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Acúmulo de gordura no fígado afeta 32% dos paulistanos

Silenciosa, doença ligada a maus hábitos, como sedentarismo e dieta rica em carboidrato e frutose, pode evoluir para câncer de fígado e cirrose

Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) divulgada durante o Congresso Brasileiro de Hepatologia, em Salvador, mostrou que 32% das pessoas estudadas têm acúmulo de gordura no fígado, mais conhecido como esteatose hepática. Assintomática, a doença não está relacionada ao consumo abusivo de álcool, mas é capaz de evoluir para câncer e cirrose se não for tratada. Em geral, vem acompanhada de outras enfermidades ligadas ao aumento da taxa de obesidade da população brasileira, como diabetes, hipertensão, altas taxas de colesterol ruim, entre outras.

O levantamento foi feito com base em 14.292 exames de check up na cidade de São Paulo, realizados entre 2006 e 2010. Do total dos pacientes pesquisados, 77% eram homens com idade média de 40 anos. Para a pesquisa, foi também avaliada a presença de hipertensão arterial, diabetes, nível de atividade física, presença de risco para estresse e depressão. Dos 32%, somente em 15,1% a esteatose estava associada ao consumo elevado de álcool. Nos outros 84,9%, a esteatose estava associada a homens com mais de 45 anos, que tinham presença de síndrome metabólica e sobrepeso (IMC maior que 25).

A condição reduz a capacidade do corpo de responder a insulina, hormônio que ajuda a controlar os níveis de açúcar no sangue. “Uma pessoa que começa a depositar gordura na barriga e no fígado desenvolve resistência a insulina”, explica Edison Parise, autor do estudo e chefe do serviço de hepatologia da Escola Paulista de Medicina. “Esses pacientes tendem a evoluir para complicações da doença de base e também podem desenvolver ou piorar doenças coronarianas e diabetes”, diz.

O diagnóstico pode ser feito a partir de um ultrassom do abdome e um exame das enzimas do fígado. Algumas pessoas são mais propensas a ter a doença. De acordo com Parise, 90% dos obesos mórbidos têm a doença hepática gordurosa não alcoólica. Entre os diabéticos, a taxa pode chegar a 70%. Pessoas com sobrepeso têm três vezes mais chances de ter a doença do que aqueles com o peso normal. O especialista explica que é uma doença assintomática, que não causa nenhum tipo de desconforto ou sintoma visual.

Entre as possibilidades de tratamento, estão a adoção de hábitos saudáveis, como dieta e exercícios físicos, e até o uso de medicamentos que sensibilizam a ação da insulina.

Especialista responde

Vlad Ratziu

Especialista em doença hepática gordurosa não alcoólica da Unversidade de Nice, na França

A população desconhece a existência dessa doença? Sim, a maioria não sabe nada sobre isso. O pior é que até mesmo que os nossos colegas endocrinologistas, especialistas em diabetes e nutricionistas também não estão totalmente informados sobre a doença. Acredito que tivemos algum progresso de dez anos pra cá, mas ainda há muito a ser feito em termos de educação, tanto para os hepatologistas quanto para os médicos de outras especialidades.

O que eles precisam aprender? Basicamente, temos que ensiná-los que o fígado pode ser danificado pela resistência à insulina e que por isso nós precisamos procurar pelos problemas que podem ocorrer no fígado, principalmente em pessoas que estão com sobrepeso, têm diabetes, alterações no colesterol ou estão hipertensos. É preciso deixar claro que eles precisam procurar por essa doença que não têm sintomas e mostrar a eles quais são as formas simples de diagnosticar isso.

Para a população, qual a melhor forma de prevenir esse problema? O melhor jeito de prevenir é evitar o ganho de peso. É preciso deixar o sedentarismo e ser ativo, no caso da prevenção primária. Além disso, é preciso procurar o médico e controlar as outras doenças associadas, como diabetes e dislipidemia.

Quais alimentos as pessoas não devem comer? Uma dieta rica em frutose, com liquídos como sucos de frutas e refrigerantes pode ser perigosa. As gorduras-trans, gordura saturada e comidas processadas também estão relacionadas a um aumento de esteatose hepática e esteato-hepatite não alcoólica. Além disso, o conselho que deve ficar na mente das pessoas é que elas não devem comer muito para que não ganhem muito peso.

Quando os médicos devem começar a tratar? Acredito que se, após seis meses, a situação do fígado não melhorou com mudanças de hábitos, como prática de exercícios físicos e dieta saudável, é preciso considerar um tratamento específico para o fígado. No caso de pessoas que já estão tentando perder peso há cinco ou dez anos e não têm nenhum sucesso, não há porque esperar mais seis meses para iniciar um tratamento medicamentoso.

Drogas antiobesidade podem ajudar no tratamento dessa doença? Teoricamente, sim. Mas não há muitas drogas para o combate da obesidade no mercado. E as poucas que nós temos não possuem um perfil seguro. Com exceção, do Orlistat, que ainda está no mercado, todas as outras foram derrubadas na Europa – como o rimonabant e a sibutramina, além das outras drogas que são sendo consideradas ineficazes. Então, não temos muitas opções nesse sentido. A esperança é encontrar drogas que mirem diretamente a inflamação do fígado e que não tenham efeitos colaterais. Por enquanto, vários componentes farmacológicos estão sendo testados.