Cada 100g a mais de ultraprocessados por dia pode elevar em 4% risco de câncer
Consumo elevado de ultraprocessados está associado a maior risco de doenças crônicas e morte, aponta estudo que avaliou dados de 8 milhões de pessoas
Cada 100 gramas adicionais de alimentos ultraprocessados consumidos por dia está associado a um risco 4% maior de câncer, segundo uma ampla análise de estudos publicada na revista Family Medicine and Community Health.
O estudo também encontrou uma associação entre o consumo elevado desses alimentos e outros problemas de saúde. Pessoas que consumiam mais ultraprocessados apresentaram risco 12% maior de câncer, 24% maior de eventos cardiovasculares, 24% maior de síndrome metabólica ou diabetes e 18% maior de morte por qualquer causa.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que os resultados mostram associações e não comprovam que os alimentos ultraprocessados sejam diretamente responsáveis pelo desenvolvimento dessas doenças.
Além do câncer, o maior consumo foi associado a risco 31% maior de doenças digestivas, 27% maior de depressão ou ansiedade, 23% maior de obesidade ou sobrepeso e 11% maior de pressão alta.
Uma das análises realizadas pelos pesquisadores avaliou a relação entre a quantidade de ultraprocessados consumida diariamente e os desfechos de saúde.
A cada 100 gramas adicionais de ultraprocessados por dia, o risco associado a eventos cardiovasculares foi 14% maior. Para câncer, o aumento foi de 4%. Também foram observados aumentos de 3% no risco de morte por qualquer causa e de 2% no risco de síndrome metabólica ou diabetes.
Os alimentos ultraprocessados são produtos que passam por várias etapas de processamento industrial e geralmente contêm diferentes aditivos. Costumam apresentar maiores quantidades de açúcar e sódio, mas são pobres em fibras, proteínas, vitaminas e minerais.
O consumo desses produtos aumentou em diversos países nas últimas décadas. Nos Estados Unidos, por exemplo, os ultraprocessados representavam 53,5% da ingestão total de energia entre adultos em 2001. A participação chegou a 57% em 2018 e ficou em 53% entre 2021 e 2023, segundo dados citados pelos autores.
O estudo também menciona aumentos importantes em outros países. Na Espanha, a participação dos ultraprocessados na alimentação passou de 11% para 31,7% ao longo de três décadas. No México e no Brasil, passou de cerca de 10% para 23%, enquanto na China subiu de 3,5% para 10,4%.
Apesar do crescimento do consumo, ainda não há consenso sobre um nível considerado seguro. Segundo os pesquisadores, permanecem dúvidas sobre a relação entre diferentes quantidades de ultraprocessados e os efeitos de longo prazo sobre a saúde.
Como o estudo foi feito
A análise reuniu 51 estudos de coorte prospectivos, que acompanharam um total de 8. 819. 894 participantes. Os períodos de acompanhamento variaram de dois a 32 anos, enquanto a idade média dos participantes nos diferentes estudos ficou entre 23,9 e 77 anos.
Dos estudos analisados, 16 foram realizados nas Américas, 25 na Europa, oito na Ásia e dois na Oceania.
O consumo alimentar foi estimado por diferentes métodos, incluindo questionários de frequência alimentar, recordatórios de alimentação de 24 horas e históricos alimentares.
Os pesquisadores analisaram diversos desfechos, entre eles câncer, doenças cardiovasculares, síndrome metabólica e diabetes, doenças digestivas, obesidade e sobrepeso, depressão e ansiedade, pressão alta e mortalidade por qualquer causa.
Por que os ultraprocessados podem estar associados aos problemas de saúde?
Os autores apontam algumas possíveis explicações. Uma delas é a presença de múltiplos aditivos nos produtos, cuja combinação poderia produzir o chamado “efeito coquetel” sobre o organismo.
Estudos laboratoriais também sugerem que as alterações na composição física dos alimentos ultraprocessados podem afetar o microbioma intestinal e estar relacionadas a processos como inflamação e resistência à insulina.
Os pesquisadores citam ainda substâncias que podem se formar durante o processamento dos alimentos. Entre elas estão a acrilamida, que pode ser produzida durante o tratamento térmico de determinados alimentos, e a acroleína, gerada durante o aquecimento de gorduras.
Esses compostos já foram associados, em estudos anteriores, a doenças cardiovasculares.
Redução do consumo é uma das estratégias sugeridas
Diante dos resultados, os pesquisadores defendem que a redução do consumo de ultraprocessados pode fazer parte de estratégias de prevenção e de cuidados em saúde.
No contexto da atenção primária, eles sugerem que profissionais de saúde orientem a redução gradual desses alimentos e sua substituição por alternativas minimamente processadas. A recomendação, segundo o estudo, deve levar em conta a alimentação habitual, as preferências, o contexto cultural e as condições socioeconômicas de cada pessoa.
Os autores também defendem medidas de saúde pública, como a adoção de rótulos de advertência na parte frontal das embalagens e estratégias direcionadas a determinados tipos de ultraprocessados.
Para os pesquisadores, reduzir o consumo e priorizar alimentos minimamente processados pode contribuir para a prevenção de doenças crônicas e para o manejo de pessoas que apresentam mais de uma condição de saúde simultaneamente.
“Juntas, essas ações podem apoiar escolhas alimentares mais saudáveis e reduzir a dependência de consultas clínicas individuais para lidar com padrões alimentares inadequados”, afirma o estudo.
É importante, contudo, interpretar os números com cautela: um aumento de 4% no risco associado a cada 100 gramas adicionais não significa que uma pessoa que consuma 100 gramas de ultraprocessados terá 4% de chance de desenvolver câncer. O percentual representa a associação estatística observada na análise, e o risco individual depende de diversos outros fatores.







