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Um aplicativo contra o assédio

Priscila Gama, finalista do Prêmio VEJA-se na categoria Diversidade, criou aplicativo que ajuda mulheres a se proteger de abuso sexual em lugares públicos

Por Guilherme Venaglia - Atualizado em 30 nov 2018, 20h38 - Publicado em 29 jun 2018, 06h00

Especialista em urbanismo, Priscila Gama, de 34 anos, ficou revoltada e indignada durante o auge da campanha #MeuPrimeiroAssédio, que no fim de 2015 incentivou mulheres a expor nas redes sociais relatos de assédio sexual. “Percebi que muitas das histórias tinham a ver com mobilidade, com mulheres que estavam sozinhas no momento em que o abuso aconteceu. E passei a pensar em como resolver essa questão. Foi quando tive a ideia de um aplicativo que funcionasse como uma companhia virtual”, diz a arquiteta, uma das três finalistas do Prêmio VEJA-se na categoria Diversidade. Em dezembro daquele ano, seu projeto conquistou o segundo lugar em um concurso do Startup Weekend BH, promovido por agências de fomento à pesquisa de Minas Gerais. Com isso, sua startup obteve monitoria especializada para se desenvolver e progredir. Assim surgiu o aplicativo Malalai, destinado a ajudar as mulheres a enfrentar a insegurança das ruas.

Superando a introspecção que a acompanhava desde a adolescência, Priscila conquistou os jurados com a seguinte provocação: “Sabe aquela mensagem ‘avisa quando chegar’? Pois é, quem vai avisar se você não chegar?”. Em seguida, ela lembrou que, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), a cada onze minutos uma mulher é vítima de estupro no Brasil. Com o nome Malalai (inspirado em Malala, a jovem paquistanesa que ganhou o Nobel da Paz em 2014 por sua luta pelo direito das mulheres à educação), a startup é tocada por ela e seu sócio, Henrique Mendes. O principal produto da Malalai é um aplicativo de celular, disponível por enquanto apenas para Android, que pretende combater a violência investindo em três vertentes.

A primeira, de ação preventiva, é o mapeamento de rotas mais seguras para as mulheres que andam a pé nas cidades, com base em critérios como iluminação pública, existência de comércio aberto e de postos policiais, entre outros. A segunda tem foco no aumento da sensação de segurança: o recurso de companhia virtual permite que a mulher escolha alguém, via celular, que acompanha sua rota e o tempo de chegada a seu destino. A terceira consiste no impedimento do abuso: o aplicativo tem um botão de emergência que, acionado, envia mensagens de pedido de socorro a três contatos de confiança pré-selecionados. O serviço tem mais de 4 000 usuárias cadastradas. Para complementar o negócio, Priscila está desenvolvendo um anel discreto que permite o uso do botão de emergência de forma mais rápida, via Bluetooth.

Priscila também pretende tornar a startup rentável atuando em uma área que ela conhece bem: dona de um MBA em gestão de projetos imobiliários pela Fundação Getulio Vargas (FGV), a arquiteta acredita que informações compiladas em big data sobre o nível de segurança para as mulheres de cada quarteirão das cidades podem interessar a construtoras e seguradoras. “Queremos ter um negócio social: que a empresa ganhe dinheiro para ser sustentável e gerar algum lucro, mas que se concentre em alcançar seu objetivo de tornar o deslocamento a pé das mulheres mais seguro.” Enquanto isso, ela se divide entre um emprego de meio período como funcionária no Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Minas Gerais (CAU-MG) e participações em eventos, pelos quais não cobra. Pelo ineditismo da iniciativa, a Malalai tornou-se referência na junção de tecnologia, questão de gênero, segurança pública e urbanismo. Priscila participa de cerca de trinta eventos por ano, além de dar monitoria a grupos de desenvolvedoras femininas voltadas para a inovação.

“Mais triste do que existir uma ferramenta como essa é saber que ela é necessária e ninguém fazer nada. Todo mundo sabe que o problema existe e que ele acontece diariamente”

Criada em uma família matriarcal, de mulheres fortes, Priscila tem uma história de provações. Seus pais, que passaram fome na infância, se esforçaram destinando quase todo o orçamento familiar com aluguel para conseguir viver em um bairro de classe média de Divinópolis, onde não dependessem de transporte público para trabalhar e levar os filhos à escola. Diz Priscila, que estudou em uma instituição de ensino particular, com bolsa integral: “Fui vítima de racismo e sofri muito bullying na escola. Acabei ficando retraída”.

Houve outro fator que contribuiu para torná-la introspectiva e desconfiada: ela começou a ser abordada com comentários de teor sexual na rua, na volta da escola, já a partir dos 12 anos. “A mulher negra é hipersexualizada pela sociedade desde cedo”, afirma. Ela conseguiu vencer a timidez graças ao sucesso da Malalai: “Foi um divisor de águas. Existem duas ‘Priscilas’, a de antes e a de depois do aplicativo. Nunca pensei que seria capaz de falar para plateias de mais de 100 pessoas”.

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Seu projeto não ficou imune às críticas de parte do movimento feminista, que argumenta que o aplicativo joga nas costas das mulheres a responsabilidade por serem assediadas — ou seja, que cabe a elas escolher o caminho mais seguro para andar sozinhas e não aos homens aprender a respeitá­las. “Mais triste do que existir uma ferramenta como essa é saber que ela é necessária e ninguém fazer nada. Todo mundo sabe que o problema existe e que ele acontece diariamente”, defende-se Priscila, que prega um foco maior no estímulo ao respeito por parte dos homens.

“Mais triste do que existir uma ferramenta como essa é saber que ela é necessária e ninguém fazer nada. Todo mundo sabe que o problema existe e que ele acontece diariamente”

Ela se diz cansada de perceber que o mundo das startups é dominado por “homens heterossexuais brancos”. E espera que um dia possa olhar para uma plateia e não ter de constatar que, de 300 pessoas envolvidas em um evento sobre inovação, apenas três são negras, como já ocorreu. Priscila quer que a Malalai vá além da segurança de gênero: “Meu objetivo é que meninas e mulheres acreditem em seus potenciais produtivos”.

Publicado em VEJA de 4 de julho de 2018, edição nº 2589

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