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‘Balsa do sexo’: um dos experimentos mais estranhos do mundo

Em busca da compreensão do comportamento das pessoas diante de situações extremas, o projeto revelou as muitas facetas do ser humano

Todo reality show de grande audiência tem em seu enredo inúmeras situações de conflitos, intrigas e romance. Tudo porque imitam a realidade – que acaba sendo amplificada pelo confinamento. Na busca por entender o comportamento humano – em especial o que gera conflitos – o antropólogo espanhol-mexicano Santiago Genovés decidiu realizar seu próprio experimento, que ficou conhecido como “balsa do sexo”, segundo informações da BBC.

Para pô-lo em prática, o pesquisador confinou 11 pessoas, incluindo ele próprio, dentro de um pequeno barco no qual ficariam por mais de três meses sem qualquer chance de desistência. Apesar de ter sido posto em prática em 1973, o experimento teve sua origem no ano anterior.

Genovés havia embarcado em um voo que partia de Monterrey para a Cidade do México depois de participar de uma conferência sobre a história da violência. No meio da viagem, um grupo assumiu o controle do avião, exigindo a libertação de alguns companheiros.

A ironia do sequestro não passou despercebida pelo estudioso. “Era bom demais para ser verdade… Imagina a ironia. Eu, um cientista que passou a carreira toda estudando comportamento violento, acabar dentro de um avião sequestrado. Toda a minha vida eu tentei saber por que as pessoas brigam e entender o que realmente acontece na nossa mente”, escreveu ele depois do incidente.

A partir desse momento, o antropólogo decidiu criar uma situação semelhante na qual pudesse observar e controlar de perto todas as variáveis que afetam o comportamento humano. A ideia de usar um barco como cenário veio de outra experiência anterior.

Genovés havia feito parte de um projeto marítimo cujo objetivo era mostrar que os africanos poderiam ter chegado à América antes de Cristóvão Colombo. Durante sua participação, ele percebeu que o confinamento dentro de um barco é uma ótima maneira de entender como as pessoas se comportam em situações de stress.

O Acali

De acordo com a BBC, o barco de Genovés, nomeado de Acali, que na língua náuatle significa “casa na água”, não foi pensado para ser um cruzeiro de luxo, pois o principal objetivo do pesquisador era provocar conflitos. As medidas da embarcação eram de 12 x 7 metros com uma pequena vela. A cabine media 4 x 3,7 metros, com “espaço apenas para o corpo de cada um, deitado. Não dá para ficar em pé“, escreveu na Revista de la Universidad de México, em 1974.

Outro estressor do experimento era a higiene: o chuveiro e o vaso sanitário estavam ao ar livre, permitindo que toda a tripulação visse o que se passava. O barco também não tinha motor, eletricidade ou qualquer forma de escape uma vez que nenhuma outra embarcação acompanharia o trajeto.

Os tripulantes

O recrutamento da tripulação foi feito através de anúncio em vários jornais internacionais. Os interessados chegaram às centenas, mas Genovés escolheu apenas 10 pessoas completamente diferentes, incluindo nacionalidade, religião e contextos sociais, justamente para instigar conflitos. Os escolhidos: quatro homens e seis mulheres – destes, quatro eram solteiros e quase todos tinham filhos.

Outra inovação do projeto (especialmente se considerarmos a década em que foi realizado) foi colocar as mulheres em posições de autoridade, começando pelo posto mais alto: o de capitão – neste caso, uma capitã: Maria Björnstam (30 anos e solteira). Genovés a intitulou de “a primeira mulher do mundo a ser nomeada capitão de uma embarcação”. O objetivo da inversão de papeis era verificar se “dar poder às mulheres levará a menos violência. Ou se haverá mais”

O mito da ‘balsa do sexo’

O experimento teve início em 13 de maio de 1973. A balsa Acali saiu de Las Palmas, nas Ilhas Canárias, com destino a ilha de Cozumel, no México. Tão logo zarpou, sua fama começou a tomar forma graças a imprensa. Embora ninguém soubesse dizer com detalhes o que acontecia lá dentro, os poucos contatos via rádio foram o bastante para que surgissem histórias mirabolantes.

As manchetes estavam sempre fazendo alusão ao sexo: “As orgias na jangada do amor”, “O segredo da balsa do amor”, “A balsa da paixão”. Alguns dos artigos até mesmo mencionavam o fato de a capitã usar biquíni. Todos as histórias criaram o mito da “balsa do sexo”.

E como o sexo funcionava dentro do Acali? Segundo Genovés, que observava tudo de perto, as relações sexuais aconteciam. Aliás, na visão do antropólogo, o contato sexual poderia até mesmo ser um interessante ponto de conflito. Estudos científicos com macacos mostraram que existe uma conexão entre violência e sexualidade, onde a maioria dos conflitos entre machos é consequência da disponibilidade de fêmeas que estão ovulando. Para verificar se acontece o mesmo entre os seres humanos, selecionei participantes sexualmente atraentes. E como o sexo está ligado à culpa e à vergonha, coloquei entre eles Bernardo, um padre católico de Angola, para ver o que acontece”, relatou Genovés.

A decepção deve ter sido imensa quando o sexo não gerou as tensões e conflitos que ele esperar ver entre os participantes.

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O principal ponto de conflito

Apesar de ter como função ser o observador do comportamento humano, Genovés tornou-se um objeto de estudo, ainda que não tivesse percebido à época. O intuito do experimento era criar situações de conflito e ver como os tripulantes se comportavam, mas conforme os dias foram passando e nada do que o pesquisador esperava acontecia, ele mesmo passou a se comportar de maneira violenta. “Me dei conta que o único que havia mostrado qualquer tipo de agressividade ou violência na balsa tinha sido eu”, contou.

O comportamento do observador levou os participantes a até mesmo cogitarem a ideia de assassiná-lo. “Estávamos todos pensando a mesma coisa ao mesmo tempo – será que vamos fazer isso?”, contou Fe Seymour, engenheira americana que participou do experimento, no documentário A Balsa, do cineasta sueco Marcus Lindeen, que será lançado em setembro no México.

Já a capitã do Acali, que também participa do documentário, revelou que Genovés se tornou um ditador e até mesmo assumiu o controle e se autoproclamou capitão. “Me dava medo pensar que chegaria ao ponto em que faríamos isso. Fiquei assustada. Como estávamos no mar, não é como quando você está em terra: nada era normal. Naquele momento, percebi que tínhamos a capacidade de fazer algo terrível para sobreviver”, ressaltou Seymour, no documentário.

Embora o objetivo do experimento fosse instigar a violência, mesmo os instintos mais agressivos dos tripulantes foram deixados de lado e os conflitos com Genovés resolvidos diplomaticamente. Talvez para decepção do próprio pesquisador.

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O fim do experimento

Na chegada ao México, 101 dias após a partida, todos os tripulantes foram mantidos isolados por uma semana e receberam atendimento psiquiátrico, psicológico e médico. Para os participantes, chegava ao fim uma incrível aventura. Mesmo os momentos difíceis foram encarados com leveza e muitos deles criaram um vínculo que resiste até hoje.

Para Genovés, o fim do experimento trouxe consigo muitas críticas. Do ponto de vista antropológico, talvez o aprendizado tivesse sido maior se o pesquisador tivesse se atentado aos participantes antes do experimento começar. “Se tivesse ouvido a explicação das pessoas de por que estavam na balsa – Maria fugindo de um marido abusivo, o racismo que Fe tinha sofrido -, ele teria aprendido sobre as consequências da violência e como às vezes podemos superá-la suavizando nossas diferenças”, disse Marcus Lindeen ao The Guardian.