, não está tendo um bom desfecho — mesmo que o peso esteja “certo”.

Quando suspender o tratamento

Aqui não existe uma resposta universal segundo o consenso, e devo ser honesto sobre isso com meus pacientes. A decisão de manter, reduzir a dose,
pausar temporariamente ou interromper definitivamente o medicamento deve ser compartilhada entre médico e paciente, pesando os riscos físicos e
psicológicos de tratar contra os de não tratar.

Alguns critérios que uso para essa conversa: a meta clínica combinada no início foi atingida? A comorbidade que motivou o tratamento está controlada? A massa magra e a função física foram preservadas? Há efeitos adversos gastrointestinais persistentes que comprometem a qualidade de vida? O paciente está em condições nutricionais e psicológicas de manter os hábitos construídos sem o medicamento?

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Um dado que considero essencial compartilhar antes mesmo de começar o tratamento: a interrupção costuma vir acompanhada de reganho de peso
clinicamente significativo. Isso não é fracasso do paciente. É a obesidade se comportando como o que ela é: uma doença crônica e recidivante, que reage à retirada do tratamento como qualquer outra condição crônica reagiria. Por isso, “suspender” nem sempre significa parar de vez — muitas vezes significa reduzir a dose para uma faixa de manutenção, ou pausar temporariamente diante de um evento específico (cirurgia, gestação planejada, efeito adverso a investigar), com plano claro de reavaliação.

O que realmente importa

Se eu pudesse resumir a mensagem do consenso europeu em uma frase, seria esta: o sucesso do tratamento com incretinas não se mede só pelo ponteiro da balança, mas por um conjunto — peso adequado à comorbidade do paciente, massa muscular preservada, função física mantida, relação saudável com a comida, saúde mental estável e um plano definido para o momento em que o tratamento precisar ser ajustado ou pausado.

A pergunta certa, portanto, não é “quantos quilos vou perder” nem “quando posso parar”, isoladamente. É: “qual é a minha meta clínica, e o que
precisamos construir — nutricional e emocionalmente — para sustentá-la, com ou sem a caneta?”. Essa é a conversa que médico, nutricionista e paciente deveriam ter juntos, desde a primeira consulta.

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