Café e coração: hora de dar um tempo ou pode beber sem medo?
Pesquisa mostra que bebida não aumenta risco de batimentos irregulares - a famosa arritmia - e pode até oferecer benefícios, desde que consumida com moderação
Por muito tempo, a orientação foi quase automática: “Tem ou quer evitar problemas no coração? Melhor cortar o café“. A bebida, afinal, tem cafeína e, no imaginário popular (e até médico), costuma entrar na lista de “gatilhos” para palpitação e coração acelerado. Só que um estudo recém-publicado na JAMA, uma das revistas científicas mais prestigiadas da medicina, se soma a uma série de evidências que colocam essa certeza em xeque.
Os pesquisadores acompanharam 200 pacientes com fibrilação atrial, uma arritmia que faz o coração bater de forma irregular e pode aumentar o risco de complicações. Todos passaram por um procedimento médico para tentar colocar o ritmo cardíaco “no lugar”. A partir daí, os voluntários foram divididos em dois grupos: um seguiu tomando café com cafeína normalmente no dia a dia, enquanto o outro precisou cortar café e outras fontes de cafeína por seis meses.
Ao final do acompanhamento, 47% do grupo que manteve o café voltou a ter fibrilação atrial, contra 64% do grupo que ficou sem cafeína. Na análise estatística, isso se traduziu em uma chance 39% menor de a arritmia voltar entre os consumidores de café.
E vale um detalhe importante: não estamos falando de exagero. Os participantes foram incentivados a consumir pelo menos uma xícara por dia, e a mediana ficou em cerca de sete xícaras por semana.
Mas, afinal, quem tem arritmia precisa abolir o café?
Para o cardiologista Eduardo Rodrigues Bento Costa, assessor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP), essa é uma dúvida clássica de consultório. “Uma das dúvidas mais frequentes entre os pacientes que têm arritmia é se podem tomar café”, diz.
Ele explica que existe uma confusão comum nessa história: o café pode até acelerar os batimentos em algumas pessoas — e isso assusta —, mas nem sempre significa que o coração entrou em arritmia. “Muitas pessoas sentem o coração bater mais rápido depois do café, mas esse aumento da frequência não necessariamente é uma arritmia. Pode ser apenas um efeito estimulante”, afirma.
Além disso, o café não é só cafeína. Segundo Elizabeth Torres, assessora científica da SOCESP que trabalha pesquisando o café há quase 20 anos, a bebida queridinha do brasileiro tem centenas de compostos bioativos, como os polifenóis, com ação antioxidante e anti-inflamatória, que podem trazer proteção cardiovascular — um raciocínio que vai na mesma linha do que os autores do estudo sugerem para explicar os resultados.
Na avaliação de Costa, a pesquisa ajuda justamente a enfraquecer o “dogma” de que todo paciente com arritmia deveria cortar a bebida por precaução. Mas isso não significa liberar sem critério. Para a maioria dos adultos, ele afirma que uma quantidade considerada segura gira em torno de até 400 mg de cafeína por dia. “Uma xícara grande de café tem perto de 100 mg, ou seja, algo como quatro xícaras por dia ainda estaria dentro desse limite”, explica.
O problema, segundo ele, aparece quando o consumo deixa de ser moderado, especialmente quando uma mistureba de estimulantes entra em jogo. “O café tende a fazer mal quando há doses excessivas, principalmente quando a pessoa soma energético, suplementos pré-treino e até álcool. Aí, sim, a chance de dar problema aumenta.”
No fim, a recomendação é menos radical do que muita gente imagina. Quem tem arritmia cardíaca pode tomar café? A responde é sim, normalmente pode. Mas sempre de forma individualizada e moderada. “Em resumo, ciência boa é ciência que revisa certezas — e, neste caso, o café pode sair do banco dos réus e ocupar um lugar mais equilibrado na saúde cardiovascular”, resume Torres.







